A América Latina contemporânea tem fornecido o cenário para a emergência e multiplicação de movimentos sociais ao longo dos últimos dez anos. Por vezes isso parece tomar um cunho quase insurrecional, em outros momentos tal processo se conecta a mudanças mais amplas no sistema político, em outras situações ou momentos esses movimentos se mostram como força importante sem, contudo, obter maior impacto na sociedade inclusiva
Análise
de Conjuntura OPSA (nº 2, fevereiro de 2007)
ISSN
1809-8924.
José
Maurício Domingues
Diretor Executivo do
IUPERJ.
Introdução
A
América Latina contemporânea tem fornecido o cenário
para a emergência e multiplicação de movimentos
sociais ao longo dos últimos dez anos. Por vezes isso parece
tomar um cunho quase insurrecional, em outros momentos tal processo
se conecta a mudanças mais amplas no sistema político,
em outras situações ou momentos esses movimentos se
mostram como força importante sem, contudo, obter maior
impacto na sociedade inclusiva. Em muitos aspectos esses movimentos
se mostram inovadores, ou ao menos diferentes daqueles que vigeram em
períodos anteriores. É sobretudo a investigação
dessa novidade que norteará este artigo, sem deixar de lado os
elementos de continuidade que os movimentos sociais contemporâneos
latino-americanos mantêm com os aqueles que os
antecederam.
Para compreender esses movimentos sociais não
basta, porém, debruçar-se exclusivamente sobre eles,
embora isso seja evidentemente necessário. Tampouco serve-nos
evocar em tom de denúncia o neoliberalismo que tem dado as
cartas desde a década de 1990, conquanto seja igualmente
importante assinalar as conseqüências engendradas por esse
projeto político. Na verdade é mister localizar a
emergência dos novos movimentos sociais latino-americanos
naquilo que quero definir como a terceira fase da modernidade. Para
isso é preciso definir como seriam as duas fases que a
antecederam e delinear a aquela que a elas se seguiu. Realizei essa
operação com mais detalhes em outras ocasiões.
Assim, contentar-me-ei em esboçar em breves traços como
elas se caracterizam.
Modernidades
latino-americanas
A primeira fase da modernidade –
liberal restrita e vigente no século XIX – teve no
mercado seu centro, com um estado que deveria ser meramente
coadjuvante na criação e na manutenção da
ordem social. Obviamente, isso era em grande medida uma utopia, a
qual previa a homogeneização absoluta da sociedade, a
ser composta doravante de indivíduos atomizados que teriam
laços de outro tipo apenas com suas famílias. Se na
Europa e nos Estados Unidos a concretização desse
modelo foi em geral parcial, na América Latina
oligárquico-latifundiária isso foi ainda mais restrito.
A sua crise englobou, de todo modo, de maneiras distintas, o mundo em
seu conjunto. Daí emergiu a segunda fase da modernidade, em
que o estado adquiriu muito mais centralidade, mantendo-se aquela
utopia de homogeneização, que mercado e estado
deveriam, cada qual a sua maneira, implementar. O fordismo
complementava o modelo, implicando grande produção em
massa de produtos standart que uma nova classe operária
consumiria. Na América Latina periférica u
semi-periférica, características específicas
marcam essa segunda fase. Expressam-se sobretudo no estado
desenvolvimentista, que era a contra-face do estado keynesiano e de
bem-estar que vicejou no ocidente, no centro da modernidade global já
então mais que estabelecida; e, desde os anos 1950, no consumo
de produtos pelas camadas médias proporcionado pela instalação
das empresas transnacionais, que no centro produziam para uma massa
de trabalhadores.
O movimento operário foi
crescentemente o principal movimento social dessas duas primeiras
fases da modernidade, secundado pelo movimento feminista, sobretudo
no ocidente, ao passo que na América Latina destacavam-se
também o movimento camponês e inúmeros movimentos
comunitários, ligados ao vasto mercado informal de trabalho e
às péssimas condições de vida dessas
populações que migravam para as cidades. A teoria
marxista – que previa a passagem da “classe em si”
à “classe para si” e ao movimento revolucionário
comunista – foi a principal interpretação desse
movimento (ver Giddens, 1973). Outras dela derivaram ou se lhe
aparentavam, ainda mais calcadas nos “interesses”
econômicos e na separação da economia da política
como solo para formação das classes e de sua
consciência, como no caso da perspectiva de Touraine (1988, pp.
447-51)1 – que também surgia a partir da crítica
ao “populismo” que teria “manipulado” os
trabalhadores na passagem da sociedade “tradicional” à
“moderna” na América Latina. Deve-se observar
ademais que o corporativismo, inspirado no fascismo, serviu no
subcontinente à incorporação controlada do
movimento operário, especialmente naqueles países em
que houve uma crise da dominação oligárquica,
sobretudo México, Argentina e Brasil, e, na Bolívia, do
movimento camponês. A essa incorporação
correspondia a repressão dos setores populares que recusassem
a tutela estatal, forjando-se destarte o chamado padrão
“cooptação-repressão” típico
da segunda fase da modernidade latino-americana (Spalding Jr., 1987;
Maneiro, 2006).
