A História é um campo das ciências sociais decorrente da especialização de um ofício. Notadamente fruto de “experiências históricas” do “ocidente”, desenvolveu-se a partir de esforços de se apreender eventos e feitos passados dentro de uma estrutura de saber inteligível ao tempo-presente dos historiadores e leitores. A História, portanto, é ela própria correspondente a dois movimentos distintos: um atinente a vontade de se conhecer e analisar assuntos passados; e um outro correspondente aos limites da estruturação deste conhecimento, pertinente aos eventos e feitos que não necessariamente são capazes de “falar por si”. A História descreve ou interpreta o passado? Indagações de tal natureza demonstram como um campo tão familiarizado com estudos acerca das formas de poder, pode ser ele mesmo um exercício de poder. A História tem história, e esta é constituída de hierarquias também internas. Das qualidades linguísticas empregues pelos historiadores, aos vocabulários (políticos e históricos) que os mesmos lançam mãos, vê-se que o conhecimento histórico não é neutro e que “fazer história” é quase sempre uma ação política em potencial. Tal conclusão crítica, ainda que de maneira controversa, há tempos recaiu sobre o passado apreendido (história) do capitalismo, colonialismo, progresso e demais qualidades “ocidentais”, e o mesmo pode ser dito acerca da filosofia da história, de seus conceitos e teorias, entendidos hoje como etnocêntricos e teleológicos. O que não podemos afirmar, por ora, é que semelhante abordagem crítica tenha conquistado local de referência em pesquisas históricas cujos conteúdos escapam (ou entendemos que escapam?) a estas características primárias. A propósito da história do Estado Plurinacional da Bolívia, destaque da presente apresentação, conhece-se uma promissora reflexão histórica e política. As potências do tema da plurinacionalidade, em ação política e criativa social, em defesa de preservações (“tradições”) e de transformações, envolvem todo um conjunto de reformas correspondentes à história do tempo presente da Bolívia, uma conjectura de movimento, fixação e mudança, concomitantemente ao desafio de se fazer da História um “espaço de fala” possível de ditas potências. A História parece ter sido “tomada de assalto”, no sentido de conquista de poder, de “tomada da História para si”: pois, assim se costuma assuntar a Bolívia do século XXI mundo afora. De todo modo, julgando a expressão pertinente, o que quer dizer “tomar a História para si”? Sabe-se da relevância da pluralidade na composição das ações e criatividades políticas na Bolívia, não obstante, importa conjecturar se esta pode fazer-se adequada a um exercício, no mínimo, alusivo a algum entendimento e/ou criação de sentidos históricos menos etnocêntricos e teleológicos. Quando as ciências sociais criticaram estes dois últimos conceitos, o fizeram tendo o sectarismo como um dos principais travamentos da ampliação dos universos imaginativos. E, talvez, semelhante problematização seja prudente para a história da Bolívia e para a História na Bolívia. Do “ocidente” para a “Bolívia plurinacional”, “já” se pode elencar alterações consideráveis no entendimento de o que é História? “Já” se pode conhecer uma História menos hermética e sectária, ideologicamente mais diversificada? Estes pontos, centrais nas reflexões sugeridas nesta comunicação, dizem respeito às objeções frente a igualmente diversificada capacidade de (re)invenção de sectarismos. Nossas contribuições, portanto, pouco escapam aos aspectos de uma provocação engajada: tem-se aqui a defesa da adoção de uma “proximidade crítica” (não “distanciamento crítico”), com o fito de pensarmos uma vez mais sobre as relações sujeito-objeto da História; trata-se da exposição de uma pesquisa ainda em curso, metodologicamente constituída dos seguintes exercícios: perseguição da resposta a pergunta: “o que é falar em História na Bolívia?”; e a comparação de historiografias de meados do século XX com as da virada para o século XXI, destacando-se os sentidos atribuídos ao(s) índio(s) em ambos os recortes. Carlos Montenegro Quiroga e René Zavaleta Mercado compõem o primeiro corte do exame apresentado, os membros do Grupo Comuna compõem o segundo.