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Resumen de ponencia
Os intelectuais e a nação: uma análise da problemática nacional no pensamento de Antonio Sérgio e Gilberto Freyre

*Laurindo Mekie Pereira



A problemática que proponho aqui retoma um antigo e relevante debate das ciências sociais sobre as margens e limites de pensamento e ação dos sujeitos frentes às estruturas sociais. Recorto para exame dois pensadores do mundo luso-brasileiro do século XX: o escritor português António Sérgio e o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre.
Entre as muitas estruturas simbólicas e sociais nas quais eles se inseriam ou viviam, elegemos a identidade nacional para análise mais detida. Conforme Benedict Anderson, a nação foi, no século XX, justamente quando se esperava pelo seu esgotamento, a mais forte identidade coletiva a moldar o comportamento das pessoas, sendo um compromisso capaz de leva-las a se manterem leais até a morte (Anderson, 1989). Estariam os intelectuais incluídos nesse mesmo compromisso ou gozariam de certo grau de imunidade frente às paixões nacionalistas?
A internacionalização do capital e a aparente globalização da cultura viabilizada pela comunicação online não arrefeceram os ânimos nacionalistas em diversas partes do globo. Muitos povos continuam a reclamar a autonomia nacional, sendo o caso catalão o que mais ocupou espaço na mídia nos últimos tempos. Por sinal, nesse caso especifico, muitos analistas destacaram não haver benefícios materiais na emancipação da Catalunha, apontando para a “irracionalidade” do movimento.
Diversificado, o apelo em nome da nação pode aparecer nas mais variadas expressões ideológicas, da extrema direita à extrema esquerda. No momento, ele parece mais visível nos movimentos direitistas.
A questão intrigante é compreender porque esse apelo é eficaz, seduz, mobiliza. Há uma ampla gama de explicações ou tentativas de. Para Smith (1999), a compreensão depende do reconhecimento de que a nação se assenta em “camadas de experiência social e histórica” (p.5) e que a organização em Estados Nacionais conserva funcionalidade no mundo hodierno (p. 96).
Os intelectuais, aqui entendidos como as pessoas que manejam símbolos e não faz coisas (Bobbio, 1997), particularmente aqueles que operam no campo científico (Bourdieu, 2007), são igualmente afetados pelo fervor nacionalista ? Ou eles tem maior capacidade de refratar tal influência, caso o desejem, evidentemente? Proponho investigar essas questões a partir dos escritores António Sérgio e Gilberto Freyre, olhando para a intervenção deles nos debates políticos em Portugal durante o regime salazarista.
Antonio Sérgio nasceu em 1883, em Damão, antiga India portuguesa. Foi marinheiro e tenente, mas se destacou com seus escritos sobre historia, educação, filosofia, sociologia, economia e política. Entre 1910 e 1920 visitou diversos países como Inglaterra, Brasil França e Suíça. Na década de 1920 fez parte do chamado “Grupo da Biblioteca”, juntamente com Raul Proença, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira, José de Figueiredo e Aquilino Ribeiro, base da Revista Seara Nova, de grande circulação e influencia em Portugal. Sérgio foi por toda a vida oposição à ditadura instalada em 1926, o que lhe rendeu prisões e exílios.
O autor se definia como democrata, socialista-cooperativista, idealista, racionalista, universalista. Foi um severo crítico do nacionalismo. Estribado na razão, dizia escrever de forma livre, “desprendido das limitações do espaço e do tempo, das de classe, de riqueza, de nacionalidade e de raça” (Sérgio, 1957b: 35).
Gilberto Freyre tornou-se uma referência internacional, projetado sobretudo após a publicação de Casa Grande & Senzala, em 1933. Conservador em suas opções políticas e revolucionário em seus procedimentos como pesquisador, o sociólogo pernambucano acumulou grande capital simbólico. Talvez por isso se julgasse livre de quaisquer condicionamentos, afirmando sempre que sobrevivia tão-somente da sua atividade de escritor (Freyre, 1954, p. 185, 191, 197, 199, 223).
Apesar das opções políticas e intelectuais distintas, Freyre e Sérgio foram correspondentes e amigos. Por sinal, o brasileiro se referiu a essa amizade como uma das “provas” de que seria equidistante das correntes políticas portuguesas quando era criticado por trabalhar para o governo de Salazar (Freyre, 1954).
Crítico do nacionalismo em geral e do regime em vigor em seu país, Sérgio, no entanto, compartilhava de aspectos fundamentais da cultura ou identidade portuguesa, especialmente no que concerne à sua historia. Assim como a quase totalidade de seus contemporâneos, o escritor advogava a ideia de que a nação portuguesa era inerentemente colonial, aspecto que remontava às suas origens no século XIV, embora seu pensamento tenha sofrido transformações, culminando com uma postura mais crítica em fins dos anos 1950 (Sérgio, 1957a).
Por sua vez, Gilberto Freyre foi decisivo na estratégia portuguesa de resistir às pressões diplomáticas pela emancipação das colônias, especialmente nos anos 1950 e 1960. O sociólogo que já havia feito o elogio do modelo de colonização portuguesa desde Casa Grande & Senzala, forjou, já na década de 1950, a tese do lusotropicalismo, afirmando que o “mundo que o português criou” seria marcado pela plasticidade étnica e cultural característica dos lusos. Pela ótica de Freyre, Portugal não teria colônias, mas seria uma nação pluricontinental, integrada pela metrópole e pelas unidades do além-mar. Foi essa a pedra de toque da diplomacia portuguesa na resistência no interior das Nações Unidas. Além de instrumentalizada pelo regime, a visão de Freyre calou fundo nos meios políticos e intelectuais portugueses, reforçando a ideia enraizada na cultura lusitana segundo a qual sua identidade enquanto nação era inseparável das conquistas coloniais de séculos atrás.
Por diferentes caminhos e sendo portadores de perfis muito distintos, Sérgio e Freyre compartilharam e contribuíram para difundir ideias fundamentais do nacionalismo português.
A hipótese desse trabalho é que os dois são representativos das relações dos intelectuais com a identidade nacional. Sérgio, sendo português, ainda que negasse e criticasse formulações nacionalistas, não escapava delas. Já Freyre, brasileiro, adere de forma deliberada a um projeto conservador com o qual convergia, embora, tal como Freyre, se afirmasse livre e independente de qualquer projeto político.


REFERÊNCIAS

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.
BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder. São Paulo: Unesp, 1997.
BOURDIEU, Pierre. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
FREYRE, Gilberto. Um brasileiro em terras portuguesas. Lisboa: Livros do Brasil, 1954.
SÉRGIO, António. Cartas do terceiro homem: porta-voz das “pedras vivas” do “país real”. Lisboa: Inquérito, 1957a (terceira série).
SÉRGIO, António. Antologia sociológica: Caderno 7. Lisboa: Edições do Autor, 1957b.
SMITH, Anthony D. Nações e nacionalismo numa era global. Oeiras: Celta, 1999.




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* Pereira
Universidade Estadual de Montes Claros/Programa de Pós-Graduação em Historia Unimontes/PPGH. Montes Claros, Brasil