As reflexões que propomos neste texto concernem a diálogos com moradores e ativistas de bairros de periferia que iniciamos em 2011. No curso de nossas análises, destacaram-se os espaços de sociabilidade como arenas de fruição do tempo. Indiciando um aspecto que gostaríamos de explorar, as narrativas das pessoas com quem dialogávamos mencionavam por vezes redes de reciprocidade construídas desde e para momentos festivos, lúdicos e alegres, que, além de adensar as rotinas diárias, influenciavam nas condições de sobrevivência dos sujeitos, mediante iniciativas e laços de apoio mútuo.
Seguimos estabelecendo interlocuções, então, com intuito de compreender como são produzidas práticas culturais e relações de sociabilidade em tais contextos, com destaque as suas articulações com as esferas do trabalho e da educação. Neste sentido, temos dedicado especial atenção à pesquisa com jovens atuantes em diferentes localidades vulnerabilizadas na cidade de Porto Alegre, Brasil.
Embora tratemos de contextos de confluência de diversos vetores de desigualdade social, as juventudes residentes e produtoras das periferias experienciaram a melhoria das condições de vida e ampliação das possibilidades de emprego, dado o crescimento da economia e as políticas sociais implementadas por aproximadamente uma década (2004-2014). Contudo, a interposição de forma drástica da crise econômica, associada à mudança no espectro de governamentabilidade no Brasil e na América latina, tem levado ao incremento dos índices de vulnerabilidade social nos últimos anos, destacadamente pela ampliação do desemprego, que entre os jovens é praticamente o dobro dos valores indicados para a população economicamente ativa do país. Neste cenário, propomos para análise, aqui, uma discussão acerca das formas de obtenção de trabalho entre jovens, com destaque às agências produzidas por eles junto às práticas culturais que desenvolvem. Nossa investigação procurou identificar, ademais, que elementos teriam contribuído para diferenciar as inserções laborais em contraste a outros grupos etários, em que pese a precariedade de muitos dos vínculos.
Para tanto, recorremos às contribuições de Martuccelli (2007; 2016). O autor propõe operadores analíticos para a compreensão das formas pelas quais os indivíduos se produzem socialmente. De uma parte, apresenta a noção heurística de “prova social”, remetendo-nos aos desafios sócio históricos que os indivíduos são impelidos a enfrentar (conforme as condições sociais em que se encontram) e que podem ser vivenciados singularmente. De outra, associa a noção de “suporte” para indicar as redes e referentes sociais que amparam os indivíduos no enfretamento das “provas”. Aí, podemos situar laços familiares e de reciprocidade, redes de amizade e sociabilidade, referências simbólicas ou, então, a articulação a aparatos institucionais que garantam e/ou promovam condições para que os sujeitos efetivem seus projetos e/ou logrem seguir em disputa. Nas palavras do autor:
A sociologia, sem menosprezar o papel das grandes posições de classe, deve descrever mais diligentemente as posições efetivas dos atores. E isso exige não esquecer a análise dos contextos de ação dos indivíduos estudados, as ajudas de que dispõem ou não, para responder aos imperativos de flexibilidade, de mobilidade, para suportar as precariedades do emprego: ter acesso a seguridade social; ter uma família que possa prestar ajuda; ter um emprego estável; ter vínculos a um lugar. Todo indivíduo está inserido em um sistema complexo de interdependências: daí a necessidade de compreender como indivíduos que vivem em contextos muito diferentes podem ter experiências similares e como, a sua vez, indivíduos que vivem situações supostamente semelhantes enfrentam provas-desafios a partir de contextos muito diversos. (MARTUCCELLI, 2016, p. 58)
Nos limites do que apresentamos, voltamo-nos aos suportes mais especificamente e, dentre estes, assinalamos as redes de ação as quais os sujeitos se integram e/ou constroem. Neste sentido, com apoio de Requena Santos (2001), assumimos que “la red efectiva de uma persona es el conjunto de individuos que aquélla está em condiciones de poder movilizar cuando necessita algo concreto” e que “la combinación de la red efectiva com la red extendida nos lleva a pensar em términos de los conjuntos de acción” (p. 45).
Ao inventariarmos os arranjos relacionais mais frequentemente citados, buscamos observar que diferenciações eram proporcionadas a nossos interlocutores, embora estivem sob condições econômicas, habitacionais e culturais assemelhadas. Ilustramos a análise proposta, aqui, com as experiências de 10 jovens, de forma que uma análise transversal dos percursos narrados em entrevistas narrativas (JOVCHELOVITH, 2002) nos indicou aproximações e contrastes e indiciou suportes pertinentes à produção dos itinerários laborais.
