Nesse artigo tenho como objetivo estudar as representações estéticas da liderança política de Luiz Inácio Lula da Silva nos filmes "Lula: o filho do Brasil" (2010) e "Polícia Federal: a lei é para todos!" (2017). Através do estudo dos filmes selecionados pretendo identificar como essa liderança política foi retratada em diferentes momentos de sua trajetória: em 2010, quando deixa o governo do Brasil com recorde de aprovação para ser substituído por sua sucessora pessoalmente indicada por ele, Dilma Roussef; e em 2017, momento em que foi alvo de diversas acusações de corrupção e investigado pela operação Lava-Jato da Polícia Federal brasileira.
Para esse estudo será realizada uma análise fílmica para identificar quais subjetividades são mobilizadas através das formas simbólicas transmitidas pelas películas, por meio dos enquadramentos utilizados pelos diretores. Os dois filmes foram produzidas como forma de entretenimento, contudo permeados por disputas de poder em seus contextos de produções, o que indica participação direta da Indústria cultural no processos de embates políticos vivenciados nesses dois momentos distintos da história do país.
Pretendo inicialmente discutir de forma breve momentos marcantes da relação histórica entre cinema e política, para depois abordar diferentes concepções acadêmicas do que é uma liderança política. A seguir, focarei em informações importantes dos filmes selecionados para análise e a metodologia de análise fílmica adotada. Por fim, farei a análise fílmica abordando os principais dados coletados, encerrando com minhas considerações finais.
Lula surge como interessante objeto de estudo nesse trabalho: esse homem, surgido das massas populares, de origem simples, é a principal liderança política de um movimento de massas, chegando mais tarde à presidência do Brasil e se tornando mundialmente reconhecido como uma referência política. O cinema documental e de entretenimento são importantes registros históricos dos diferentes momentos vivenciados por Lula em sua trajetória.
Lula será entendido nesse trabalho como uma liderança política de massas. Melo (2012) fornece pistas do que é uma liderança política. Utilizando os conceitos de Max Weber, Melo defende que o líder possui antes de tudo o carisma, capaz inclusive de romper com a burocracia e os controles da tradição. Segundo o autor, esse tipo de líder possui e exerce a capacidade de fazer-se seguir, possivelmente, por conseguir vocalizar um sentimento mais amplo e difuso, colocando-se à frente desses sentimentos, por espelhar em si a imagem de seus seguidores.
Melo (2012, p. 10) ainda separa três tipos de lideranças políticas: o “líder de massas”, que vocaliza o interesse das massas, arregimenta adeptos e mobiliza-os. Domina a comunicação e pode ou não ser um demagogo. É uma persona política admirável, mas não apresenta projeto real e caminho para o futuro, pois não é um estrategista político. É facilmente classificado como populista, nem sempre de forma justa. O “líder político” nem sempre é reconhecido. Articula processos políticos fundamentais, constrói consensos por meio do diálogo e estratégias políticas de poder, colocando-se à frente do processo. Assim, faltam-lhe as massas, pois não possui boa comunicação em campos abertos, apenas em âmbitos restritos. Seduz uma elite política, que o acompanha, muitas vezes pelo seu intelecto. É um líder político dos políticos, uma “raposa”. Por fim, Melo conceitua o “líder político de massas”, que condensa as melhores competências das duas lideranças anteriores: conduz povo e elite. É estratégico e arrebatador, pois extrapola seu grupo social, controla grupos distintos e contraditórios. Passa para a história de modo marcante, já que é a “raposa” e também populista.
A figura política Lula nasce no contexto da emergência da Política Informacional, no qual a mídia acabou por se transformar em espaço político privilegiado, e nela se enquadra o cinema, tanto de entretenimento quanto documental. Penteado (2005), citando Manuel Castells, defende que a mídia realça e destaca os elementos espetaculares do universo político; a personagem Lula nasce nesse contexto, com uma trajetória política marcada pelo chamado showbiz, desde seu surgimento como liderança sindical popular até o candidato que tinha como apoio um staff de campanha altamente profissionalizado na campanha à presidência em 2002.
A análise fílmica dos filmes previamente escolhidos usará como referencial a análise fílmica proposta por Manuela Penafria (2009) e a Hermenêutica de Profundidade, utilizada por John Thompson em “Ideologia e Cultura Moderna” (2012).
A Hermenêutica de Profundidade é uma ferramenta teórica e metodológica que permite analisar o contexto sócio-histórico e espaço temporal do objeto de estudo. Essa ferramenta fornece diversas opções, como análise discursiva, de conteúdo, semiótica ou qualquer outro padrão. A ideologia, por sua vez, pode ser analisada através da interpretação das formas simbólicas. Contudo, ela supera as formas tradicionais de ideologia, pois traz como inovação a necessidade de propor sentidos e discuti-los, podendo interpretá-los como ideológicos. Trata-se de fazer uma análise qualificada da realidade apresentada pelas formas simbólicas. Segundo Thompson (2002, p. 363), tal metodologia, resumidamente é “o estudo da construção significativa e da contextualização social das formas simbólicas”. A Hermenêutica de profundidade segue algumas etapas, que podem ser resumidas como análise sócio-histórica, que consiste na análise das situações espaço-temporais; a segunda fase é a análise discursiva e, por fim, a última etapa que é a ressignificação da forma simbólica.
O método de análise fílmica proposto por Manuela Penafria (2009), por sua vez, complementa o método hermenêutico de Thompson e visa fazer uma análise interna do filme. Para isso, ela propõe quatro etapas. A primeira etapa refere-se à apresentação das informações, como Título, ano, país, gênero, duração, diretor e distribuidora. A segunda etapa é decompor o filme a partir da dinâmica da narrativa. O procedimento adotado nesse trabalho será decompor o filme por cenas selecionadas que apresentem formas simbólicas que expressam a representatividade dessa liderança política no contexto do filme e para além dele. Essas cenas serão analisadas a partir dos discursos presentes nos diálogos das cenas em questão, bem como também serão descritos planos de cenas, trilha sonora e outros fatores que acompanhem a transmissão dessas formas simbólicas. A terceira etapa é chamada pela autora de “pontos de vista”. Analisarei os filmes nesse trabalho pelo sentido ideológico, com o intuito de verificar nas formas simbólicas o enquadramento que os cineastas fizeram dessas lideranças políticas representadas. As etapas 2 e 3 serão feitas ao mesmo tempo. A última etapa da análise fílmica proposta por Penafria (2009) é a seleção de uma cena principal do filme, que exprima o clímax da produção abordada.
Referências Bibliográficas
MELO, C. Notas e reflexões sobre liderança política: contribuição para delimitação de um campo de estudo. Revista Aurora, V 5, N 14, São Paulo, 2012.
PENAFRIA, Manuela. Análise de Filmes: Conceitos e Metodologia (s). 2009. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/bocc-penafria-analise.pdf
PENTEADO, Claudio Luís de Camargo. Entre Peões e Atos: O personagem Lula. Revista Espaço Plural, ano VI, n° 14. 2006, PR. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/4459/445944357010.pdf
THOMPSON, J. B. Ideologia e Cultura Moderna. Petrópolis: Vozes, 2002.