Uma das principais inflexões de correntes de pensamento da teoria social contemporânea tem sido dedicar-se sobre a relação entre capitalismo, modernidade e colonialidade. Correntes de pensamento anglo-saxã e latino-americana têm contribuído para elucidar a “cumplicidade entre o projeto político, econômico e científico da modernidade europeia com as relações coloniais de poder estabelecidas desde o século XVI, e principalmente, com os imaginários sociais ali construídos” (Grosfoguel, 2007). O questionamento de partida envolve o entendimento dos espaços das ‘conquistas’ coloniais, como espaços do “não ser” (Fanon, 1961), portanto, dos não sujeitos, da não propriedade. Espaços que correspondem ao estado de natureza hobbesiano (anterior à constituição da sociedade), enquanto pressupostos da modernidade. Um dos pilares desse registro do poder é a classificação social das populações do mundo a partir da noção de raça. Raça é uma construção mental que expressa a experiência básica do domínio colonial e desde então permeia as mais importantes dimensões do poder mundial, por dentro da racionalidade eurocêntrica. “Sustenta-se na imposição de uma classificação racial/étnica da população do mundo como pedra angular do referido padrão de poder e opera em diversos planos, materiais e subjetivos” (Quijano, 2010). É no seio desse movimento histórico – a constituição da América como espaço colonial e do emergente poder capitalista, que um novo padrão de dominação é posto em marcha, configurando novas identidades societais da colonialidade: índios, negros, amarelos, brancos, mestiços. A ‘racialização’ como padrão de sociabilidade e das relações intersubjetivas configuraram um novo universo de relações de dominação sob hegemonia eurocentrada. O eurocentrismo, enquanto projeto colonial, não está restrito à perspectiva cognitiva [e subjetiva] dos europeus, “mas também do conjunto dos educados [dominados] sob sua hegemonia” (Quijano, 2010). A construção de identidade pela sua negativa, pela subalternização e apagamento de sujeitos, também encobre, limita e extermina formas e estar no mundo (Fanon, 1961). Esse universo, material e intersubjetivo, elabora, formaliza e institucionaliza modos de ordenação social e de produção de conhecimento: medição, externalização/objetificação do cognoscível, ordenamento dos espaços privados (Foucault, 1999). A Modernidade, como um projeto de colonização espaço-temporal fundado na referência europeia – embasa os argumentos e a produção das bases universalistas eurocêntricas “aqueles que adoptam o discurso da modernidade tendem a adoptar uma perspectiva universalista que elimina a importância da localização geopolítica.” (Maldonado-Torres, 2010). Aposta-se na crítica à concepção de sujeito epistêmico neutro e universal - a neutralidade epistêmica assente no não reconhecimento dos modos não europeus de pensar, o que forja a produção da relação colonial/imperial. Tem-se então a modernidade como ponto de chegada universal - no passado atrelada ao projeto de colonização, hoje, em outra roupagem, responde ao projeto da colonialidade entendida como opressão epistêmica, jurídica, política e econômica e das formas de estar no mundo” (Mignolo, 2003: 632). O silenciamento e ocultação da colonialidade só foi e continua sendo possível, na medida em que a história é narrada a partir do ponto de vista da própria modernidade. O apagamento histórico é constitutivo ao exercício da colonialidade do poder. A biomedicina é parte constitutiva da ciência ocidental moderna de base colonial. O projeto da biomedicina é indissociável da conformação da ciência e do Estado moderno capitalista - produção de saberes; manutenção da força de trabalho; processo de colonização (expropriação de sujeitos, culturas e territórios). Portanto, a biomedicina é parte integrante do projeto epistemológico da ciência moderna. Seus dispositivos não se constituem em meros artefatos a serviço de uma neutra e padronizada aplicação do conhecimento científico. Ao contrário, são influenciadas pelos interesses e pela ideia de progresso, domínio sobre o mundo natural e universalização de seus postulados. É um conhecimento que reivindica a legitimação da interpretação do que conta como verdade em relação à classificação e manuseio do corpo. Boa parte do sucesso na transformação da ciência ocidental moderna em forma preponderante de conhecimento é explicada não só por razões epistemológicas, mas também fatores econômicos e políticos. Segundo Santos, Menezes e Nunes (2004), há alguns processos que colaboraram com a hegemonia da razão moderna sobre as demais epistemologias: a emergência de uma concepção a-histórica do processo de construção do conhecimento cientifico; o apagamento e subalternização das demais. ‘Acumulação seletiva de sucessos’ – ocultamento das controvérsias na construção do conhecimento; e o epistemicídio – que inferioriza ou destrói demais formas de saberes em nome do processo de dominação. Reconhece-se a relevância do papel das tecnologias biomédicas e de seus méritos, entretanto, esse reconhecimento não impede o alerta sobre os efeitos de sua ‘portabilidade’ e transposição no tratamento de corpos como objetos, sobre os quais operam as agendas da ‘saúde global’, como por exemplo o DOTS (Directly observed treatment, short-course ), implementado de maneira não situada: acesso não sistemático aos fármacos, implicações em corpos vulnerabilizados dada a condição de pobreza; exposição ao controle discricionário de agentes do Estado; consequências da rmedicalização indiscriminada como o incremento de casos de TBMDR (Tuberculose Multidroga Resistente). No bojo desse debate problematizo quadros de adoecimento, das políticas e práticas de saúde e de saúde pública, vis a vis às noções de pobreza e vulnerabilidade, situando-a enquanto problema social. Significa principalmente problematizar limites e possibilidades sobre a produção de conhecimentos, no âmbito dos sistemas explicativos das ciências, questionando pressupostos como: (i) universalidade dos corpos e indivíduos- independentemente de onde estejam e de como vivem. Sujeitos não são a mesma coisa em todos os lugares, são variantes de inúmeras dinâmicas: históricas, sociais, ambientais e políticas (Mol, 2002); (ii) tecnologias biomédicas não são neutras! São artefatos cujo desenvolvimento não está imune a interesses diversos, com repercussões em vidas de pessoas (Lock & Nguyen, 2010); e (iii) generalização na aplicação de dispositivos biomédicos em contextos de extrema desigualdade, pobreza e exclusão, cuja opressão inscreve-se em corpos e em códigos de sociabilidades, o que desafia e questiona a aplicabilidade tour court de tecnologias biomédicas.Estas e outras questões representam pontos de partida, elementos disparadores, de estudos junto à populações vulnerabilizadas, especialmente às que se encontram em situação de rua, em tratamento poliquimioterápico para a tuberculose. Práticas de saúde operadas por equipes multidiciplinas nas ruas e os encontros por estas estabelecidas representam o terreno sobre o qual o estudo debruçou-se, trazendo elementos importantes para repensar-se a construção de pontes (não)dialógicas entre normatizas, dispositivos biopolíticos da saúde pública, conhecimentos situados e práticas emancipatórias em saúde.