A crise que se inicia nos anos 1970 dura até
os 1990 em todo o mundo. Esse é efetivamente o momento de
emergência do neoliberalismo, que pretende responder à
crise da segunda fase da modernidade, embora seu programa datasse de
período anterior. Na América Latina, conquanto capaz de
mudar o modelo de regulação social em geral e em
particular do capitalismo, seus efeitos foram fundamentalmente
desastrosos – econômica, social e politicamente. De forma
paradoxal, foi este também o momento em que a transição
para a democracia começou a se dar em toda a América
Latina, inclusive com regimes oligárquicos seculares (malgrado
formalmente democráticos, como o venezuelano), mostrando-se
frágeis ante a nova situação. A esta altura as
massas populares se libertavam definitivamente de formas de dominação
pessoal, inclusive mercê da consolidação
neoliberal dos mercados de trabalho assalariado no campo, via o
fortalecimento da agroindústria, e do corporativismo, desde
fins dos anos 1970 através do “novo sindicalismo”,
no caso brasileiro. Elas passavam a desfrutar de um ambiente de
liberdades políticas e sociais sem par até então
no subcontinente, em que pese problemas de várias ordens para
a consolidação de um amplo estado de direito. A
crescente globalização econômica – neste
momento capitaneada pela abertura dos mercados – e cultural –
que disponibilizou imagens e identidades, intensificando a
comunicação em todo o planeta -, é outro
elemento a ser considerado nessa nova configuração
social.
Permitam-me, então, já em um plano mais
analítico listar e organizar alguns elementos-chave que se
encontram presentes nessa nova situação: sociedades
mais complexas e plurais – fruto de processos de diferenciação
social cujos desdobramentos atravessam toda a modernidade – e
menos submetidas àquela, cada vez menos eficaz, utopia
homogeneizadora, além de uma maior exposição
dessas sociedades a padrões globais; sujeitos individuais e
coletivos mais “desencaixados”, isto é, com mais
mobilidade física e identitária; sistemas políticos
altamente “poliárquicos”, ou seja, com amplas
possibilidades de participação, não apenas
eleitoral, e de debate, apesar de suas limitações; e,
deve-se acrescentar, a crise da noção de socialismo,
comunismo, libertação nacional e nação
que a esquerda (partidos comunistas, movimentos nacional-libertadores
e guerrilhas – cf. Touraine, 1988, pp. 199ss e 331ss) até
bem pouco tempo sustentava. Estão eles entre aqueles
fundamentais para caracterizar aquilo em que consiste a terceira fase
da modernidade latino-americana, ao que se deve aduzir o pós-fordismo
e a renovação da posição subdesenvolvida
e subordinada – como exportadora de commodities – que
marca sua posição no padrão global de
desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, hoje como antes
(ver especialmente Domingues, 2002 e 2005).
Aqui encontramos,
de um lado, os condicionamentos sociais – inclusive uma
fragmentação ainda maior da classe trabalhadora –
e, de outro, as questões e possibilidades institucionais –
em particular a luta pela democracia e a consolidação
enfim do novo ambiente democrático, que se conjugou a um
estado enfraquecido pela política neoliberal – que
proporcionaram o surgimento e a renovação dos
movimentos sociais latino-americanos desde os anos 1990. Uma nova
“cultura política” se forjava nesse momento, fruto
da luta pela democracia e do pluralismo cada vez mais amplo e
evidente a se expressar nas lutas sociais que contribuíram
decisivamente para a queda das ditaduras militares nos anos 1980,
assim como da consolidação de demandas de populações
que mais fortemente alcançavam a cidadania e lutavam por sua
ampliação (Escobar e Alvarez, 1992; Alvarez, Dagnino e
Escobar, 1998). Continuidade e solução de continuidade,
como veremos a seguir, se conjugavam nessa nova cultura
política.
Diversidade e renovação
Nas
páginas a seguir, tratarei dos aspectos principais dos
diversos movimentos sociais que têm hoje mais destaque na
América Latina, para enfim buscar um quadro sintético
mais geral. De início é importante assinalar que a
pluralização dos movimentos sociais e a perda de uma
clara hierarquia entre eles implicaram o que se poderia definir como
o seu descentramento enquanto subjetividades coletivas (ver
Domingues, 1995). Sua identidade é mais fluida quando se
considera o somatório dos movimentos, nas diversas dimensões
que analisaremos a seguir – embora em si possam ser até
altamente centrados; e sua organização tende em muitos
casos, pela mesma razão, a ser mais dispersa, o que de resto
requer um mecanismo de coordenação específico de
forma a possibilitar seu centramento relativo – conquanto, mais
uma vez, em si possam ser altamente organizados e inclusive
hierárquicos.
