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Resumen de ponencia
A PROPOSTA POLÍTICA DA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS E DO NEOPENTECOSTALISMO NO CAMPO EDUCACIONAL

*Antonio Carlos Lopes Petean



O objetivo central deste trabalho é apresentar as teses da Igreja Universal do Reino de Deus acerca da participação política dos seus fiéis e as ações políticas das bancadas evangélicas que atuam para eliminar políticas educacionais que abordam a questão de gênero, a educação sexual e a cultura afrobrasileira. Para isso, propomos neste trabalho analisar as teses do modelo de Estado defendido pelo Bispo Edir Macedo e a atividade político-religiosa da Igreja Universal do Reino de Deus. Nas palavras do Bispo Macedo “Quanto mais pessoas estiverem envolvidas discutindo e participando de assuntos relacionados à cidade e ao estado, melhor para todos. Até porque esse grande projeto de nação elaborado por Deus depende do maior envolvimento nessas questões: do contrário, o plano de poder e de nação elaborado por Deus continuará sendo postergado”. A incompatibilidade das antigas religiões de salvação não se aplica a lógica das atuais religiões neopentecostais, principalmente, não se aplica a lógica e ao discurso da Igreja Universal do Reino de Deus. Nos discursos desta denominação religiosa existe uma forte relação entre o apego ao crescimento econômico individual e o consumismo. A base da I.U.R.D. é a teologia da prosperidade que valoriza e busca impulsionar os desejos dos fiéis para se compatibilizarem com o consumismo. A teologia da prosperidade reúne crenças sobre cura, prosperidade e poder da fé e, surgiu nos Estados Unidos da América, constituindo um movimento religioso doutrinário a partir dos anos 1970. Para esta teologia, todo fiel deve observar as leis da prosperidade, baseadas naquilo que o senso comum chama de “é dando que se recebe”. Ela chegou ao Brasil em 1970, valorizando a fé em Deus e o acumulo de riquezas, sucesso econômico e poder como sinais da graça divina. Esta teologia estabelece uma relação entre o bem-estar do fiel com o consumo e a riqueza. As bênçãos que o sujeito religioso recebe são materiais e individuais. O discurso da Igreja Universal do Reino de Deus ao exaltar esta relação reforça o individualismo fazendo de todos os fiéis um possível empresário em potencial, assim como um consumidor de fato. É esta mentalidade que esta em total sintonia com os pressupostos da globalização econômica de raiz calvinista. Tornar-se um empresário de sucesso ou um consumidor passa a ser sinal de status, satisfaz o fiel. Este sente-se estar integrado a sociedade de consumo. Se o discurso religioso tem como referência a busca pelo sucesso econômico e financeiro, no plano do discurso político a I.U.R.D. demonstra uma preocupação com a ética, a moral e a honra. Nas palavras do bispo Macedo: “As soluções para determinados problemas sociais podem nascer do diálogo, dos debates, das participações. Obviamente, a honra não é um monopólio dos evangélicos, mas, por outro lado, ela é inerente aos cristãos que verdadeiramente temem a Deus. No caso destes a honra pode ser interpretada em sua forma literal de definição: idoneidade, probidade, respeito e consideração para com toda coletividade. Quanto mais pessoas estiverem envolvidas discutindo e participando de assuntos relacionados à cidade e ao estado, melhor para todos. Até porque esse grande projeto de nação elaborado por Deus depende de maior envolvimento nessas questões: do contrário, o plano de poder e de nação elaborado por Deus continuará sendo postergado”. (Bispo Edir Macedo, 2008, p.94) Diz ainda: “No que depender de Deus, enquanto não houver, por parte de Seu povo, as condições adequadas, em vários aspectos, para estabelecer esse projeto, Ele não o concluirá. Não que este seja Seu real desejo, muito pelo contrário, mas Deus entende que sem a conscientização e o envolvimento de Seu povo isso não será possível. Por isso, Ele continuará aguardando o tempo que for necessário”. (Bispo Edir Macedo, 2008, p.94). O bispo Macedo deixa claro que para ele, existe um projeto de nação e de poder, formulado por Deus, mas que este projeto depende do envolvimento direto das pessoas, ou como diz o bispo, depende do envolvimento do “Seu povo”. Algumas questões chamaram a atenção neste texto. Nas primeiras linhas o autor exalta a participação popular nos “assuntos relacionados à cidade e ao estado”, o que nos faz pressupor a valorização da democracia direta, mas logo em seguida ele fala no “grande projeto de nação elaborado por Deus”. E, que este projeto só se concretizará com a participação do “Seu povo”. É clara a referência a noção de povo escolhido que é própria do judaísmo e povo escolhido pressupõe também, que haja um povo excluído. As duas questões significativas neste texto são a idéia de um projeto de nação elaborado por Deus, o que no nosso entendimento passa por uma visão teocrática da política e como tal, absolutista. Esta idéia seria o oposto da concepção de Estado moderno, defendida pelo pensamento liberal e, bem distante da concepção de Estado mínimo pregada pelo neoliberalismo. A outra questão que é implícita no texto é que o projeto elaborado por Deus deve ter as condições adequadas para ser implantado e enquanto ela não se apresentar, “Ele continuara aguardando o tempo que for necessário”. Esta passagem nos revela que o texto faz alusão ao tempo do refrigério que esta por vir. Está é uma concepção de História bíblica presente na teoria do milênio, especificamente, a teoria pós-milenista. Segundo esta teoria, a regeneração do homem ocorre através da conversão e esta acontece quando o homem recebe os dons do Espírito Santo. Só depois os homens terão os mil anos de farturas. E na conversão o papel da Igreja Universal seria de fundamental importância segundo seus bispos. Portanto, a tipologia de Estado proposto por Macedo é o oposto daquele defendido pelo neoliberalismo, pois o discurso neoliberal atribui ao homem a responsabilidade pelo seu fracasso ou sucesso e, também, por se colocar no mercado. E, o Bispo Macedo propõe um tipo de Estado intervencionista, soberano e com o monopólio da violência. Um tipo de Estado próximo ao Leviatã. Se o modelo de Estado proposto pelo Bispo Macedo é intervencionista, podemos verificar que a ação dos evangélicos em diversas cidades e estados no Brasil é muito clara. Atuam para eliminar dos planos municipais de educação, as questões de gênero, a cultura afrobrasileira e a educação sexual. No plano nacional lutam para impor educação religiosa de caráter confessional. Políticas que colocam em risco o caráter laico do estado brasileiro. As citações do Bispo Macedo foram retiradas da sua obra: Plano de Poder: Deus, Os Cristãos e a Política.




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* Lopes Petean
Instituto de Ciencias Sociais da Universidade Federal de Uberlandia INCIS/UFU. Uberlandia, Brasil