A globalização em curso é a culminância de um processo iniciado com a constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado como novo padrão de poder mundial.
Da perspectiva de Quijano (2000, 2002), o atual padrão de poder mundial resulta da articulação entre a colonialidade do poder, que tem a ideia de raça como fundamento de classificação social básica e, portanto, de dominação social; o capitalismo, como padrão de exploração social; e o Estado como forma central de autoridade coletiva para o controle dos conflitos, juntamente com o eurocentrismo para o controle da subjetividade/intersubjetividade e estabelecimento do modo de produzir conhecimento.
Os marcos da produção do conhecimento tido como válido resultam do e, ao mesmo tempo, são coerentes com o padrão de poder dominante. Assim, parte da luta contra o padrão de poder dominante é a produção de conhecimento crítico sobre os marcos que definem essa credibilidade, o eurocentrismo.
A produção de conhecimento a partir do Sul geopolítico requer abordagens metodológicas e pedagógicas que, ao contrário do eurocentrismo, reconheçam que todo conhecimento é situado espaço-temporalmente. Essas abordagens tem como premissas que há diferentes conhecimentos presentes no mundo e que estes diferentes conhecimentos são formas contextuais de interpretar e dar sentido ao que chamamos realidade. Elas rejeitam o universalismo abstrato do eurocentrismo e as hierarquias impostas pelo colonialismo e pela colonialidade características do padrão de poder mundial hegemônico.
A reflexão sobre as possibilidades de uma justiça social global tem como desafio inicial a reflexão discutir a ‘justiça cognitiva global’ da perspectiva das epistemologias do Sul. Santos (2007) considera que essa questão envolve um exercício de ‘ecologia de saberes’ a partir de reivindicações alternativas dos movimentos sociais e de suas lutas de resistência frente ao modelo de globalização hegemônico, crescentemente excludente (Santos, 2002). O exercício de ecologia de saberes implica a produção de conhecimento com e a partir daqueles que são excluídos das narrativas forjadas pelo eurocentrismo.
Nesse trabalho, escolhemos produzir conhecimento com os movimentos e as lutas por moradia e pelo direito à cidade, a partir da sua expressão no espaço urbano sob a forma de ocupações na região de Belo Horizonte/Brasil. Para isso utilizamos depoimentos e registros de participantes das ocupações, integrantes dos movimentos, responsáveis pela comunicação nos meios digitais, apoiadores, ou participantes dos projetos de extensão universitárias que se comprometeram com a causa. Esses registros se encontram majoritariamente nos blogs e nas páginas da rede social - facebook - das ocupações e dos movimentos que as organizam, dos apoiadores, e nos relatórios e publicações dos projetos de extensão universitária envolvendo as ocupações de Belo Horizonte. Em poucos casos foram registrados através de entrevista feita pelo whatsapp.
Para ampliar a perspectiva da narrativa e situá-la em relação a outros movimentos urbanos, apoiamo-nos em análises e reflexões de autores que trataram o tema desses movimentos a partir de experiências em outras cidades da América Latina.
Adotamos a ideia de brechas. Brechas sempre presentes seja qual for a configuração do poder na sociedade. Essa ideia das brechas combinou com a ideia de David Harvey de uma ‘teoria termiteira de mudança revolucionária’(Harvey, 2012). Gostei do nome e do sentido e achei que combinava com a ideia das brechas. E assim foi o percurso traçado: os novos movimentos sociais como brechas no padrão de poder dominante, seguido pelas ocupações como brechas do poder dominante no espaço urbano, acompanhado das práticas insurgentes das ocupações como brechas no espaço urbano neoliberal. Enfocamos as ocupações em Belo Horizonte/MG para daí evidenciar o que aprendemos com elas de resistência e insurgências. E como o padrão de poder dominante não se deixa ruir sem reagir, trazem também as formas de contra-ataque com que tentam reparar as brechas. O trabalho destaca dois aspectos que pareceram cruciais para um percurso da justiça cognitiva global para uma justiça social global: a ampliação da visibilidade das ocupações e a construção e fortalecimento de subjetividades outras. Ambos me parecem condição sine qua non para uma ‘mudança revolucionária termiteira’: para passar das brechas às rachaduras e destas à ruína do atual padrão de poder dominante.