Como assinalado acima, o sindicalismo –
e, de modo mais geral, o movimento operário – foi visto
como a grande expressão dos movimentos sociais nas primeiras
fases da modernidade. Em geral se pretendia que constituísse
uma subjetividade coletiva altamente centrada. Na América
Latina, o enorme espaço ocupado pelas relações
de trabalho informais fizeram da organização dos
trabalhadores algo mais complicado, com a exceção
parcial da Argentina, onde um modelo de acumulação
quase intensivo e em parte baseado no consumo das massas gerou uma
numerosa classe operária fabril e sindicalizada. Os movimentos
comunitários, de moradores, foram a contrapartida daquela
informalidade e precariedade do mundo do trabalho. Mais recentemente,
com uma crise mais profunda do trabalho e do emprego, muitos
imaginaram um declínio do movimento sindical que espelharia o
que supostamente se verifica nos países centrais (Europa,
Estados Unidos). A crise da dívida nos anos 1980, o
neoliberalismo na década seguinte, a reestruturação
produtiva na mesma época, novas formas, mais liberais e
desfavoráveis aos sindicatos, de regulação dos
mercados de trabalho, uma tendência forte à
reprimarização das economias latino-americanas, além
do surgimento de fortes movimentos de desempregados, pareciam atestar
a validade dessa tese (Zapata, 2003; Maneiro, 2006). A Argentina, com
o declínio do sindicalismo peronista e a organização
dos desempregados como “piqueteros”, seria o exemplo mais
eloqüente desse processo, detalhadamente analisado por muitos
autores (em particular por Svampa e Pereira, 2003; ver também,
Svampa, 2005).
Mas a verdade é que o sindicalismo segue
sendo uma força a ser considerada, talvez mesmo o movimento
social mais importante, de maneira geral, na América Latina.
Sua libertação do jugo corporativista no Brasil e na
Argentina, com novos sindicatos e centrais de trabalhadores,
permitindo pluralismo e mais capacidade de mobilização
por vezes, ainda que em condições econômico-sociais
com freqüência extremamente desfavoráveis,
garante-lhe uma posição de destaque nas lutas sociais.
É verdade que no Chile ele declinou brutalmente e que no
México
o corporativismo segue sendo influente nas cúpulas
(embora cada vez menos consiga controlar as bases sindicais); e que
em muitos países outros movimentos se mostram mais relevantes.
Mas com uma população de trabalhadores assalariados
extremamente numerosa, e boa parte dela sindicalizada, o sindicalismo
permanece como movimento social de grande relevância na América
Latina, embora em muitos casos precise, urgentemente, se modernizar –
o que, de resto, foi o caso no Brasil nos anos 1970-80 e ocorre hoje
na Argentina, onde fortes movimentos grevistas têm tido lugar
nos últimos dois anos (Zapata, 2003; Quiroz Trejo, 2004;
Svampa, 2006). Isso não quer dizer que se esteja constituindo
um movimento operário revolucionário ou socialista: não
há porque misturar essas coisas, cuja articulação
é contingente, embora possa vir, mais uma vez, a ocorrer
fenômeno deste tipo mais adiante, caso forças políticas,
condições sociais e subjetividades operárias
confluam de algum modo nessa direção. Além
disso, seu grau de centramento, devido a seu pluralismo, diminuiu e
se faz mais problemático, pois depende de arranjos em que
diversas organizações desfrutem de mais
liberdade.
Seja como for, é no âmbito do bairro,
entre “vecinos”, como nas “afueras” de Buenos
Aires ou em El Alto, nas cercanias de La Paz, ou na vastidão
das cidades do México, Lima ou São Paulo, que muito da
política popular latino-americana se realiza hoje, com
movimentos mais pontuais ou mais abragentes (contra o
“neoliberalismo”). Eles evidenciam graus relativos de
centramento, possuindo identidade e organização
variáveis, com pautas construtivas e continuidade ou como a
expressão dispersa e um tanto a esmo da “protesta”
social – termo caro à literatura argentina, o que
evidencia a mobilização massiva daquela sociedade,
porém também os limites de seus movimentos sociais.
Essa é uma tradição comunitária
latino-americana que, assim como o sindicalismo, mantém em
grande medida continuidade com o período anterior, de forma
geral o século XX, sem que se deva idealizá-la como
domínio da pureza popular, como costumava ser feito há
algumas décadas. Muitos, contudo, gostariam de ver aí
uma ruptura ou ao menos uma inflexão, pois o bairro
“territorializaria” esses movimentos, que deixariam de
ter a fábrica como referência, tese cara, mais uma vez,
aos analistas argentinos (Svampa e Pereira, 2003; Revista OSAL, nos.
1-20, 2000-2006). Mas se, na América Latina, é muito
mais continuidade que mudança o que se nos depara nesse
sentido, é certo também, por outro lado, que
coordenadas espaço-tempo específicas se encontram
presentes na constituição de qualquer sistema social,
no que se incluem, obviamente, os movimentos sociais.2
Mais
surpreendente que qualquer outro fenômeno tem sido o que se
poderia considerar uma “re-etnização” da
América Latina. Isso é verdade particularmente na
região andina e na América Central (sobretudo na
Guatemala e no México), mas ocorre por toda parte. Quéchuas,
aymaras, mapuches, indígenas de Chiapas, Sonora e Yucatan
parecem haver subitamente redescoberto serem “índios”
– ou “povos originários”, como preferem
muitos. É preciso, contudo, tomar cuidado com esse tipo de
imagem, amiúde difundida pela mídia. Aqui definições
analíticas são imprescindíveis para que possamos
dar conta adequadamente de nosso objeto.
