Em maio de 2016 um dos principais grupos empresariais de comunicação do Brasil noticiava: "Brasileiro é quem menos confia em político, diz pesquisa mundial" (Fonte: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,brasileiro-e-quem-menos-confia-em-politico--diz-pesquisa-mundial,10000050380 Acesso em 26 dez 2017). Sem entrar no mérito da metodologia de pesquisas dessa natureza, que podem ser bastante questionáveis, o que se observa no país é um discurso hegemônico de distanciamento do cidadão em relação à política. Tal tensão tem sido difundida, direta ou indiretamente, nos meios de comunicação de massa, controlados por grandes grupos empresariais, e são retroalimentados por crescentes percentuais de abstenção nas eleições brasileiras e pelo senso comum, que reduz o conceito de política ao sentido partidário. Esse processo tem como produto direto a invisibilização de diversas formas de participação social em ações coletivas e de resistências.
Temos como hipótese que grande parte do discurso de ojeriza à política, entendida em seu sentido mais estrito, alimentado pela grande mídia, faz parte de um conjunto arquitetado com o propósito de afastar o cidadão dos círculos decisórios. Quanto mais desiludido com os rumos políticos, maior a sensação impotência. Quanto maior a sensação de impotência, menor a capacidade de organização de ações coletivas e movimentos sociais. E, quanto menor a capacidade de organização das massas populares, maior liberdade terão as direitas e os setores reacionários da sociedade para compor os círculos de poder. No Brasil, a partir da violência contra os grupos de resistência política entre as décadas de 1960 e 1970 e o afastamento do cidadão da vida política partidária pelo militarismo, setores empresariais se apoderaram do Estado a partir dos gabinetes dos governos, implementando projetos de seus interesses.
Tomando a hipótese acima como verdadeira - e temos pesquisas que subsidiam esta possibilidade - temos que setores progressistas da sociedade, vinculados à postura de resistência contra-hegemônica e à luta pela emancipação social deveriam: a) tornar visíveis ações coletivas e movimentos sociais invisibilizados; e/ou b) provocar a organização social em busca de ações coletivas e formações de movimentos sociais emancipadores.
Nesse sentido apresentamos resultados preliminares de uma pesquisa em andamento do tipo intervenção, em uma comunidade socioeconomicamente periférica da capital do estado do Espírito Santo/Brasil. O objetivo tem sido construir, junto com a comunidade, estratégias de ação coletiva que visem o empoderamento social (no sentido conferido por Paulo Freire). As ações tem privilegiado a interseção entre escola, associação de moradores e demais representações populares do bairro, visando ampliar o conceito de ensino a fim de alargar o entendimento das crianças e adolescentes frente ao locus de sua reprodução material e simbólica - o bairro -, bem como criar e/ou aprofundar a ideia das lutas sociais como aprendizado. Espera-se, com esta pesquisa intervenção desenvolver tecnologias sociais e o aprendizado de processos de resistência - a política, no sentido lato da palavra, pela e na base.
Metodologicamente, partiu-se do princípio de fazer pesquisa com os sujeitos pesquisados - e não a partir deles. Teoricamente, tal proposta se alinha à perspectiva de Paulo Freire, em que a pesquisa é construída com a comunidade, bem como com a teoria do reconhecimento de Axel Honneth, que tem no conflito social um ponto de inflexão para o entendimento das resistências.
Empiricamente, o trabalho tem consistido em promover uma série de ações e atividades que tem buscado envolver a comunidade e a escola Edna Mattos Siqueira Gaudio - instituição escolar pública localizada no locus pesquisado. Vale ressaltar que a diretora da escola é eleita pela comunidade escolar (pais e funcionários da instituição) e já ocorriam uma série de ações no bairro antes do início de nossa pesquisa. Contudo, parte considerável dos moradores não reconheciam tais práticas como coletivas. Diante desse diagnóstico, foram estabelecidas prioridades a partir de reuniões, consubstanciada por uma pesquisa quantitativa com baixo erro amostral.
Desse esforço, aliado a projetos apoiados pela iniciativa conjunta, já temos como resultados:
- Elaboração de processos comunitários de resgate da memória da comunidade: site (http://santiagocizabella.wixsite.com/memoriajn), aplicativo para celular, livro.
- Pesquisas sobre resíduos domésticos gerados no bairro: levantamento gravimétrico, hortas coletivas medicinais e convencionais, compostagem - na escola e em áreas públicas do bairro.
- Tour no morro (projeto que já existia antes de nossa pesquisa): projeto desenvolvido por moradores que visam apresentar o bairro para os próprios moradores ou turistas de várias partes do país ou internacionais (https://www.facebook.com/tournomorro/).
- Projeto Político Pedagógico da escola: também se insere em um dos esforços locais anteriores à nossa presença, mas que teve apoio técnico para sua implementação.
- Revitalização de espaços coletivos do bairro: trabalho comunitário para eliminação de espaços viciados em acondicionamento irregular de lixo.
- Valorização dos espaços públicos: elaboração de vídeos (https://www.facebook.com/luciano.cajaiba/videos/1658265724229451/) e promoção de ocupação social de espaços públicos do bairro.
Todas as ações executadas ou em execução tem como premissa o empoderamento em busca da emancipação social. Tendo como premissa que ninguém se emancipa sozinho. Nos emancipamos a partir do outro e com o outro. Os resultados preliminares tem levado à consideração de que as amarras criadas por grupos hegemônicos (burocracia, idelogologia, etc), para fazer crer que as massas não são capazes de agir ou que a ação comunitária não promove mudanças dado o distanciamento em relação à política tradicional, podem ser rompidas a partir de estratégias locais, amparadas pela práxis - ação e reflexão.