Resumen de ponencia
Estudantes bolsistas na escola particular: três estudos de caso á luz da teoria bourdieusiana.
*Pedro Henrique Barboza Machado
O presente trabalho analisa a trajetória de três estudantes bolsistas da Escola Oga Mitá, instituição privada de ensino localizada no Rio de Janeiro na região da Grande Tijuca. Para cumprir tal engenho parte-se de conceitos bourdiesianos, notadamente o de “capital cultural” e o de “habitus”. A primeira parte do escrito destina-se a apresentar pontos relevantes da teoria de Pierre Bourdieu para as aspirações do trabalho. Na segunda parte são apresentadas de maneira resumida as entrevistas com os três estudantes. Na parte final são feitas algumas aproximações entre as informações obtidas nas entrevistas e a teoria de Bourdieu. Nesse sentido, surgem reflexões sobre a importância do capital social atribuído pelos entrevistados à experiência na escola Oga Mitá, os tipos de capitais culturais percebidos a partir das vivências dos entrevistados e a escolha do destino realizado por eles.
Dessa maneira, o escrito pretende colocar em diálogo duas realidades que, em uma primeira mirada, comunicam-se muito pouco. De um lado, uma escola que atende um público de classe média- situada em um bairro que por sua vez também é de classe média-, e de outro, estudantes advindos de classes inferiores, que puderam estudar nessa instituição de ensino a partir de bolsas de estudo.
Esses dois cenários – escolas voltadas para extratos superiores da sociedade e processo de escolarização das classes populares- foram alvos de constantes e produtivos estudos nos domínios da Sociologia da Educação. O objetivo em questão, entretanto, é pensar como se deu, em três casos muito específicos, a interseção de dois “mundos” aparentemente diferentes. Tal engenho justifica-se enquanto algo válido, pois a partir de suas reflexões podem ser questionadas, ainda que de maneira limitada, o papel da escola frente às desigualdades culturais que recebe, além de pensar nos processos de socialização- e de formação- dos indivíduos, quando frequentadores de um ambiente que não está de acordo com os padrões percebidos em sua região natal.
Para realizar a parte empírica da pesquisa foram escolhidos três estudantes da escola. A metodologia empregada foi análise da trajetória de vida desses sujeitos a partir das informações obtidas em entrevistas estruturadas realizadas com os mesmos. Esses nomes foram obtidos em conversas com professores que trabalham na escola há mais de uma década.
Os sujeitos estudados e a instituição escolhida foram de grande valor para se pensar como as interações no meio escolar afetam os sujeitos e suas escolhas no futuro. Duas características específicas encontradas no campo ajudam a entender o saldo avaliativo preponderantemente positivo apresentado pelos sujeitos por terem estudado na Escola Oga Mitá:
A primeira delas era que, além de bolsistas, esses sujeitos tinham uma relação ainda mais próxima com a escola, uma vez que suas famílias também participavam do ambiente escolar pelo caminho do trabalho (parentes próximos de dois entrevistados trabalharam na escola nas funções de “Serviços Gerais”) ou de relações afetivas/estima (o diretor da escola foi padrinho de casamento dos pais de um dos entrevistados). Sendo assim, suas famílias interagiam com a instituição escolar de um modo mais intenso se comparada com outras famílias de bolsistas que não tivessem nenhum integrante trabalhando na escola. Essa característica que une os sujeitos pesquisados não era, em absoluto, uma exigência. O recorte feito era somente com sujeitos bolsistas, de baixa renda, que estudaram na escola. É possível supor que essa interação mais forte com a instituição, a qual os indivíduos estavam expostos, interferiu em suas avaliações, discursos e exigências sobre a própria escola.
O segundo fator levantado é aquele que pode ser chamado de “clima escolar”. Por esse termo entende-se o somatório de sensações vis-à-vis a instituição escolar. Tais percepções podem revelar traços significativos da estrutura administrativa, pedagógica e humana da escola. A literatura sobre essa área aponta que o clima escolar é um poderoso instrumento indicativo da eficácia da escola em questão e que pode ser um fator significativo para o desenvolvimento dos seres humanos. Essas são hipóteses aqui sustentadas. Os sujeitos extraíram da experiência de estudo na Oga Mitá um saldo preponderantemente positivo a partir de suas interações com duas categorias específicas que servem como variáveis para se pensar o “clima escolar”: o sistema social- que se refere ao todo que abarca as relações mantidas entre os integrantes da comunidade- e a cultura- representada e incorporada nas regras, valores e discursos existentes na escola.
Obviamente o trabalho contém limitações. A começar por sua natureza, trabalho de conclusão de curso de graduação, a amostra aqui tomada para análise é pequena, embora a partir dela se possam extrair interessantes análises. Trabalhar com teses bourdieusianas produzidas nas décadas de sessenta e setenta do século passado para um contexto que não foi aquele percebido enquanto motivação para o autor também aparece como um possível limitador. Contudo, ainda acredito no poder que suas bases teóricas oferecem. Não foram realizados um estudo mais sistemático e detido sobre as famílias desses estudantes e nem sobre suas realidades pós-escola Oga Mitá.
A partir das conclusões vislumbro um campo em aberto para continuar os estudos nessa seara. O trabalho constituiu-se enquanto um primeiro esforço de tentar aproximar essas duas realidades diferentes. Acredito, mesmo com todas as limitações que são de sua natureza, ter servido como o começo intelectual que me permitirá contribuir, ainda que de forma pequenina, no universo dos estudos sobre a Escola nos domínios da Sociologia da Educação.