Há pouco
observei que as classes trabalhadoras não são
necessariamente revolucionárias, muito menos socialistas em
princípio. Deve-se notar que desde sempre, em uma forma
reflexivamente prática, seus membros se reconhecem como as
constituindo, podendo dar forma e conteúdo sistemático,
ao racionalizar sua reflexividade, a essa identidade prática e
em geral difusa. Podem ademais politizá-la – e inclusive
emprestar-lhe conteúdo revolucionário e socialista. Uma
identidade sistemática somente é possível,
todavia, na medida em que praticamente isso é plausível,
ou seja, desde que os indivíduos que conformam essas classes –
que se encontram além do mais em relação com
outras classes – compartilhem condições de vida,
relações e práticas sociais. O mesmo se passa
com os setores populares cuja etnicidade veio recentemente para a
linha de frente da política popular. Quéchuas e
aymaras, mapuches e ianomanis têm sido desde sempre grupos
étnicos distintos, compartilhando um idioma e modos de vida
específicos. Isso tem em geral permanecido ativo no plano
prático. Nos Andes, em particular, mas também no
México, a identidade camponesa desses setores é que
adquiriu preeminência e sistematicidade, inclusive do ponto de
vista político, durante o século XX.
Com a crise
das concepções classistas e das políticas de
esquerda, a realização bastante extensa da reforma
agrária, mas com resultados limitados na prática, o
desmonte das políticas de apoio aos camponeses pelo
neoliberalismo (o que inclui a possibilidade de alienação
das parcelas individuais do “ejido”, terras comunitárias,
no México) e a crise do sindicalismo rural, isso se fez mais
difícil. Somam-se a essas dificuldades a complexificação
das sociedades nacionais, sua crescente exposição à
globalização e uma cada vez mais enfática
valorização de diferenças que o estado nacional
nem queria nem mais podia simplesmente tentar homogeneizar (em
particular com certa perda de legitimidade da ideologia – em
parte realidade – da mestizage), com a adoção em
vários desses países da educação
bilíngüe. Torna-se assim possível entender como
sobreveio tal mudança. Isto é, como houve não
apenas uma sistematização (racionalização),
mas também uma politização das identidades
étnicas, principalmente nos países com populações
pré-colombianas mais numerosas (Wade, 1997; Trejo, 2002;
Stefanoni, 2004; Guimarães, Domingues e Maneiro, 2004).
Mas
aqui é preciso, mais uma vez, ser cauteloso. Primeiramente
porque essa etnicidade não é aquela – na verdade
folclórica – que remeteria diretamente ao mundo
pré-colonial. Muita água correu desde então por
baixo da ponte: esses “povos originários” são
étnicos em seu imaginário, instituições e
práticas contemporâneas, conquanto em alguns momentos
queiram eles mesmos recorrer a reconstruções daquele
período para reforçar e legitimar suas identidades e
reivindicações. Em segundo lugar, não há
razão para supor, esperar ou inclusive, talvez, sequer desejar
que em todos esses países e regiões haja uma
politização da etnicidade. No Peru, por exemplo, não
é este o caso. Aí é provável que a
política e os movimentos sociais percorram outros caminhos,
não menos legítimos, não menos populares que
aqueles que emprestam destaque ao tema da identidade étnica
(Burt e Mauceri, 2004). Quanto a sua constituição
básica como subjetividade coletiva, uma característica
se destaca: graças ao poder da vida comunitária e à
ausência de domínio hoje de grandes proprietários,
esses movimentos são com freqüência altamente
centrados (especialmente na Bolívia e no Equador), com forte
identidade e organização, as quais dependem, contudo,
de forma radical de uma participação popular permanente
e vigilante.
Ademais é preciso considerar que muitos
desses movimentos, conquanto tenham o tema da autonomia, cultural e
inclusive político-administrativa, em seu centro, mantêm
uma pauta bastante concreta e, por assim dizer, “materialista”:
reforma agrária, políticas de sustentação
aos pequenos produtores, controle dos recursos naturais de suas
regiões ou do país como um todo. Há nesse
sentido clara continuidade entre o passado e o presente. Na verdade
não há mais fortes movimentos agrários ofensivos
na América Latina – com a exceção do
Brasil; ao mesmo tempo as lutas no campo seguem vigentes (Williams,
2001; Kay, 2002). Os camponeses permanecem aqui e ali, bem como é
significativa a pobreza rural. Por outro lado, a agroindústria
avançou tremendamente no subcontinente, gerando um vasto
proletariado rural e grande desemprego nessas regiões também.
