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Resumen de ponencia
A racialização dos imigrantes haitianos em Lajeado, Rio Grande do Sul, Brasil

*Fernando Diehl



Introdução
Este trabalho é oriundo de pesquisa que ocorreu no decorrer dos anos de 2015 e 2016 que originou a minha dissertação de mestrado defendida em 2007, que buscou verificar a presença dos imigrantes haitianos em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, o tema central da pesquisa foi compreender e descrever a relação social entre os moradores estabelecidos de Lajeado e os imigrantes haitianos, tendo como principal foco analisar a estigmatização dos haitianos pelos lajeadenses, visto que a partir da estigmatização e principalmente a racialização dos imigrantes haitianos que a população estabelecida de Lajeado constituiu o estereótipo de todos os novos imigrantes na cidade. Este artigo enfocará no aspecto da racialização dos imigrantes haitianos em seus locais de trabalho.
Metodologia
Para a coleta de dados foi utilizado três instrumentos, a observação sistemática, que ocorreu em espaços de interação cotidianos; entrevistas semiestruturadas, foram realizadas vinte e uma entrevistas com moradores de Lajeado assim como também conversas informais; e por último, análise de dados midiáticos, ou seja, matérias de jornais e programas de rádio locais que tratavam sobre os imigrantes haitianos.
Discussão
O artigo visa debater sobre a assim chamada migração Sul-Sul, visto os recentes fluxos migratórios tem demonstrado que o país de destino de muitos emigrantes não são mais os países capitalistas desenvolvidos, mas muitas vezes outros países das regiões do Sul. Neste sentido, apresentamos os imigrantes haitianos no Brasil, mais especificamente em uma cidade da região sul do país, em Lajeado no Rio Grande do Sul. Destacando que a imigração haitiana para o Brasil não foi um produto do acaso, visto que já existia uma cultura de diáspora dos haitianos e os mesmos encontravam-se países como Estados Unidos, Canadá e Guiana Francesa. Este trabalho verificou que a mobilidade dos haitianos até a região sul do Brasil decorreu devido a contratação dos empresários locais que estavam procurando mão-de-obra assim como também das redes de contatos dos imigrantes que informaram aos seus amigos e familiares as ofertas de emprego existentes na região, no contexto de 2013 até 2015. Os imigrantes chegaram em Lajeado para trabalharem em dois setores específicos, na construção civil e nos frigoríficos de aves da região chamada de Vale do Taquari, visto que na época havia uma grande oferta de trabalho nessas áreas pois a população local não queria ocupar tais postos de trabalho, com a chegada dos imigrantes haitianos, os mesmos foram estigmatizados pela população local, em sua maioria de brancos, posteriormente, conforme o desemprego aumentou na cidade, os haitianos foram alvos de racismo nos locais de trabalho.
O principal aspecto que deve ser destacado é que o estereótipo dos imigrantes haitianos não surgiu repentinamente, ele ocorreu de forma processual. Entre os fatores que ocasionaram na construção deste estereótipo é de que esses imigrantes chegaram na cidade repentinamente em um número bastante significativo, causando o espanto, medo e desconfiança da população local que precisou lidar com um grupo de estrangeiros circulando nos espaços centrais da cidade que havia surgido “da noite para o dia”. Deve-se salientar que os habitantes de Lajeado e a região chamada Vale do Taquari, na qual a cidade pertence, são em sua maioria descendentes de imigrantes alemães e italianos, outros grupos étnicos são minoritários, entre eles, os negros eram 2% da população e não se encontram tanto na região central da cidade. A entrada destes imigrantes – negros – na cidade, circulando nas regiões centrais causou espanto da população local. Em um primeiro momento essa população associou estes imigrantes utilizando-se de categorias raciais existentes na região acerca dos brasileiros negros, todavia, à medida que a presença destes imigrantes tornava-se mais “naturalizada”, as informações transmitidas nas redes de fofoca se organizaram de determinada forma que possibilitou aos estabelecidos construírem características que essencializavam os imigrantes, atribuindo a eles determinadas características que seriam inerentes a todos os “haitianos”, estas características diferenciariam estes imigrantes dos brasileiros negros.
