A região amazônica pode ser definida como uma formação societária portadora de contradições históricas elucidativas sobre os processos de constituição e expansão dos imperativos lógicos do sistema do capital em um espaço fronteiriço. Em termos gerais, os efeitos e as contradições de tais processos podem ser percebidos em quatro dimensões principais e articuladas entre si: a) no esgarçamento das configurações socioterritoriais pretéritas e na destruição das formas de vida e de organização social tradicional e historicamente estabelecidas na Amazônia; b) na integração das dinâmicas econômicas locais aos vetores da globalização (através do agronegócio); c) na instauração de novas modalidades de apropriação de recursos naturais (como a terra e a água) e na territorialização do capital e das suas formas sociais e políticas correspondentes; d) no suscitamento de lutas e resistências contra estes processos, através, principalmente, de movimentos sociais como o MAB (Movimento dos Atingidos pelas Barragens), MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), dentre outros.
Pretendemos, neste trabalho, discutir duas dimensões contemporâneas e interarticuladas dos processos acima descritos.
A primeira dimensão diz respeito à reprimarização da economia na Amazônia sob os signos da expansão do agronegócio e da reconfiguração internacional do sistema do capital, no estado de Rondônia.
Por um lado, a expansão dos commodities agrícolas na Amazônia meridional, principalmente a partir da década de 1990 e sob a égide do neoliberalismo, significou o início do aprofundamento dos processos de degradação socioambiental, expropriação do campesinato e das suas formas de vida e de exploração dos recursos naturais. Por outro lado, este mesmo movimento esteve relacionado a reconfiguração das formas de integração da região amazônica aos circuitos produtivos globalizados, evidenciando o surgimento de novos modelos de espoliação e a imposição de novas lógicas organizadoras das funcionalidades tanto dos espaços urbanos quanto dos espaços rurais.
Do ponto de vista dos impactos e dos desequilíbrios socioambientais, a reprimarização da economia na Amazônia (e em Rondônia), conduzida pela produção da soja, pela extração da madeira, pela criação de gado bovino e pela mineração, tem trazido consequências drásticas para aquele espaço, consubstanciadas principalmente no desmatamento da floresta amazônica, no uso intensivo de agrotóxicos como herbicidas (especialmente o glifosato), fertilizantes e pesticidas, na introdução de sementes geneticamente modificadas, e na construção de hidrelétricas, estas últimas fundamentais para a geração de energia elétrica destinada ao processamento dos produtos resultantes da mineração.
Nesse sentido, e de forma sucinta, podemos afirmar que a ascensão do agronegócio - entendido como o conjunto de relações contraditórias entre diversos setores da economia, mobilizados pelo imperativo da mercantilização da natureza e pelos capitais bancários, industriais e agropecuários - na Amazônia meridional tem produzido formas sociais e políticas específicas e concretas, cuja melhor compreensão se faz urgente, caso desejemos de fato elaborar modelos teóricos alternativos, capazes de subsidiar, pelo menos parcialmente, os movimentos sociais que tem proposto um enfrentamento prático de tais questões.
A segunda dimensão está relacionada ao exame das concepções ideologicamente dominantes sobre a natureza e sobre as suas formas de exploração e transformação, derivadas do aprofundamento das novas formas econômicas e políticas de espoliação, já referidas acima. O exame mais demorado de tal questão tem o propósito de elucidar a relação entre a constituição das formas de consciência - dentre as quais a controversa e difusa “consciência ambiental”- e os novos modelos de expropriação do mundo natural inaugurados pela consolidação do agronegócio enquanto paradigma de desenvolvimento e modernização.
Do ponto de vista teórico, adotamos a premissa - fundamentada em uma já importante e extensa bibliografia, composta por autores como John Bellamy Foster, Paul Burkett, Ian Angus, , Kohei Saito, Claudio Vizia, Manuel Sacristan, Michael Lowy, Mark Davis, Martin Empson, Del Weston, Daniel Tanuro, Jason W. Moore, dentre outros - de que a crítica da economia política de Marx possui uma dimensão ecológica incontornável, capaz de fornecer instrumentos analíticos imprescindíveis para a compreensão do estado atual das interações metabólicas entre o homem e a natureza, bem como dos seus fatores perturbadores.