O projeto de tese procura estudar a geopolítica das unidades econômico-políticas que conformavam a Bacia do Rio da Prata no período 1852-1870, e que participaram nas dinâmicas de expansão de poder. O período escolhido deve-se a que é nessa etapa onde acontecem os maiores enfrentamentos armados na região, começando com a queda de Rosas e terminando com o final da Guerra do Paraguai.
A Bacia do Prata será estudada no sentido dos processos dos conflitos que podem ter tido um ponto de partida na apropriação dos diferentes bens que a Bacia proveu para a região, em especial para a centralização dos recursos e do poder em mãos de Buenos Aires. Interessa-nos especialmente: a livre navegação dos rios, atrelada à questão alfandegária e de transporte, pois nessa dimensão manifesta-se a importância da representação espacial onde tiveram lugar, primeiro, a conformação das elites agrarias que formariam os centros de poder e logo as guerras, intrinsecamente vinculadas às atividades comerciais locais e seu nexo com o internacional. Sendo todos estes elementos muito caros à Economia Politica Internacional: guerra, comercio e finanças.
Ou seja, existiria no nosso caso de estudo uma evidente pressão competitiva vinculada à geografia e com isso à necessidade de diferentes respostas geopolíticas que definiram o século XIX como o mais sanguinário, violento e com isso transformador da região.
Neste sentido, analisar os mapas que mostram a dinâmica de expansão dos domínios, a incipiente formação territorial e geopolítica dos diferentes Estados independentes e finalmente o mapa atual dos países que conformam a Bacia do Rio da Prata: Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai; faz-nos refletir sobre a nossa hipótese central.
Seria possível que a pressão exercida por Buenos Aires se refletisse primeiro nas outras províncias das Províncias Unidas do Rio da Prata, logo na Confederação Argentina (com o aumento do poder sobre elas) e depois na concretização das guerras que vão desde a defesa de Buenos Aires das duas invasões inglesas (1806-07) até 1870? Foi mesmo este movimento o gerador do tipo de desenvolvimento que temos na região? Ou do tipo de Estado que temos? Embora a tese de Centeno (2014) seja atrativa , nossa visão sobre a Bacia do Prata no século XIX dista a de ser pouco conflitiva, muito pelo contrário. Pretendemos neste estudo mostrar como estas 7 grandes guerras que aqui estudaremos se deram em um período de pouco mais de 60 anos e foram violentas e transformadoras. Segundo nosso entendimento, houve sim a “destruição transformadora” à qual se refere Fiori em relação ao papel da guerra. A ressalva seria que houveram também consequências diferentes às europeias ou mesmo às do tipo de inserção estadunidense porque a inserção internacional da Bacia do Prata foi desde a sua gênese peculiar, assim como as relações com os centros de poder do Sistema Internacional.
O problema da distribuição dos recursos gerados pela alfândega de Buenos Aires e da navegação dos rios perpassa toda a historia da Bacia do Prata. Por vários mecanismos (que aqui não iremos expor) Buenos Aires conseguiu historicamente reter para si os benefícios do principal porto do país. Este excedente facilitou a expansão da aldeia que derivou na capital econômica, financeira e política da Argentina. As guerras civis, os vários regimes, as várias tentativas de governo, a procura do equilíbrio entre os interesses das províncias e dos portenhos, não conseguiram mudar o curso da centralidade que Buenos Aires tem até a atualidade.
Assim, Buenos Aires obedece a: “(…) el uso de la ciudad por la conquista, el uso instrumental de la ciudad como estructura para consolidar la posesión” del país. (LUNA, 1978, p.48). É neste sentido que aparecem as lutas de resistências a esse poder, uma resposta ao estilo do “duplo movimento” de Polanyi (2012), que acabaram gerando guerras e novas dinâmicas geopolíticas.
E qual era a visão do Brasil deste fenômeno? Está bastante aceitado na historiografia brasileira que as elites viam a Argentina (assim como a todos os novos estados independentes) como caóticos, instáveis e perigosos justamente pela suposta anarquia. O Império conferia uma estabilidade ao Brasil que os vizinhos não conheciam. Isto fica claro no transcorrer da guerra da Cisplatina:
Para o Brasil, a Argentina era sinônimo de desordem, justamente por ter adotado o regime republicano, indicando que uma possível devolução da Cisplatina implicaria na “repartição de males”, na desordem e na anarquia. Ceder a Província, por pressão, representava a fraqueza do Império, e, por consequência, a do jovem monarca (PEREIRA, ano, p.102).
