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Resumen de ponencia
Tuítes Testemunhais: A inteligência coletiva contra o cerco mediático em torno ao impedimento de Dilma Rousseff

*Marcelo Santos



Não é novidade que a o campo da comunicação no continente e em particular no Brasil está ‘capturado’ por interesses econômicos e/ou políticos (Guerrero, Márquez-Ramírez, 2004). Neste contexto é elementar que os movimentos sociais que lutem contra qualquer forma de injustiça social sejam criminalizados ou invisibilizados em diferentes artimanhas de manipulação midiática (Kucinski, 1998; Chaui, 2006).
Um exemplo notório do primeiro caso é o Movimento Sem Terra (MST). No entanto, esta pesquisa se enquadra no segundo caso, em que a resistência contra o impedimento de Dilma Rousseff foi sistematicamente invisibilizada pela grande mídia ao longo de 2016. Neste contexto, a resistência midiática veio não somente da mídia alternativa –Mídia NINJA, Jornalistas Livres, Brasil 24/7 entre outros- mas também dos próprios cidadãos que procuraram, através dos meios disponíveis, propor um relato alternativo, fazer ver o que estavam (vi)vendo nas ruas: a massividade da oposição, a repressão arbitraria da polícia militar, entre outros fatores.
Hoje em dia um dos principais meios para canalizar tais relatos são as mídias sociais, entre as quais se destaca o Twitter por seu papel de determinante de pauta e de transmissor imediato de informação (Bail, 2014; Rogers, 2014). O conteúdo, composto principalmente por texto, fotos, vídeos ou streaming, pode ser obtido pelo pesquisador em seu ambiente natural de ocorrência -em oposição à artificialidade de outros métodos de pesquisa como as enquetes ou entrevistas (Bail, 2014). Twitter possui, destarte, características favoráveis à pesquisa em ciências sociais como fonte de informação para eventos retrospectivos (Bruns e Stieglitz, 2014) já que “documenta a sociedade contemporânea com riqueza de detalhes” (Risse, Peters, Senellart e Maynard, 2014) e apresenta uma tendência à circulação de notícias (Burgess e Baym, 2016).
Das múltiplas formas de criação de conteúdo que permite o Twitter, no entanto, o debate textual, de caráter simbólico, não tem nem de perto a força do conteúdo indicial, vinculado fisicamente ao objeto representado (Peirce, 2003, Santaella, 1983, 1992). A força deste tipo de conteúdo (principalmente visual, sonoro e audiovisual) para viabilizar os tais relatos alternativos, quando dotado de caráter testemunhal (Peters, 2001; Felman e Laub, 1992; Mortensen, 2015; Oliver, 2004; Levi, 2002) e a popularidade das mídias sociais digitais, graças a fatores econômicos, sociais, tecnológicos e institucionais (Wunsch-Vincent e Vickery, 2007) em um contexto de ubiquidade digital (Ganesh e Stohl, 2013), são dois pontos de atenção fundamentais ao avaliar a disputa que se dá pelo sentido dos eventos políticos (de Moraes, 2009). A este complexo fenômeno midiático o chamo Conteúdo Gerado por Usuário de caráter testemunhal, ou CGUt.
Para realizar uma primeira aproximação ao potencial deste tipo de conteúdo, analisei um conjunto de 115.701 tuítes emitidos com o agregador contestatário #ForaTemer, durante dois períodos que correspondem a dois protestos contra o impedimento: 31/08/2016, de 18:30 a 22:30 e 04/09/2016, de 16:30 a 23:30. No total são 11 horas de debate/diálogo no Twitter em torno à problemática do golpe parlamentar. Após um processo de filtragem apoiado por software (Tableau e DiscoverText) se realizou uma análise individual de cada tuíte, dividida em duas etapas: (i) seleção de casos que se enquadrem na definição de testemunhal proposta, i. e., que tenha vínculo indicial com o tema dos protestos (foto, vídeo, swarmapp, gif animado etc.) e (ii) que seja a primeira publicação de tal conteúdo (conteúdo original).
