O presente estudo, desenvolvido como parte de tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo, tem por objetivo central analisar o processo de transformação urbana ocorrido na cidade de Santos entre o final do século XIX e o início do século XX pelo mundo do trabalho e por um dos elementos culturais fundamentais da classe trabalhadora, o futebol. Pretendo ainda analisar os conflitos inerentes à formação de tais iniciativas voltadas predominantemente para o recreio, em parte resultantes do choque entre as propostas culturais formuladas para os trabalhadores por anarquistas e militantes sindicais e outras formas de lazer de classe rapidamente popularizadas. Por fim, a pesquisa procura compreender o espaço ocupado pelas agremiações dedicadas ao futebol nas tensões e contradições entre capital e trabalho e entre as diferentes nacionalidades (mitigando ou reforçando oposições e rivalidades) representadas na população de Santos do período citado. Para tanto, a pesquisa se baseia em fontes que podem ser divididas em quatro grupos principais: fontes primárias de agremiações ou clubes recreativos dedicados à prática do futebol fundados entre 1903 e 1922 (Santos Athletic Club - popularmente conhecido como “Clube dos Ingleses” -, Santos Futebol Clube, Associação Atlética Portuguesa, Jabaquara Atlético Clube (antigo “Hespanha Football Club”), Brasil Futebol Clube, Clube Atlético Santista, Clube Atlético Internacional, Sport Club Americano, São Paulo Railway Football Club, América Football Club, Síria Futebol Clube, , Palestra Itália, Tecelagem Futebol Clube, Associação Atlética Americana, Libertário Futebol Clube e Atlas Flamengo.); registros escritos de associações de classe e auxílio mútuo (Centro Espanhol (entidade que congrega registros das já extintas “Sociedad Española de Socorros Mútuos y Instrucción” e “Sociedad Española de Repatriación”), Real Centro Português (atual Centro Cultural Português, também congrega registros da “Associação Portuguesa de Socorros Mútuos D. Carlos I”) e Societá Di Beneficenza Italiana. Entre as associações de classe, pretendo analisar o papel exercido por três entidades na organização da classe trabalhadora local, fundadas entre 1904 e 1907: a Sociedade Primeiro de Maio, a Sociedade Internacional União dos Operários e a Federação Operária Local de Santos); registros de órgãos da imprensa local, de caráter comercial ou de origem operária (A Tribuna e O Diário de Santos, de caráter comercial e, entre os periódicos da chamada “imprensa operária”, exemplares de O Dois de Fevereiro, O Proletário, A Vanguarda, União dos Operários e A Terra Livre); por último, materiais relacionados às propostas e ações de intervenção urbana em Santos no período estudado, como atas e ofícios da Câmara Municipal de Santos e relatórios do governo municipal e governo estadual. No Brasil, as ciências humanas – como indicado em Giglio e Spaggiari (2010) e Campos e Alfonsi (2014) – começaram a se interessar pelo estudo das festas e dos espetáculos esportivos nas décadas mais recentes. Os pesquisadores foram, aos poucos, reconhecendo que nos momentos de descontração e lazer a sociedade produz e reproduz, simbolicamente, a maneira como ela identifica a si mesma e, portanto, que os espetáculos e atividades lúdicas são oportunidades privilegiadas para o estudo das relações sociais. A opção pelos materiais descritos anteriormente tem por objetivo discutir o futebol como prática social, não necessariamente como prática esportiva. Não pretendo nesse trabalho analisar o futebol em si, restrito ao campo de jogo, ao que acontece dentro das quatro linhas durante os noventa minutos de uma partida. Meu assunto central são as relações sociais e práticas culturais que envolvem o futebol. Procuro, ao cotejar registros de agremiações esportivas, de associações de classe e de auxílio mútuo, publicações de imprensa e as propostas de intervenção urbana, compreender como, em uma cidade socialmente segregada, foi possível a apropriação tão rápida pela classe trabalhadora de uma prática inicialmente elitizada. Procuro também entender a simbologia dessa apropriação, e de que forma o tecido social santista em intenso processo de transformação influenciou e foi influenciado pela disseminação do esporte que, rapidamente, se tornaria uma paixão nacional.