O objetivo deste ensaio é discutir a questão da diferença, mobilizando conceitos dos estudos pós-coloniais para analisar categorias hierarquizantes no que tange a diversidade cultural neste contexto moderno ocidentalizado. Para tanto partiremos da obra Da diáspora (2009) do autor Jamaicano Stuart Hall, de forma a levar em consideração os efeitos que binômios estruturantes tiveram tanto no senso comum quanto na construção da identidade de grupos minoritários e os desdobramentos normativos que culminaram nos movimentos sociais de diversos grupos na busca por reconhecimento. Portanto, em um primeiro momento, analisaremos como categorias de entendimento universalizantes influenciaram a percepção de mundo sobre o que seria considerado civilizado e incivilizado ao cristalizar diferenças de forma hierarquizantes, não só mas principalmente naquilo que tange as relações-étnico raciais. Em seguida, analisaremos o conceito de diferenciação presente na obra de Stuart Hall, debatendo sobre os efeitos da diferenciação enquanto saída alcançada pelos Estudos culturais para a utilização dos binômios estruturantes. E para concluir, analisaremos quais perspectivas teóricas, tentaram desdobrar políticas normativas para esses grupos minoritários, tentando compreender como em uma sociedade plural de multidões seria possível levar em consideração as demandas destes grupos.
Para analisar o tema da diferença naquilo que tange diversidade cultural, e principalmente nas relações étnico-raciais se faz necessário antes informar que operaremos através do viés metodológico dos Estudos Pós-coloniais focando na análise dos Estudos Culturais que pensam a partir de uma métrica Foucaultiana, em que o sujeito é uma posição na cadeia discursiva enquanto forma de subjetivação. Ou seja, que tenta produzir uma “ontologia histórica dos nossos modos de sujeição em relação ao campo do poder”, explicitando os mecanismos de ação de uns sobre os outros; e a ética, onde busca uma ontologia histórica relacionada à subjetividade humana e os questionamentos que tornam os indivíduos “agentes morais”. Sendo que, o poder exercido nas instituições era um feixe de uma relação mais ou menos organizada, hierarquizada e coordenada. Que arriscavam dirigir a consciência e tentava impingir na sociedade discursos persuasivos indicando quem demandava o poder e quem o acatava, (FOUCAULT, 1999)
Portanto é a isso que Hall (2009) se refere ao dizer que, “Os estudos culturais são uma formação discursiva, no sentido foucaltiano do termo” (p.188). Entretanto, na análise das práticas sociais nos estudos culturais sua intenção é ir além, no sentido de que se para Foucault, a relação de poderes e saberes na construção de “verdades” com efeito auxiliam na dominação do homem através de práticas políticas e econômicas na sociedade capitalista (FOUCAULT,1999). Já para Stuart Hall, o exercício do poder pressupõe um lugar para o sujeito, uma vez que os discursos, ou regimes de verdade, só ganham sentido a partir do posicionamento dos sujeitos, ou pelo processo de subjetivação, pelo qual os sujeitos lidam com as formações discursivas, ao produzirem a “narrativa do self”, (DE CASTRO, 2014)
“O Estado condensa práticas sociais muito distintas e as transforma em operações de controle e domínio sobre classes específicas e outros grupos sociais. A maneira de chegar a essa concepção é não substituir a diferença pelo seu oposto especular, a unidade, mas repensar ambas em termos de um novo conceito – a articulação. É justamente esse passo que Foucault se recusa a dar”. (HALL, 2009, p.163)
Assim, os estudos culturais que estão dentro da corrente pós-colonial, pois fazem uma crítica ao pensamento moderno eurocentrado, mesmo porque a maioria dos intelectuais dos estudos pós-coloniais são intelectuais imigrantes, portanto eles vivem essa subjetividade de experiências entre mundos sociais. E partem de uma análise da construção discursiva que representem também o espaço de fala do oriente e do ocidente, em um movimento que na época pensava a construção de identidades pós-independência. Ou seja, a corrente pós – colonial parte do pressuposto que a partir do olhar do colonizador o mundo colonizado é construído discursivamente, afetando diretamente o colonizado que constrói suas categorias de pensamento a partir do ideal colonizador.
