Diversidade e Opressão
Esta mesa discutirá as relações entre diversidade, as diferentes formas de opressão social e as estratégias de resistência. As sociedades capitalistas contemporâneas apresentam grande diversidade cultural e étnica, resultantes de longas dinâmicas históricas. A colonização, a migração, as trocas comerciais e culturais, o intercâmbio de estudantes, a diplomacia, o turismo, os deslocamentos de refugiados, as guerras, a disponibilidade de transportes, colocaram em contato grupos humanos distintos em suas aspirações, códigos de comportamento, formas de governo, línguas, religiosidade, em suma, em suas culturas. Se, por um lado, isto incentivou o convívio, o enriquecimento cultural, o aprendizado, e a admiração mútua, por outro lado, houve também inumeráveis tentativas de hierarquizar e de submeter um grupo ao domínio de outro. Muitas culturas e povos foram exterminados ou profundamente alterados por estes contatos. Um vasto processo de hibridação cultural está em curso. As sociedades contemporâneas viram também seus valores questionados pela emancipação das mulheres, pelos LGBTIs, pelos movimentos da juventude, pelos despossuídos, os sem tetos e por uma multifacetada luta por direitos e identidades. Além disso, os processos opressivos, os preconceitos, e os ódios são estimulados diuturnamente por partes dos sistemas educacionais e dos grandes veículos de comunicação (Kilbourne, 1999; McChesney, 2008; Giroux, 2013b). O resultado de tudo isto é um convívio inescapável, mas dilacerado por opressões e rancores, que se mostram demasiadamente tenazes e plenamente resistentes às tentativas de abrandamento. O arrefecimento e a explosão de ódios parecem partes de um mesmo ciclo de acontecimentos destinados a se repetir indefinidamente. Vivemos juntos (Touraine, 1998), mas em conflitos que se aprofundam. Se não pudermos encontrar meios democráticos de convívio para além do etnocentrismo, do bairrismo, dos estereótipos negativos, do sexismo, do racismo, das hierarquias autoritárias e discriminatórias, teremos a barbárie que pode se manifestar por meio da violência, do fascismo, da catástrofe ecológica e da guerra. Com longas raízes históricas, a instabilidade atual possibilita tanto uma democracia radical quanto um autoritarismo fascista.
Assim, chegamos a um momento histórico crucial no qual, novamente, a esperança-espectro das transformações profundas ronda as sociedades contemporâneas. Wallerstein (2017) afirma que estamos em transição para um sistema social fora e além do capitalismo que tanto pode ser mais igualitário e democrático quanto mais desigual, injusto e opressivo. Há uma forte desestabilização das relações de subordinação geopolítica, elevando os riscos de guerra em larga escala (Cohen, 2017; Bulletin of Atomic Scientists, 2017; Scahill, 2013). O mundo unipolar comandado hegemonicamente pelos Estados Unidos desagrega-se e, rapidamente, caminhamos para uma tensa multipolaridade (Roberts, 2017; Chomsky, 2017; Escobar, 2017). Entre as grandes potências militares, as provocações são constantes, como testemunham as disputas no leste europeu (Iugoslávia, Geórgia, Ucrânia); no Oriente muçulmano (Síria, Iraque, Afeganistão); no mar da China (Ilhas Splatly); no mar do Japão (Ilhas Senkaku ou Diaoyu) e em muitos outros lugares. Os conflitos de pequena e média escala refletem estas provocações e, nas últimas décadas, têm levado ao esfacelamento dos Estados e de seus territórios (Iraque, Síria, Afeganistão, Líbia, Ucrânia). Estes conflitos promovem e refletem opressões gravíssimas, conduzindo ao acirramento de ódios (Sémelin, 2009), crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Desde a década de 80 do século XX, as políticas neoliberais estão corroendo as bases das frágeis e intermitentes democracias (Giroux, 2013). Estas políticas implicam a privatização de empresas estatais, que reduz o poder dos trabalhadores frente ao Estado e cria oportunidades de negócios para empresas privadas. Estas políticas também levaram a uma significativa transformação cultural, formando um ambiente no qual a solidariedade social é considerada uma forma de desperdício de recursos públicos, quando não uma simples aberração. Este verdadeiro ataque à solidariedade tem resultado no desmonte do chamado Estado de Bem Estar Social, ocasionando a exacerbação de um Estado Punitivo (Giroux, 2013a). Nesta atual condição, os grupos despossuídos não são assistidos, mas punidos pelo Estado. Os preconceitos e os ódios prevalecem sobre a solidariedade, nas ações e na propaganda.