Também Moniz Bandeira (1998) concorda com essa visão de caos e instabilidade que se tinha no Império sobre a Argentina e o “perigo de anarquia revolucionária” (Bandeira, 1998) que ela representava e que podia “contaminar” o Brasil. Lembrando que nessa percepção de ameaça destaca-se a própria independência argentina do Império espanhol e depois a saída do regime escravocrata.
A falta de sintonia entre os regímenes estatais da Argentina e do Brasil era gritante. Os ideais dos libertadores e primeiros governantes argentinos: os chamados “patriotas” chocava com os ideais monárquicos do Brasil.
(...) é preciso considerar que Buenos Aires difundiu a imagem de Dom Pedro I como um tirano, que fomentava uma guerra injusta, atacando barbaramente os países vizinhos. Do mesmo modo, seus opositores questionavam, em todas as oportunidades, a legitimidade da figura do monarca, tendo em vista que Dom Pedro I nunca deixaria de ser um português, portanto, um europeu. (PEREIRA, ano, p.105)
A estes desentendimentos somava-se a percepção de uma suposta solidariedade entre a região que no passado compunha o Vice-Reinado do Rio da Prata (1776-1816), e que poderia decorrer na anexação dos territórios que outrora foram um só.
Não há um só homem de estado argentino que não confesse que a suprema ambição do seu país é reconstituição do antigo vice-reinado de Buenos Ayres, pela conquista do Paraguai e do Uruguai. Eis aí a fraternidade Americana. (PRADO, 1971, p. 5-6 apud HAGE, 2013, p.102).
A geografia da Bacia do Prata e sua forma de funil são de por si centralizadoras do comercio. O esquema de transporte fluvial e o crescente poder de Buenos Aires baseado nessa tributação davam motivos de preocupação para o Brasil.
Um elemento interessante para se pensar, embora receba sagazes críticas de Horowicz (2016), é que a formação do Exército Argentino ocorre antes da formação do próprio Estado. Ou seja, “el cuerpo de Patricios, y demás milícias criollas, construídas com motivos de las invasiones inglesas, sobrevivió a sus funciones específicas (...). El Ejército Argentino y su historia es anterior al nacimiento de nuestra patria a la vida independiente”. (HOROWICZ, 2016, p.17). Se bem é certo que só depois da Guerra do Paraguai os exércitos tanto argentinos como brasileiros adquirem a importância geoestratégica dos estados modernos, também é verdade que a formação das milícias platinas (dependentes dos diferentes caudilhos e governos) contribui na execução dos conflitos armados: na guerra. E a guerra só pode ter lugar quando recebe financiamento. No nosso caso, vindo dos fazendeiros bonaerenses que conformavam ao mesmo tempo a burguesia comercial e o poder político. E que cresceram desde mediados do século XVIII a través do contrabando de couro (especialmente) e acabaram substituindo Potosí como capital rica do então Vice-Reino.
Se a Revolução de Maio de 1810 resulta como a historiografia argentina costuma ensinar, em uma inevitabilidade determinada pela crise peninsular na Europa, a vinda da família real para o Brasil em 1808 entra na mesma categoria. “Na realidade, a presença de Dom João no Brasil retardou a independência política brasileira” (DORATIOTO, 2014, p.15). E esta questão, embora desse ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves um Estado minimamente operacional com uma estrutura burocrática e administração bem mais clara em relação às Províncias Unidas do Rio da Prata, também contribuía nesse desentendimento, desconfiança de um lado e do outro, que viriam seu ápice durante a Guerra Cisplatina.
Como mostram Crespo e Alves de Messias (2014), para Doratioto, a Guerra da Cisplatina foi a última guerra que obedeceu à lógica colonial, já segundo Moniz Bandeira “a guerra entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas refletiu basicamente uma disputa pelos estoques de gado da Banda Oriental” (CRESPO, ALVES DE MESSIAS, 2014, p. 7). As duas interpretações trazem para nós, elementos vitais da Economia Política Internacional: luta pela apropriação de recursos, conflitos e guerras e dinâmicas de inserção internacional, tudo isto moldado pela geopolítica regional.
“A questão uruguaia” que abrange não só a Guerra Cisplatina, mas também a Guerra Grande (1839-1851), Guerra do Prata (1851-1852) e a Guerra do Uruguai (1864-1865) coloca a geografia novamente em destaque e mostra as tensões exportadas desde Argentina, seja da mão de Juan Manuel de Rosas ou de Justo José de Urquiza, assim como outros caudilhos/governadores e que no máximo das suas expressões determinaram a guerra civil e internacional. O Império do Brasil, embora com tendência isolacionista em relação aos conflitos platinos, não conseguiu ficar isento da dinâmica.