Portanto, Stuart Hall na obra Da diáspora (2009), afirma que este conceito fechado de diáspora faz parte de uma concepção binária de diferença. Ou seja, essa concepção binária pode ser compreendida enquanto um padrão recorrente, que dispõe um diretamente oposto ao outro, como por exemplo o de cima versus o de baixo, esse movimento afirma Hall (2009) é excludente, é por esse fato que nesta obra ele trabalha o processo de différance ao invés de pensar categorias binárias. Assim, partir do exemplo sobre a diasporarização, é possível perceber que, sujeitos que perpassam por uma diáspora não são nada mais que um reflexo “pálido de uma origem verdadeira”. Em uma linha que, o pertencimento cultural dos grupos diaspóricos, não poderia se apegar a modelos unitários, homogêneos e fechados, mas abarcar processos mais amplos, de forma a se introjetar na trajetória de um povo moderno e de uma cultura moderna.
Mesmo porque, neste momento pretendemos nos ater aquilo ao que concerne à formação cultural a partir do exemplo do Caribe desenvolvida por Hall (2009), mas que muito serviria enquanto análise para a América Latina, principalmente naquilo que tange as relações étnico – raciais no Brasil, pois no caso do Caribe o autor afirma existir, traços, costumes que são considerados enquanto elementos de ascendência, em comparação com os aspectos negros que foram sempre posicionados em termos de subordinação e marginalização. Nesta linha, a intelectual Gislene Aparecida dos Santos no livro A invenção do “ser negro”: um percurso das ideias que naturalizaram a inferioridade dos negros” (2002, p.55). Afirma que, “O ser do negro é investigado, especulado, demostrado que constituía um fenômeno diferente. Quer por obra da natureza, quer por obra divina, havia se produzido um ser que merecia explicação, um ser anormal. Essa explicação tornava-se quase sempre justificativa de sua inferioridade natural.”
Não porque a África seja um ponto de referência antropológico fixo – a referência hifenizada já marca o funcionamento do processo de diasporização, a forma como a “África” foi apropriada e transformada pelo sistema de engenho do Novo Mundo. A razão para isso é que a “África” é o significante, a metáfora, para aquela dimensão de nossa sociedade e história que foi maciçamente suprimida, sistematicamente desonrada e incessantemente negada e isso, apesar de tudo que ocorreu, permanece assim. Essa dimensão constitui aquilo que Franz Fanon denominou “o fato da negritude”. A raça permanece, apesar de tudo, o segredo culposo, o código oculto, o trauma indizível, no Caribe. É a África que a tem tornado “pronunciável”, enquanto condição social e cultural de nossa existência”. (HALL, 2009, p. 41)
Portanto, era concebido enquanto barbárie a cultura desse povo, pelo simples fato de ser diferente, e não entrar nas categorias de compreensão daqueles “ocidentais”. Deste modo, diante dos europeus todas as relações sociais dos africanos, a partir do primeiro contato predatório foi sendo considerado devasso portanto reprimido e diminuído, (SANTOS, 2002). Este fato nos leva a problematizar as categorias de pensamento europeu, e as práticas que os fizeram criar categorias de pensamento binárias inferiorizantes, como a de civilizados e incivilizados, que fez do mundo Ocidental sinônimo de luz e de todo o resto trevas. Logo, seria isso aquilo que Hall (2009, p.36) chama de “subversão dos modelos culturais tradicionais orientados para a nação”. Sendo esse um movimento de “desterritorialização” parte do processo de globalização cultural. Em que as concepções impulsionadas por novas tecnologias, alargam laços entre a cultura e o lugar, causando assim uma compressão dos Espaço-tempo. Muniz Sodré em sua obra “O Terreiro e a cidade” (1988), parte desse mesmo pressuposto para explicar quais foram os resultados dessas mudanças cognitivas na sociedade, para tanto ele retorna para a história, para contextualizar por quê e quais foram os efeitos na sociedade dessa mudança ou melhor dessa compressão do espaço-tempo. Assim, no decorrer do artigo pretendemos demonstrar quais foram os efeitos dessas categorias inferiorizantes nos grupos minoritários principalmente naquilo que tange as questões étnico-raciais.