No México o neoliberalismo e o Tratado de Livre Comércio
da América do Norte (TLCAN) vêm fazendo um brutal
estrago entre os produtores rurais, certamente no que tange aos
pequenos, afetando, entretanto, enormemente também médios
e grandes proprietários, que não conseguem competir com
a importação de alimentos dos Estados Unidos. El Barzón
é o movimento que responde a esse choque comercial e
financeiro. Mais curioso é o caso do Brasil. País de
dimensões continentais, com muitas terras disponíveis
(cuja qualidade econômica e disponibilidade de um ponto de
vista ambiental são contudo discutíveis), ele abriga o
maior movimento agrário das Américas, ao lado da
guerrilha capitaneada pelas Forças Armadas Revolucionárias
Colombianas (FARC). Que não se trata de um movimento camponês,
por outro lado, se patenteia imediatamente por seu nome –
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) – e, de forma mais
indireta, por suas táticas de luta, que implicam a grande
mobilidade de uma massa de militantes, algo que não seria de
modo algum possível para uma organização de
camponeses, estes sim presos a sua terra e à produção
que dela precisam extrair. Seu alto grau de centramento é
conhecido, embora sua estrutura muito hierárquica seja pouco
mencionada.
A questão da raça e dos movimentos
sociais contra o racismo repõe alguns dos temas já
encontrados no que se refere à construção da
identidade tal qual abordada acima. Mas neste caso de uma forma
particular. Ao passo que a plausibilidade das identidades e dos
movimentos de classe e étnicos é por si bastante forte
– embora não esteja jamais ausente a variável
relacional, em outras palavras, o processo interativo mediante o qual
todas as identidades se formam –, no que concerne à raça
a questão do poder assume destaque. De modo geral, a
racialização de um grupo social – no caso
latino-americano, principalmente negros, mestiços e indígenas
– é fruto de sua rotulação por parte
daqueles capazes de impor socialmente essa definição,
que via de regra se acompanha de subalternização,
negatividade e discriminação, erigindo um estatuto de
inferioridade. Hoje o tema da raça se refere sobretudo às
populações afro-descendentes, porquanto a etnicidade
sirva de canal para a afirmação positiva de sua
diferença por parte dos descendentes dos indígenas
pré-colombianos. Desde ao menos fins do século XIX, a
luta contra o racismo que atinge negros e mestiços vem se
fazendo. Aprofundou-se por volta dos anos 1930 para lançar-se
com força sem igual nos anos 1980. Com isso assumia para si
aqueles elementos identitários que até então
eram usados para estigmatizar, invertendo seu sinal. Movimentos de
classe média ascendente, bem como de alguns setores populares,
conformam os movimentos sociais de afro-descendentes
latino-americanos, especialmente no Brasil e na Colômbia, de
forma plural e bastante descentrada (Wade, 1997; Sansone,
2002).
Dois temas delicados se põem, ademais:
primeiramente o fato de que durante a maior parte do século XX
essas foram sociedades que cultivaram a ideologia da mestiçagem
e da “democracia racial”. O movimento negro, buscando em
novas bases a integração social, não pode lidar
senão de maneira ambivalente com esse legado. Em segundo
lugar, mas em conexão com aquele primeiro, insinua-se o tema
da influência do modelo bi-racial e polarizado norte-americano,
inclusive com o apoio e sustentação financeira de
instituições daquele país. Se se trata de
questão problemática, o movimento negro parece ter
sabido enfrentá-la de forma produtiva. Se inicialmente
assimilou a-criticamente aquela perspectiva, acabou por reformulá-la
na direção de ampliar suas demandas para o conjunto dos
“afro-descendentes”, deixando de lado um simples e
inadequado corte bi-racial (Sansone, 2002; Costa, 2003, cap.
7).
Outros movimentos, que em passado recente tiveram peso
enorme, vêm tendo trajetórias ondulantes: os movimentos
democráticos e por direitos humanos possuem força
ainda, sobretudo na Argentina e no Chile – onde o peso das
sanguinárias ditaduras dos anos 1970-80 ainda se faz sentir,
inclusive com o seqüestro de testemunhas em processos contra
assassinos e torturadores (Garretón, 2003, cap. 7). Não
parecem ter, contudo, uma pauta que coloque em cheque propriamente a
estrutura de poder e dominação dos estados modernos,
para além da constituição efetiva do estado de
direito e da punição de criminosos oriundos das
ditaduras militares. O movimento ambientalista foi fortíssimo
em vários países – especialmente no Brasil e no
México –, mas declinou após a institucionalização
formal do tema e a substituição do movimento enquanto
tal por grupos profissionais, de pressão e por organizações
não governamentais (ONGs) (Domingues e Pontual, 2007). Um novo
ambientalismo, porém, parece estar surgindo, seja nesses
países, motivado pela crise ambiental global que desaba sobre
o planeta e a humanidade, seja em outros, como na Argentina, onde
nunca chegou a ter maior expressão (Svampa, 2005, cap. 2), ou
ligado aos movimentos indígenas (Revista OSAL, no. 17, 2005).
Por fim o feminismo, poderoso nos anos 1980, se bem que de forma
difusa um tema vivo e de forma descentrada constituindo ampliadamente
um novo tipo de subjetividade coletiva, se “ongizou” e
declinou em termos de criatividade e capacidade de mobilização
cultural e política (Alvarez, 1998).
Enfim, duas
questões devem ser focalizadas antes de buscarmos um fecho
conceitual mais espesso para nossa análise desses movimentos
sociais e relacioná-los de forma mais ampla ao sistema
político. Primeiramente, deve-se assinalar que o que se pode
definir como a “política da autonomia” ganhou
espaço em muitos movimentos sociais latino-americanos
recentemente. Isso se observa, por exemplo, no México
(Giordano, 2006), com os zapatistas, e na Argentina (Svampa, 2006),
no seio de sua miríade de movimentos sociais. As idéias
de Antonio Negri e a simplificação neo-anarquista
produzida por John Holloway dão base a essa política. A
recusa aos partidos políticos, de tipo mais pluri-classista,
como o Partido Revolucionário Democrático (PRD) no
México – o que se expressou na chamada “la otra”,
uma campanha paralela à presidencial em que o candidato
oficial da esquerda era Andrés Manuel Lopez Obrador – é
um exemplo forte disso; bem como o é a recusa a forças
da esquerda revolucionária tradicional (leninistas ou
trotskistas). Isso se completa com a suposição de que o
papel do estado na mudança social é na melhor das
hipóteses contraproducente.
Mais importante, de grandes
implicações sociais e com raízes na teoria
sociológica clássica, é o papel dos novos
movimentos religiosos na América Latina. Desde Weber (1920) ao
menos sabemos que os movimentos religiosos são cruciais para
os processos sociais de mudança rumo à modernidade e
dentro dela. A esquerda, a partir de certo momento, concentrada nos
movimentos socialistas revolucionários e com inclinações
secularizantes, na melhor das hipóteses tomou como secundário
o papel da religião nas transformações sociais.
Mas hoje é como se os movimentos religiosos fizessem questão
de desmenti-la. Muitas vezes eles são já altamente
centrados – baseados em mecanismos hierárquicos –
e institucionalizados, contando com um corpo de clerical autoritário
e manipulativo. Outras vezes, implicam em participação
popular massiva, bem mais descentrada e mutante, embora podendo
assumir um caráter intolerante. Alteram, de todo modo, valores
e modos de vida, não por acaso em camadas médias
ascendentes, em populações pobres da periferia e em
comunidades indígenas urbanas ou rurais, com participação
forte muitas vezes nos processos políticos e com a circulação
de lideranças de e para movimentos seculares. Esse é o
caso, por exemplo, do katarismo e de seus desdobramentos
contemporâneos na Bolívia “re-etnicizada”,
que recebeu e forneceu quadros aos movimentos evangélicos em
particular na região de El Alto (Canessa, 2000). Goste-se ou
não da direção em que se lançam os
movimentos religiosos, em particular os hodiernos, aprecie-se ou não
o papel da própria religião na vida social, ao analista
social cumpre compreender a potencialidade desses movimentos, suas
formas de organização, seu conteúdo e a
contribuição que dão à mudança nos
modos de vida e na vida social de maneira geral.
Algumas
questões conceituais e conclusões políticas
parciais
Foi possível até aqui constatar uma
grande pluralização dos movimentos sociais
latino-americanos, o que é fruto e ao tempo consiste em um dos
elementos da crescente complexidade da modernidade, agora em sua
terceira fase. Alguns deles sem dúvida pré-existiam a
esse período mais recente, mas sua preeminência,
situação de igualdade ou inclusive maior importância,
em relação ao movimento sindical e operário, ou
camponês, é uma novidade que não se deve
subestimar. Isso se mostra ainda mais dramático se os novos
movimentos religiosos, que, em sua pluralidade radical, quebraram
definitivamente o monopólio da igreja católica, são
admitidos no quadro interpretativo dessa nova fase da
modernidade.
Há alguns anos, após a valorização
pela esquerda dos chamados “novos movimentos sociais” na
Europa e nos Estados Unidos, e a posterior constatação
de que não substituiriam o movimento operário como
coveiro do capitalismo, algumas teorias se firmaram como paradigmas
interpretativos desses novos movimentos sociais. Nelas uma clara
divisão se apresentou entre correntes mais
histórico-filosóficos, européias, e outras, mais
preocupadas com temas organizativos, vertente norte-americana (ver
Eder, 1993). Melucci (1996) é um expoente daquele primeiro
grupo de paradigmas. Segundo ele, distantes do estado e da política
formal-institucional, os novos movimentos teriam caráter
molecular, baseando-se em redes de colaboração que
durante certos períodos poderiam permanecer latentes. A
mudança cultural, desconectada de interesses materiais, e a
transformação social de longo prazo têm grande
destaque em suas teses. Tarrow (1994), por seu turno e expressando
aquela outra vertente, derivou sua discussão em parte da
problemática do utilitarismo de Olson, buscando perceber em
que condições e de que forma os movimentos se organizam
e quais seriam seus impactos mais imediatos: as oportunidades
políticas para o surgimento dos movimentos (isto é,
quando seus organizadores entendem que o custo para deslanchá-los
é válido e os benefícios, suficientes), suas
redes internas e que recursos são capazes de mobilizar são
seus principais elementos analíticos. Em que medida essas
teorias servem para compreender a nova configuração dos
movimentos latino-americanos?