O resultado foram 1.223 tuítes testemunhais referentes aos protestos, dos quais 891 (73%) são criados e divulgados por usuários em sua qualidade de “cidadãos ordinários” (Chouliaraki, 2010). Após uma primeira análise quantitativa de impacto, ao observar a eficiência (na acepção de tipo custo-benefício) na difusão destes conteúdos, o resultado não surpreende: cada CGUt recebe 2,4 retuítes, pouco superior à média do conjunto total de dados, de 2,1 retuítes. Considerando que tuítes com conteúdo audiovisual em geral são mais retuitados (Suh, Hong, Pirolli e Chi, 2010) e que a média é de 10,0 retuítes para o total de tuítes com conteúdo audiovisual da mostra, este resultado inicial sugere uma baixa visibilidade dos CGUt.
No entanto, como sua presença é muito superior aos outros tipos de usuários –como ativistas ou mídia alternativa- sua dispersão total é relevante. Apesar de o grupo ter uma média de 6.000 seguidores aproximadamente (baixo, se comparado aos 75.000 seguidores em média para usuários do tipo “personagem” como “Buchada de Bode”), ao somar os seguidores de todos aqueles que retuitaram algum conteúdo testemunhal, temos que o total absoluto dos leitores potenciais de CGUt no contexto do debate em torno ao #ForaTemer durante os protestos, nesta análise de dois passos, só é inferior às categorias “mídia alternativa” e “personalidades públicas”, gerando uma espécie de efeito de “cauda longa” (Anderson, 2004, 2008). Ou seja, a pouca eficiência de cada CGUt individual é compensada por sua presença mais massiva, gerando um alcance total relevante.
A motivação para a criação dos conteúdos testemunhais, sejam CGUt ou não (por exemplo testemunhais criados ou publicados por mídia alternativa, ativistas ou políticos), segundo entrevistas realizadas com usuários presentes na mostra, é unânime: uma reação à cobertura condenável da crise política por parte da grande mídia. Os conteúdos são altamente politizados e, mesmo quando formalmente vestem uma aparência de objetividade, em linguagem que emula a imprensa, são impulsados, segundo os entrevistados, pela necessidade de fazer ver o que realmente estava ocorrendo nas ruas. Isto aponta a uma espécie de manifestação de inteligência coletiva (Lévy, 2004) em que, pese a provável alienação de cada indivíduo em relação ao todo, se produz o efeito descrito por Sunstein: “pequenos atos (...) que podem ser realizados por praticamente qualquer pessoa, quando levados a cabo por uma quantidade suficientemente grande de pessoas, pode produzir resultados inesperadamente significativos” (Sunstein, 2006, citado por Dylko, 2011, p. 14).
Mesmo considerando as limitações de um estudo baseado em um conjunto de dados restrito por tópico (Rafail, 2017) cujas mensagens se vinculam através do hashtag #ForaTemer, e circunscrito a uma única crise (impedimento de Dilma) e tão somente dois eventos (protestos) que ocorreram na mesma semana, este estudo sugere que os CGUt são uma forma incontestável apropriação social e significativa de tecnologias de comunicação (Proulx, Lecomte e Rueff, 2007) no sentido da militância nos âmbitos da comunicação para justiça social e da democratização da comunicação durante os protestos. Esta prática comunicativa, se potencializada pelos movimentos sociais -e possivelmente outros que se vejam em uma necessidade de resistência ao cerco midiático tanto no Brasil, como em outros países- certamente é uma tática a considerar nos repertórios de contenção para a ação coletiva (Tilly, 1973) que contribui para acirrar a disputa pelo sentido de eventos políticos, contestando narrativas tendenciosas da grande mídia em casos críticos como o impedimento de Dilma. Ao popular as redes sociais digitais com CGUt, o “cidadão ordinário” tem o poder de armar um mosaico de fragmentos, uma bricolagem/montagem que atesta, com a força do testemunhal (Peters, 2001) e a autenticidade da estética amadora (Polydoro, 2016), algo mais próximo à verdade das ruas. No melhor dos casos, a perspectiva subjetiva de um plano sequência individual dá lugar a uma objetividade criada coletivamente a partir da multiplicidade de planos e perspectivas (Pasolini, 1980), invertendo o panóptico benthamiano (Foucault, 1990), criando uma transparência radical de baixo para cima.




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* Santos
Pontificia Universidad Católica de Chile PUC Chile. Santiago de Chile, Chile