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Resumen de ponencia
A Interseccionalidade no Pensamento Feminista Negro

*Roberta Ribeiro Da Silva



O presente trabalho é parte da pesquisa de mestrado que vem sendo desenvolvida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação da Prof.ª Drª Carla Cristina Garcia, e tem por objetivo apurar o uso da interseccionalidade enquanto instrumento de investigação e análise acadêmica nas pesquisas desenvolvidas dentro da perspectiva dos estudos feministas, observando os vários vetores que atravessaram e determinaram a formulação deste conceito, desvelando os condicionantes políticos e estruturais responsáveis pelos possíveis avanços e retrocessos desta proposta. A metodologia adotada no meio acadêmico é fundada pelo patriarcalismo, em sua essência branco, ocidental, burguês e heterossexual. Desta feita, é mister subverter-se o cânone estabelecido, propondo um aprofundamento nos pressupostos de classe, raça e gênero. Nesse sentido, é imprescindível a observância dos aspectos etimológicos do vocábulo interseccionalidade: secção é corte, é a possibilidade de vislumbrar as diferentes perspectivas pelo próprio olhar. A interseccionalidade é, portanto, perspectivista: embora sejamos sujeitos em trânsito sob diversos lugares, escolhemos para onde nosso olhar será voltado, privilegiando determinado campo de visão. Como já exposto, nossa pesquisa tem um viés e mirada feminista, e é necessário frisar que esta postura é de cunho político, devido à invisibilização sofrida pelas operações desenvolvidas por mulheres, anteriormente, de fato, suprimidas, desvanecidas e aniquiladas, e hoje tratadas como parte dos estudos de gênero, onde por receberem tal nomenclatura não causam tanto temor dentro das academias. Neste movimento, percebemos o quão importante é fortalecer as diferentes diferenças, nas nomeações e vivências, pois a homogeneidade, o consenso é o desejo do colonizador. Todas as mulheres são iguais? Não. Todas as mulheres negras são iguais? Não. A interseccionalidade vem pormenorizar estes tipos de recortes, e sem ela, não há visibilidade. Neste contexto, a interseccionalidade nos permite vislumbrar as diferentes formatações do ser mulher, sem reduzir, unificar, observando as diferentes formas de opressões e somando, também, diferentes forças para combate-las. Somos muito diferentes entre nós para sermos reduzidas à categoria mulher, e ao mesmo tempo, é nesta categoria que, juntas, somos reduzidas também a subalternidade. Contudo, o mitigado número de pesquisadoras negras nas universidades brasileiras pode ser um fator que dificulta o desenvolvimento das pesquisas acadêmicas que as coloquem enquanto sujeitas da episteme, não apenas como objeto de pesquisa. Não problematizar a questão do gênero e da raça enquanto barreiras, de acesso – permanência – assistência – epistêmica, seria reforçar a imagem da sociedade em geral, onde as diferenças são veladas, o que acaba por provocar uma fissura entre as mulheres, numa luta supostamente fraterna, por uma causa comum. Somando estes panoramas, fica evidente o projeto e caráter consolidado na academia enquanto um espaço de reprodução do essencialismo e fundamentalismo que sustentam a sociedade, e daí a necessidade de indagar a ciência por dentro, questionando seu modo de trabalho, seus conceitos e agregando novos elementos de análise decolonial. O silenciamento é fruto de um projeto político que se apóia em argumentos pseudocientíficos da medicina e filosofia, de uma longa tradição misógina, a exemplo do trato dado ao útero, como causa que interferia diretamente nas faculdades mentais das mulheres. Somos a partir do outro: fomos e somos colonizadas diariamente, sendo a própria linguagem um arcabouço para exaltação e unificação da figura masculina como superior, invisibilizando o feminino. É preciso transcender as teorias, as estruturas hegemônicas, des-hierarquizando o método. Neste intento, realizamos um levantamento no Catálogo de Teses e Dissertações da Fundação CAPES (Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior) dentro do recorte temporal compreendido entre os anos de 2013 a 2016, utilizando como filtro as palavras-chave interseccionalidade, mulheres negras, acolhendo também os trabalhos que versam sobre o pensamento feminista negro e intelectuais negras. De acordo com tal investigação, foi possível traçar um ensaio do estado da arte da produção intelectual acadêmica nas universidades brasileiras: de um resultado de busca em torno de 7.000 produções, dentro das ciências humanas e sociais, encontramos fazendo o uso das palavras-chave mencionadas acima, encontramos 79 trabalhos. Diante de tal resultado, é possível nos indagarmos: por qual razão a produção acadêmica que esquadrinham a temática é tão módica? O que as mulheres fazem não deixa vestígio: a impressão que fica é o eterno recomeço, não uma continuidade de pesquisa, ou uma tentativa de genealogia feminista. Sendo assim, a função da pesquisa acadêmica por um viés feminista, para muito além da crítica, deve agir de modo radical, a fim de desmobilizar o cânone, subverter a ordem, não nos submetendo à inclusão nos espaços escolhidos para nossos estudos, deixando-os sob o julgo dos discursos patriarcais, conforme Grosz, no artigo “ Que és la teoria feminista? ” (1995), mas construir uma epistemologia, uma teoria do conhecimento, conferindo autoridade e fundamento científico ao saber desacreditado pelo século das luzes. Aqui, compartilhamos o mesmo entendimento sobre o conceito de epistemologia que Harding, em “ Existe um método feminista? ” (1998), descreve como uma teoria do conhecimento que responde à pergunta sobre quem é o produtor do conhecimento e que também trata das provas necessárias para reconhecer crenças como conhecimento.




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* Ribeiro Da Silva
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC SP. São Paulo, Brasil