De início é mister
reconhecer, como o faz Santos (1995, pp. 256-69), que não há
de modo algum uma divisão entre movimentos materialistas e
pós-materialistas na América Latina. O próprio
movimento ambientalista no subcontinente, tendo trazido para a linha
de frente o conceito de “desenvolvimento sustentável”,
nada teria a ver com essa visão dicotômica (Domingues e
Pontual, 2007). A idéia de “custo” e benefício
maiores ou menores seria ademais problemática, uma vez que, se
a democracia facilitou a emergência de novos movimentos e seu
florescimento, foi sob brutais ditaduras que muitos deles surgiram ou
se mantiveram ativos, ainda que os anos 1990 testemunhem uma inflexão
no cenário e no tipo de movimentos em atividade. De resto, não
há porque supor que interesses são em si utilitários
e que a ação de indivíduos e a movimentação
das coletividades se baseiam em cálculos de custos e
benefícios (o que não quer dizer que isso não
ocorra em certas ocasiões). As motivações podem
ser várias e os interesses devem ser muito mais amplamente
concebidos, sem que isso nos deva levar de volta à discutível
divisão entre valores materiais e pós-materiais. O fato
é que muitos movimentos sociais se formam em situações
que de forma alguma se adaptam à noção das
oportunidades com baixos custos e altos retornos, o que com
freqüência consiste em uma tese calcada em um utilitarismo
apriorista. Amiúde passa-se o contrário.
Redes
internas e externas são, outrossim, fundamentais para o
sucesso desses movimentos, a despeito dos riscos de cooptação
clientelista que correm com isso (Chalmers, Martin e Piester, 1997;
Rodríguez Garavito, Barret e Chavez, 2005). Na verdade, a
articulação bem sucedida de muitos deles entre si e com
o sistema político, inclusive os novos partidos de esquerda,
tem dependido muito do que deveria ser definido, analiticamente, como
um mecanismo de “rede” – isto é, de
“colaboração voluntária” através
da qual “projetos” comuns, circunscritos, podem ser
levados a cabo. Sem dúvida, se tomamos os movimentos
religiosos atuais poderemos ver que muitos se coordenam
hierarquicamente, no que o “comando” desempenha papel
decisivo. Isso quer dizer que não é correto absolutizar
nenhuma idéia de “sociedade em rede”. A
importância crescente daquele mecanismo de coordenação
em formações sociais cada vez mais complexas não
pode, porém, ser desconsiderada (ver Domingues, 2002, cap. 8).
É a colaboração voluntária que tem
permitido o centramento mais elevado de muitas dessas subjetividades
coletivas, cujo poder de mobilização funda-se
largamente na liberdade de seus membros e bases comunitárias.
Do
ponto de vista da mudança cultural e social mais ampla, logo
no que se refere a seu papel transformador e a sua transcendência
histórica, os novos movimentos sociais latino-americanos –
laicos e religiosos – confirmam largamente as teses clássicas
da sociologia (Marx e Engels, 1848; Weber, 1920; ver ainda Domingues,
1995, p. 155, e 2003). Continuam a ser eles o “motor da
história”, os introdutores de novos “modos de
vida”, propulsores da transformação social, em
uma nova articulação entre cotidiano e história.
Isso é patente no plano da cultura, na democratização
paulatina e molecular das relações sociais, na direção
de um individualismo democrático ou de um utilitarismo sem
peias (ambos comuns nas novas religiões), de um lado, ou, de
outro, na reivindicação sistemática da
cidadania. Essa importância para o desenrolar da história
deve ser, contudo, tratada sem nenhum recurso à teleologia: a
direcionalidade – os fins e finalidades – desses
movimentos é tão contingente como a dos processos
históricos em que se inserem; sequer devem ser vistos os
movimentos sociais como aquelas subjetividades coletivas que trazem
inovações do plano da cultura para o das instituições,
em uma direção crescentemente universalista e
“reflexiva”, como quis Habermas (1981, vol. 2). No caso
latino-americano contemporâneo em particular, a contribuição
dos movimentos sociais é ela mesma descentrada e seu vetor,
altamente contingente, em função de sua pluralidade,
metas variáveis e alianças que não são
necessariamente dadas desde sempre.
Assim, gostaria de propor
um breve esquema de variáveis, lato sensu, que deveriam ser
levadas em conta para uma análise adequada dos movimentos
sociais latino-americanos hoje – que serviria, na verdade, de
modo mais geral à análise de movimentos sociais:
1*
Direcionalidade (fins/historicidade)
2* Motivações
3*
Acesso a recursos externos
4* Estrutura interna (dimensões
material/hermenêutica/espaço-temporal/de poder)3
5*
Nível de centramento (identidade/organização)
6*
Mecanismos de coordenação (redes/hierarquias)
7*
Condições sociais e ambiente interativo
Problemas
graves persistem, todavia, se o que se põe em tela é a
relação entre sociedade e estado, neste caso
mobilizando-se principalmente as variáveis direcionalidade e
condições e ambiente interativo. Decerto a relação
dos movimentos sociais com as instituições formais da
democracia não são nunca simples, mas na América
Latina algumas peculiaridades podem ser discernidas nesta época
pós-corporativista. Isso é claro se, brevemente,
tomamos alguns exemplos atuais.
Na Bolívia, onde os
movimentos sociais, na complexidade de suas alianças e de seu
imaginário, vêm procurando levar à prática
uma política nacional-popular e assim refundar a nação,
a despeito de problemas conjunturais sérios se observa
claramente um processo de transformação significativo
(García Linera, 2006). Na Argentina, o contrário é
verdadeiro: dispersos e fragmentados, demasiadamente concentrados na
questão da autonomia e de suas lutas internas, os movimentos
sociais, não obstante a profundidade da crise de 2001-2002,
não lograram avançar um milímetro na refundação
do sistema político, que segue congelado na reprodução
de um “peronismo infinito”, cujas inclinações
– dúbias, de fato – à esquerda complicam
ainda mais a situação (Svampa, 2006). No Brasil, os
movimentos sociais foram efetivamente fortes nos anos 1970-1980 –
época do surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT). A
política do governo Lula vinte anos depois, muito moderada,
decerto é em parte explicada por essa defasagem; mas o que
apresenta de positivo tem com certeza muito a ver com a herança
que lhe deixaram as mobilizações sociais das quais
muitos anos depois emergiu (Domingues, 2006). Já na Venezuela,
onde os movimentos sociais são fracos, o que encontramos, sob
as vestes do “socialismo do século XXI”, é
um tipo de “cesarismo progressista” (Gramsci, 1929-35,
vol. 3, pp. 1619-20) que tenta operar modificações de
cima para baixo, com compromissos democráticos dúbios
(como de resto são também os da oposição).
O destino do chavismo talvez seja o mais incerto desses quatro casos,
uma vez que, se não caracteriza um “equilíbrio de
forças” propriamente, suas perspectivas, por assentar em
um vazio de mobilização popular, podem terminar sendo
igualmente “catastróficas”. Nada garante, contudo,
que movimentos sociais fortes e em aliança com partidos de
esquerda ou centro-esquerda sejam capazes de realizar mudanças
mais amplas, caso a resistência dos setores dominantes seja
ferrenha. Isso é o que se pode ver claramente no processo
político mexicano contemporâneo, com um “transformismo”
conservador mantendo o controle do sistema político sem
nenhuma demonstração de que buscará efetivas
acomodações daqui para frente (Giordano,
2006).
Busquei, neste breve artigo, apresentar em largos
traços os movimentos sociais mais importantes na América
Latina contemporânea, situando-os dentro do que defini como a
terceira fase da modernidade. Propus alguns instrumentos analíticos
que poderiam nos permitir uma compreensão mais sistemática
e rigorosa de sua estruturação e alcance social,
político e histórico. Embora se fale e se escreva muito
sobre movimentos sociais hoje no subcontinente, teoricamente a
discussão ainda é extremamente pobre; e, no Brasil, é
simplesmente inexistente de qualquer ponto de vista, mercê, em
parte, de seu declínio relativo nos últimos quinze
anos. Os modelos europeus e norte-americanos mostram-se problemáticos
em si e distantes em geral dessa realidade regional. É,
portanto, preciso avançar na direção de superar
essas limitações. Para isto, bem como para a
compreensão de seu potencial transformador imediato, este
artigo espera haver de alguma forma contribuído.
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NOTAS
1
Ainda que isto se ponha, a meu ver, em radical contradição
com a idéia de que as classes compartilham e disputam um mesmo
campo da “historicidade”. Cf. Touraine, 1984.
2
Poder-se-ia falar ainda, na senda de Thompson e Tilly, como o faz
Auyero (2002), de uma mudança no “repertório”
do “protesto social”, o que, no caso dos piqueteros, mas
também nas marchas de cocaleros na Bolívia e de greves
recentes na Argentina, incluiu em particular o bloqueio de estradas.
Mas é discutível se esse ponto deve ser realmente
enfatizado, ou se, conquanto constituindo uma agregação
ao repertório anterior, não modifica em profundidade as
formas de mobilização populares latino-americanas.
3
O acesso aos recursos advindos da mediação sistemas
sociais-natureza e a sua utilização, bem como a
construção simbólico-interpretativa desses
sistemas enquanto subjetividades coletivas; mais a sua configuração
espaço-temporal (natural e social) e a distribuição
do poder dentro deles, são elementos a serem analiticamente
considerados ao tratar desta variável. Cf. Domingues, 1995,
cap. 8.
Como citar
este documento: Domingues, José Maurício. Os movimentos
sociais latino-americanos: características e potencialidades.
En publicacion: Análise de Conjuntura OPSA, no. 2. Análise
de Conjuntura OPSA. 2007.
Acceso al texto completo:
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/brasil/iuperj/domingues.pdf
Descriptores
Tematicos: Movimientos Sociales, Sindicalismo, Campesinado,
Indigenas, Grupos Etnicos, Piqueteros, Neoliberalismo, Sistemas
Politicos, Corporativismo, Globalizacion, America Latina, Argentina,
Brasil, Chile, Bolivia, Peru, Mexico, Colombia