A internet, como portal de dados etnográficos, pode convergir com o caminho da proposta etnográfica tradicional de Mauss (1999:05-07), quando corresponde à ação do etnógrafo, observar e classificar os fenômenos sociais, refletindo sobre as diversas formas de olhar. A inserção nesta ação agora é comumente dada a partir rede digital, campo onde se dispõe de antemão o contato com um universo de possibilidades de estudos. Quando Langhton Winner (1983) aponta o caráter político da tecnologia, não se deve duvidar do ciberespaço como uma (re) colonização ocidental impulsionada pelo lucro e seus ideais totalizantes que historicamente naturalizaram o sentido deste conceito. Tampouco se deve descartar a condição histórico-social da América Latina e suas relações culturais e estruturais com as tecnologias de comunicação digital. Pois, as relações sociais no campo online podem refletir a articulação que Quijano (2010:98,111,112) chama de totalidade , quando elementos em descontinuidade e heterogênicos são estruturados socialmente em um mesmo eixo e movem-se conjuntamente. Não de maneira unilateral, mas em ações múltiplas e conflituosas, estes elementos se repercutem nas relações sociais/digitais e deixam claro as ações humanas carregadas desejos, necessidades, intenções e tensões estando sempre em jogo.
A condição histórica da América Latinada (colonizada) nos faz duplamente nativos, nos sentidos, geopolítico e tecnológico, quando os sujeitos da racionalidade historicamente foram os europeus e a Não-Europa, era o objeto de conhecimento, e não, sujeito de construção de conhecimento. Quijano, lembra que a ciência que se destinará a estudar a sociedade europeia se deu pela Sociologia, e foi Etnografia, a ciência encarregada de entender as sociedades não europeias. Isso faz com que a iter relação entre sujeito e objeto do estudo seja latente na produção científica latino americana. E este presente estudo reflete sobre ação de totalidade das tecnologias da comunicação online, onde se reconhece o posicionamento de Latour (1994:54,91), sobre sermos todos nativos. Por estarmos na cultura que interage com as redes digitais, e por historicamente, estarmos em um modelo de descrição do mundo que se forma de maneira híbrida: em quase humanos e quase objetos – onde injustiçados, explorados, inadequados, invisíveis e impensados ainda não possuem valor de humanidade e se a distinguem entre os reconhecidos como humanos e sujeitos ativos na construção da história. Portanto, a descrição antropológica pode ser uma ciência que ultrapassa a sociologia do conhecimento, à potencializar as análises sobre os fatos históricos, culturais, sociais e políticos; o ciberespaço como recurso de fonte de dados, assim como ambiente da interação social e cultural dada em avatares, que se predispõem através das tecnologias da comunicação online.
A amplitude de vozes que o ciberespaço concede aos mais variados grupos e mais diversas pessoas, incluindo aqueles que não aceitam o outro em virtude de valores sociais, são evidentes nos conflitos e tensões relacionados à classe, raça e gênero. Por Latour, nossa condição de nativos está justificada no fracasso do projeto moderno de liberdade, igualdade e fraternidade. E, diante das atuais crises das democracias operando de modo intenso na América Latina, com a violência endêmica do Estado e facções em certos territórios, entre outras formas de violência presentes também em mensagens de ódio dispensadas nas redes sociais online, torna-se evidente o distanciamento destes preceitos democraticamente para todos.
Cabe lembrar sobre as raízes históricas, que em nossa geopolítica, predeterminaram as instâncias das relações sob o controle do trabalho, nas questões de gênero e raça naturalizaram e impulsionaram as injustiças de classes, ordenadas pelo que Quijano (2010:118,124) chamou de colonidade do poder. O que resultou em novas identidades geoculturais digitais, intrinsicamente relacionadas às novas relações intersubjetivas de dominação. Ele destaca não ser a toa, que o controle destas instâncias (classe, raça e gênero), segue manipulando normalmente (ainda que sofra resistência e possa se apropriar dela para continuar a manipular) e de modo essencial para continuar mantendo, acentuando e aprofundando o capitalismo e sua força de dominação e exploração em nome do lucro pelo nexo da ação do poder colonizado na América Latina. Fazendo imperar a hipocrisia subjacente do ideal formal da família e gênero sob os valores burgueses/cristãos, e a naturalização das categorizações que se ordenam pelas relações de poder se sobrepondo pela imposição dos vencedores/dominadores. Independente da ética e da justiça, desprezadas, nos procedimentos para ganhar, vencer e dominar.
Pela Antropologia de Geertz (2001:191-201) as reflexões filosóficas, sociológicas, históricas e políticas devem ser consideradas no contexto estudado. O que traz pontos bastante pertinentes à etnografia online ao pensar considerando as reflexões gerais da política, a partir da história que se perpetua na relação de poder, obrigação e justiça. Que por aspectos totais e incondicionais, podem trazer à luz respostas às questões do presente pela reflexão sobre o contexto histórico. A partir disso, é pertinente ao trabalho etnográfico pensar sobre o engajamento intelectual dentro do contexto político, partindo do que o cerca, e não a partir das importadas doutrinas impulsionadas pela lógica da construção do pensamento teórico. Deste modo, esta pesquisa considera a etnografia em campo online como um instrumento de análise que deve dar conta da intersubjetividade histórico-cultural intrínseca nos dados colhidos em redes sociais, num ambiente totalizador pela interface digital e pelo tronco da tecnologia como mecanismo de controle, dominação e poder. Que, com múltiplos espectros para análises sociais e culturais vai se constituindo como campo repleto de elementos políticos que estendem a história em um universo de aparências, conflitos, resistência e tensão de valores - nos ideais presentes sob perspectiva histórico-social, iluminados em telas – onde embora digitalizados, demonstram que não superamos os mesmos desafios epistemológicos da era pré internet.