Este artigo é recorte de uma tese de doutorado em educação que objetivou analisar o sentido que jovens rurais do sertão sergipano conferem à sua experiência de escolarização no ensino médio regular em escolas urbanas, problematizando e integrando essa dimensão aos impactos em suas identidades, às expectativas profissionais e suas implicações para a sustentabilidade da agricultura familiar. Buscou-se refletir acerca das fontes do sentido dos jovens pesquisados nos contextos socioeconômico e escolar, isto é, em um duplo processo: uma pesquisa qualiquantitativa e compreensiva do sentido e aprofundamento, de tipo sociológico, do contexto em que esse sentido é construído. O universo de estudo é composto de jovens rurais estudantes do último ano do ensino médio regular em escolas públicas urbanas de Nossa Senhora da Glória e de Poço Redondo, municípios do território Alto Sertão Sergipano, região de clima semiárido, localizada no Noroeste do estado de Sergipe. Esse território é uma importante bacia leiteira do estado, cuja economia gira em torno da produção e processamento do leite por pequenos produtores, de base familiar. Sua população está igualmente distribuída entre homens e mulheres, no entanto, o município de Poço Redondo possui população rural quase três vezes maior do que a urbana, enquanto em Nossa Senhora da Glória, o município mais urbanizado da região, a relação é inversa. No ano letivo 2015, a coleta de dados foi realizada em três escolas e levou dois semestres para a execução do trabalho de campo e análise de dados. A coleta por meio de questionário – composto de 122 perguntas fechadas e abertas – contemplou 80 jovens rurais. Em uma segunda etapa, foi realizada nova coleta de dados aos mesmos jovens, dessa vez através de grupos focais e entrevistas. Ao questionário e às entrevistas juntaram-se fontes secundárias de pesquisa, como estatísticas oficiais. Sob a perspectiva de novas ruralidades, discute-se neste recorte se os jovens rurais pesquisados já pensaram em fazer algo em prol do desenvolvimento local, o interesse de ir embora ou de ficar no meio rural onde vivem e expectativas profissionais. Da análise dos dados, pode-se concluir que a maioria dos jovens rurais pesquisados gosta de morar no campo, sem diferenças nos percentuais das respostas dos homens e das mulheres, com pouca diferenciação nos percentuais dos jovens rurais que estudam em Poço Redondo e em Nossa Senhora da Glória. Os jovens pesquisados almejam continuar a estudar para exercerem alguma profissão que lhes conceda um status social maior que o de agricultor, considerando o ensino médio como um salto para uma vida melhor para si e para a família. Perguntados se já haviam pensado em algum tipo de contribuição que poderiam dar ao desenvolvimento de sua terra, a maior parte dos pesquisados respondeu “não”. Embora em minoria, aos jovens pesquisados que responderam “sim” foi perguntado o que pretendem fazer para contribuir para o desenvolvimento local e se veem obstáculos para isso. As respostas, de forma geral, foram bastante superficiais, principalmente as obtidas dos jovens de Poço Redondo, inclinadas para a espera pelo poder público, críticas aos políticos que nada fazem e uma visão de cunho assistencialista. Em Nossa Senhora da Glória, da minoria que respondeu “sim” e “talvez” sobre se já pensaram em fazer algo para o desenvolvimento de sua região, somente um rapaz deu uma resposta voltada para o meio rural. Quanto às moças de Nossa Senhora da Glória, do total de jovens rurais que já haviam pensado em algo sobre o desenvolvimento local, não obstante também em minoria, foram as que mais pensaram em contribuir para o desenvolvimento da região, inclusive ao demonstrarem alguma possibilidade de protagonismo. Estas não se reportaram a políticos nem a governos, mas também não se mostraram otimistas quanto aos obstáculos que, para elas, são muitos. Uma moça – visto que o local desta pesquisa é uma região com recorrentes e prolongados períodos de estiagem – apresentou a ideia de ajudar ao desenvolvimento local com a oferta de cursos de convivência com a seca. Por ser uma região produtora de leite, a sanidade animal recebeu atenção de outra jovem que apresentou a ideia de um trabalho de vacinação dos animais. Pelo fato de apenas uma minoria dos pesquisados já ter pensado em dar alguma contribuição para sua região e com base nas respostas, de modo geral muito vagas, deduz-se que os jovens rurais não recebem uma formação para atuação em suas comunidades com vistas ao desenvolvimento local. Perguntados se pensam em ir embora do sertão, a maioria respondeu “não”, sem diferença de gênero, com pouca diferença por município. Quanto aos que pensam em ir embora, na realidade, é apenas uma ideia, nada muito concreto, pois, quando indagados para onde, parte considerável ou não sabia ou não respondeu. Dos que pensam em ir embora do sertão, a maioria não pretende ir para muito longe e respostas como “algum lugar que me interesse” e “lugar com mais oportunidades” confirmam a ideia de que são apenas conjecturas. Isso não significa que os jovens rurais não sairiam, caso a oportunidade surja, nem que não gostam de sua região, pois parte fala em sair para posteriormente retornar e ajudar seus pais e familiares. Em relação às expectativas para o futuro profissional, os jovens pesquisados não estão interessados na agricultura e a maior parte respondeu que gostaria de ter uma empresa ou trabalhar por sua conta, isto é, empreender. Tal fato reforça a emergência de novas ruralidades e de ressignificações de um sentido cultural do meio rural como espaço eminentemente agrário.