A construção do estereótipo dos imigrantes haitianos decorreu de dois aspectos, através de sua racialização e respectiva estigmatização. Esses imigrantes eram negros, diferentes da maioria da população local, o que causava o estranhamento inicial. No primeiro momento os haitianos foram relacionados de maneira semelhante a que a população estabelecida de Lajeado em conversas informais costuma atribuir aos brasileiros negros. Conforme a presença dos haitianos se tornava mais comum outras características foram surgindo, estes imigrantes começaram a ser considerados como barulhentos, principalmente porque eles andavam em grandes grupos, diferente dos brasileiros negros que costumam andar sozinhos ou em pequenos grupos, menores que os dos haitianos. A população lajeadense estabelecida questionava se esses imigrantes iriam trabalhar, se não seriam uns “vagabundos” como consideram os brasileiros negros. Todavia, conforme a presença dos imigrantes tornava-se mais naturalizada, os haitianos foram vistos como muito trabalhadores, essa característica logo foi bastante enaltecida, mas, esperavam que os haitianos trabalhassem e apenas isso, no tempo livre que desaparecessem em suas casas afastadas. Por outro lado, os brasileiros consideravam estes imigrantes como agentes que estavam trazendo doenças para a cidade, nisto eles faziam uma confusão de informações, pois associavam o Haiti com a África, continente este que existe todo um imaginário coletivo de ser um péssimo lugar, apenas com miséria, fome e todas as doenças possíveis, logo, estes imigrantes negros estariam trazendo para a região doenças e um “atraso cultural”.
No município de Lajeado, todos os novos imigrantes passaram a ser vistos como “os haitianos”, consequentemente, outros imigrantes como senegaleses e indianos, tornavam-se automaticamente como “haitianos”, e essa categoria racial, denotava possuir atributos inerentes a todos os indivíduos “haitianos”, construiu-se assim a forma do estereótipo do haitiano. O “haitiano” se apresenta como um indivíduo muito trabalhador, mas que é meramente uma mão-de-obra a ser utilizada e descartada, os “haitianos” são muito barulhentos, eles são ignorantes, fedorentos, pessoas podem ser terroristas disfarçados, são portadores de males exteriores que vão vir destruir a terra “perfeita” dos estabelecidos, trazendo doenças como AIDS (que já existia na cidade) e outros males. O principal para muitos moradores locais é de que os imigrantes possuem uma cultura inferior, e que isto pode vir a prejudicar a tradição da cidade e região. O haitiano é representado como um estranho, alguém misterioso, alienígena de todo o resto da cidade, um estrangeiro conforme descrito por Georg Simmel em 1908. Este estereótipo do imigrante não surgiu pronto, foi um produto de um processo que os lajeadenses foram constituindo em suas interações, para estabelecerem e traçarem um perfil tipificado destes imigrantes, construindo assim um estereótipo que mantivesse a sua função na sociedade, trabalhadores braçais, ao mesmo tempo que deixava bastante nítida que eram uma categoria inferior com atributos pejorativos. Como os haitianos foram o grupo imigrante mais numérico, acabaram se tornando a tipificação de todos os novos imigrantes na cidade. A Racialização dos haitianos decorreu de que a população os aceitava desde que estivessem ocupando apenas dois postos de trabalho, a construção civil; frigoríficos de aves. Neste sentido, os haitianos foram os imigrantes racializados, sendo todos os novos imigrantes essencializados como “os haitianos”.
Considerações finais
Devido ao fato de que os locais que transmitem as informações e estigmas dos haitianos não se relacionam com eles, o estereótipo tende a ser exagerado, quase caricaturado, tipificando todos os imigrantes com um perfil só. Este perfil surge nas redes de fofocas, o que corrobora para a disseminação do preconceito contra os imigrantes, pois sem haver uma interação, os locais estabelecidos não conhecem de fato quem estes imigrantes são. O estereótipo assim como os estigmas são construídos por uma pequena parcela da população que é abertamente contra a presença destes imigrantes, e reproduzida pela população indiferente à presença destes imigrantes, que associa essas informações exageradas como sendo verdades. Todavia, deve-se destacar que, aos olhos da população local, os imigrantes “haitianos” tipificados, embora estigmatizados encontram-se em melhor situação que a população brasileira negra local, pois a população branca, vê estes imigrantes de forma positiva por considerarem os imigrantes como muito trabalhadores, visão contrária que eles têm dos brasileiros negros, que os atribuem como sendo preguiçosos.




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* Diehl
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil