Resumen de ponencia
Multiplicando o conhecimento das experiências sociais relacionadas aos processos de curar: um estudo das práticas populares de cura no Brasil e em Portugal ao longo do século XX
*Diádiney Helena De Almeida
Trata-se de um conhecimento oral, transmitido por gerações, e consolidado em saberes e práticas que conservaram algumas de suas estruturas simbólicas ao mesmo tempo em que foram alterando seus elementos através da dinâmica cultural. Comparar os conhecimentos populares de cura com o conhecimento médico ocidental, ancorado na escrita, é não percebê-lo enquanto um saber assentado na memória e na identidade cultural das populações brasileira e portuguesa.
Essa comunicação se concentra na compreensão da performance de saberes e práticas que se configuraram a partir de uma epistemologia própria. Admitindo a incompletude da análise cultural e não buscando a coerência como um teste de validade, como indicou o antropólogo Geertz, chegamos a um conjunto de elementos que passou por um processo de aprendizagem pública. E como tal, com significados também públicos. A análise dos indícios das experiências dos curadores populares permite conjeturar, identificar elementos importantes numa tentativa de reconhecê-los e, talvez, interpretá-los.
A pesquisa parte de um recorte temporal ampliado, de 1900 até a década de 1960, o que permitiu a observação desses elementos em diferentes regiões e em diferentes momentos, assim como possibilitou perceber o movimento das mudanças e permanências históricas. Como fonte, considerei diversos estudos de folclore publicados no Brasil e em Portugal nesse período. Os sujeitos são os curadores, e os grupos sociais que fazem parte do mesmo universo tratando de suas dores e males ao mesmo tempo em que afirmam a relação estabelecida com as experiências e conhecimentos que envolvem a busca pela cura, e não os autores dos estudos de folclore.
Importante destacar que não aparece em nenhum desses documentos qualquer restrição quanto aos cuidados dos curadores. Nesse sentido, curandeiros, benzedores, bruxas e feiticeiros cuidavam de todas as doenças e males. Suas práticas de cura incluíam rituais religiosos e uma cosmovisão marcada pelo simbolismo da relação entre o humano e a natureza, mas estavam cravadas no cotidiano e ofereciam respostas concretas para qualquer incômodo. E isso não impediu que também recorressem aos médicos. O conhecimento de cura do curador popular não rivaliza com o do médico, ele possui outra natureza.
Isso não significa que eles realmente cuidavam e tinham sucesso no cuidado de toda e qualquer doença, mas que a busca pelo socorro desses curadores e o uso de remédios que usavam entre seus componentes muitos elementos que estavam presentes na natureza e, principalmente, possuíam significados compartilhados com todos reforçava o costume de cuidar do corpo contra doenças e males através da mediação dos curadores e rezadores, daqueles com quem se identificavam e compartilhavam códigos culturais.
Se for levantada a questão da continuidade dessas estruturas conceituais, perceptíveis ainda hoje, pode-se dizer que as práticas e saberes em torno dos processos de curar populares mantiveram a influência e capacidade de se perpetuar através de duas dimensões, uma simbólica através do dito e, a outra, técnica através do dito e do não dito. Toma-se como objetivos, portanto, desconstruir o texto folclórico para encontrar a cultura popular e fragmentar as classificações para compreender o discurso social dos curadores.
Curadores que são sujeitos de suas próprias histórias e que raramente tiveram seus nomes citados o que resultou na diluição de suas identidades numa coleção de dados de uma história que sempre foi contada pelo viés da ciência. Sendo assim, a imposição de uma única forma de intervenção nas questões de doença por parte da medicina impôs às práticas de curas populares um estatuto de conhecimento inferior.
A contra-hegemonia, como um processo de resistência ainda que inconsciente, por parte de membros de uma classe social desfavorecida, foi percebida pela conservação de saberes e práticas de curas, comuns ao universo cultural popular, que permaneceram vivos mesmo quando os curadores compartilharam experiências e conhecimentos próprios da medicina. O saber desses curadores constituía um conhecimento herdado pela família e pela vivência social, adquiridos oralmente, e repletos de significados que não eram sequer compreendidos pelos médicos, mas o eram de forma plena pelas classes populares.
Por fim, busca-se nessa comunicação, descolonizar e valorizar conhecimentos e sujeitos enquanto detentores de saberes e práticas de curar legítimos e que fazem parte da compreensão do mundo.