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Resumen de ponencia
Trabalhadores em frigoríficos: condições e relações de trabalho e adoecimento. Oeste do Paraná (Brasil), décadas de 1980 a 2010

*Rinaldo José Varussa



O avanço da produção frigorífica no Brasil faz sobre um paradoxo, que não é novidade em termos de capitalismo: sucesso enquanto crescimento de volume e lucratividade, pautado em qualidade certificada internacionalmente das mercadorias, altos índices de adoecimento chegando ao nível da milhares de invalidez permanente de trabalhadores, que vem tendo como repercussão a rejeição a um trabalho, que em décadas passadas chegava a ser valorizado pela própria classe.
Esta comunicação busca apresentar e discutir alguns aspectos deste paradoxo, tendo como referência as experiências de trabalhadores que atuaram no setor na região Oeste do Paraná. Esta região empregava, que empregava aproximadamente 20 mil trabalhadores diretamente ligados à produção frigorífica, em 2016, respondia por cerca de 15 % daquela produção em termos nacional, o que a caracterizava, como uma das maiores regiões produtoras do mundo.
Para tanto, a pesquisa que fundamenta este trabalho baseou-se na entrevista de 54 trabalhadores, que atuaram em diferentes períodos, desde a década de 1960, no setor frigorífico, bem como material impresso (jornais, boletins, artigos) produzido pelas organizações empresariais e instituições de pesquisa e processos trabalhistas instaurados na Justiça do Trabalho do Brasil.
A dinâmica deste processo de intensificação da produção frigorífica, que tornou o Brasil no maior exportador mundial de carnes e que passa inclusive por mudanças acentuadas nos hábitos alimentares das populações – só no país, a carne de frango, por exemplo, saltou de um consumo de 15 kg/habitante/ano na década de 1980 para 43 kg em 2010 – constituiram-se, no que se refere especificamente às condições e relações de trabalho, em duas características que podem ser vistas como relacionadas: o alto índice do que o empresariado denomina como “rotatividade” da mão de obra e as formas de organização e mobilização da categoria profissional.
No primeiro ponto, a caracterizada rotatividade foi estabelecida a partir da década de 1990, quando no caso do Oeste do Paraná, se verifica não só a intensificação da produção, como a diversificação dos cortes produzidos nas “linhas de desmontagens” dos frigoríficos, passando de 8 tipos de cortes (peças) para 26 em 2010. Com isso, os trabalhadores viram sua atuação nas linhas dos frigorífico modificada substancialmente, acentuando-se o uso de movimentos repetitivos, o que tem como consequência, num curto prazo para uma parcela significativa dos operários (aproximadamente, 25% destes apresentam problemas de saúde ligados ao trabalho), o adoecimento, principalmente de males osteomusculares dos membros superiores e coluna vertebral. Assim, a denominada “rotatividade”, que varia nos frigoríficos do Oeste do Paraná de 80% a 105% ao ano entre 2005 e 2014, tem como principal motivação o pedido de demissão dos próprios trabalhadores (60 %), no que se refere a estes sujeitos parece antes caracterizar um processo de rejeição a este tipo de trabalho.
No que se refere às formas de organização e mobilização da categoria profissional, nos últimos 40 anos, observou-se a consolidação de instituições sindicais com reduzida capacidade de enfrentamento das condições acima apontadas. Estas instituições, no Oeste do Paraná, caracterizam-se por ações assistencialistas e de atendimento pontual a demandas dos filiados, sem enfrentamento de suas causas. Chega-se a algumas situações suigeneris como a existência de uma farmácia na sedes de um sindicato, a qual fornece medicamentos com descontos aos associados. Além disso, 70 % dos frigoríficos pertencentes a cooperativas agroindustriais, estabelecem uma divisão na categoria, já que os trabalhadores destas empresas passam a ser representados por uma outra modalidade de sindicato, especifico para trabalhadores em cooperativas e não na indústria alimentícia. Esta divisão tem favorecida as empresas cooperativas, uma vez se constitui neste setor um sindicalismo que se assemelha a uma franquia: onde os frigoríficos de cooperativa se instalam, lá se fundam um sindicato de trabalhadores em cooperativa que mantém uma unidade entre si, fazendo parte de uma mesma organização. Estes sindicatos são dirigidos por um corpo “profissional” sem nenhuma representação ou presença dos trabalhadores em suas instâncias. Tal situação e composição destes sindicatos se beneficia sobremaneira da “rotatividade”, uma vez que a pouca expectativa e efetividade de configurar uma carreira na profissão, constituindo-se mais o trabalho nos frigoríficos como uma ocupação temporária, inviabiliza o enfrentamento de tal forma de organização.
Contrapõem-se parcialmente a esta situação sindical, organizações firmadas pelos trabalhadores voltadas às questões ligadas ao adoecimento de trabalhadores. Estas organizações grosso modo vem empreendendo lutas jurídicas, em boa parte apoiadas em denúncias feitas ao Ministério Público do Trabalho, que tem desencadeados processos judiciais, com alguns ganhos para os trabalhadores, embora, centrados em formas de compensação pelos danos causados e menos no sentido de se mudar as condições existentes.




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* Varussa
Universidade Estadual do Oeste do Paraná UNIOESTE. Marechal Cândido Rondon-PR, Brasil