Numa breve síntese, podemos indicar que as atividades laborais são de característica urbana, com uso tecnológico (digital) de baixa intensidade. Muitas vezes, são ocupações intermitentes em atribuições com forte pressão e repetição de tarefas (restaurantes fastfood, por exemplo). A incidência de trabalhos braçais parece menor do que para os outros grupos etários pesquisados, assim como o início se dá mais tarde, na adolescência. Ocupações, então, com maior exigência de capital cultural (escolar) do que as exercidas pelos pais e responsáveis, mas que nem por isso leva a mudanças significativas nas condições materiais, dado que as exigências do mundo do trabalho associadas a uma gradual ampliação da escolaridade média parecem “inflacionar” o mercado de diplomas, como já sinalizou certa vez Pierre Bourdieu.
Vale destacar, a educação social é uma alternativa de trabalho significativa entre os entrevistados, dado que se associa a práticas culturais que apreciam. Trata-se de trabalho intelectualizado e que carrega capital simbólico nas localidades onde atuam como educadores. Além disso, tal ocupação resulta de agências operadas pelos jovens, na ocupação do espaço público e na fruição artística e produção de saberes correspondentes, na aproximação a organizações educativas e busca de articulações mediante projetos e na construção de redes informais de apoio e indicação laboral.
Passando às formas de obtenção de ocupações remuneradas, os suportes diferenciadores para tanto, especialmente na atuação como educador seriam, em ordem de recorrência: a) pertença a conjunto de ação cultural e laços de reciprocidade que oportunizassem trabalho; b) apoio da rede familiar, que, mesmo citado em outros grupos etários, assume aqui a característica de proteção mais prolongada, até a adolescência ou depois, incidindo na condição juvenil e, por vezes, na indicação de locus de trabalho; e c) raros casos de alianças políticas decorrentes da participação em movimentos sociais (Hip Hop, por exemplo). O capital cultural surge como suporte, mas é mais evidente nos raros casos daqueles que cursaram cursos superiores.
A singularidade de tais suportes fica mais evidente se comparamos com outro grupo etário de interlocução. Para idosos consultados, por exemplo, a prática laboral foi iniciada na infância e os suportes diferenciadores nas trajetórias laborais eram: a) a intensidade das redes de reciprocidade social, desde núcleos familiares integrando relações pessoalizadas entre patrões e empregados, ou desde atividades culturais; b) disposições culturais familiares, ora na forma de referências (de base étnica negra sobretudo) para tomadas de posição e articulação comunitária, ora como moral disciplinadora ao trabalho, que interferiam ambas na conquista de trabalho, embora sem garantia de estabilidade; c) para alguns casos, a possibilidade de realizar concursos públicos e os direitos garantidos aí, com a ressalva de que eram para atividades operacionais e de baixa densidade tecnológica, permitido pelas características históricas do mundo do trabalho de então; e d) acesso a capital cultural (escolar – ensino médio) em raríssimos casos.
Em síntese, observamos que o diálogo com jovens atuantes em periferias urbanas indicia a manutenção da efetividade de laços de reciprocidade na obtenção de emprego, porém mais diretamente associado ao domínio e demonstração de capital cultural (não necessariamente escolar). Ademais, a ampliação das redes estatais e para-estatais de proteção e promoção da infância e da adolescência, assim como as lutas associadas à representação juvenil (consubstanciadas no Estatuto da Juventude, por exemplo) não só tensionam as relações sociais à criação de tempo social para experiência da juventude. Se, por um lado, a drástica situação de responsabilização laboral narrada entre idosos é adiada até a adolescência, por outro, a rede de proteção se converte em campo de ação e subsistência desde a agência de sujeitos jovens, como nos sinaliza o horizonte de trabalho na educação social.
Referências
JOVCHELOVITCH, Sandra. Entrevista narrativa. In: BAUER, Martin (org.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 90-113.
MARTUCCELLI, Danilo. Cambio de rumbo: la sociedad a escala del individuo. Santiago: LOM, 2007.
MARTUCCELLI, Danilo. Sociologia, singularização e individualismo latino americano. In: PINHEIRO, Leandro R. Itinerários versados: questões, sintonias e narrativas do cotidiano. Jundiaí/SP: Paco Editorial, 2016, p. 49-70.
REQUENA SANTOS, Félix. Amigos y redes sociales: elementos para uma sociologia de la amistad. Madri: CIS, 2001.