Propõe-se aqui um olhar a partir do qual seja possível uma crítica ampliada não apenas a questão da sexualidade e do gênero, mas a questões políticas e discursivas, a partir das várias críticas queer "de cor", sobretudo as indígenas, no continente. Neste sentido, este trabalho se coloca em paralelo a uma série de discussões atualmente em curso nas ciências sociais latino-americanas sobre o potencial descolonizador de estudos feministas, interseccionais e no campo das sexualidades, vistas a partir das críticas anticoloniais e decoloniais provindas dessas críticas. Contudo, faz-se míster indicar alguns pontos: primeiramente, trata-se de uma tentativa de se incorporar essas críticas ao universo epistemico-político das ciências sociais, mais do que - como poderia aparecer em uma primeira leitura - seguir uma (contra?-)corrente de críticas muito em voga, tanto no âmbito dos estudos de gênero e sexualidade, quanto nas críticas ao processo de colonização. Além disso, não se trata de uma tentativa, pura e simples (se é que algo assim pode ser considerado "puro e simples") de se aplicar essas várias críticas ao contexto das CS latino-americanas a fim de concluir, ao final e ao cabo, que tudo é patriarcado cis e etnocêntrico - ainda que críticas nesse sentido tenham um tremendo potencial crítico e devem, certamente, ser incorporadas a discussões e rodas políticas e acadêmicas. A questão aqui, contudo, vai por outro rumo. Penso que críticas nesse sentido encontram limites, justamente, por reforçar categorias epistemicidas, nas quais o colonialismo se baseia. O que se buscará fazer aqui é um trabalho de desconstrução histórica de categorias discursivas utilizadas para basear o racismo e a homofobia científicas a partir das críticas indígenas ao processo de heteronormatização de suas comunidades. Se os feminismos indígenas são, atualmente, um campo bem consolidado no âmbito das reflexões sobre patriarcados e colonialismos no continente, o mesmo não se pode dizer, no entanto, às críticas queer indígena nos países de língua espanhola ou no Brasil. Assim, nossa estratégia de análise será recuperar o percurso de invisibilidade histórica desses coletivos, deixando claro que seu processo de obscurecimento tanto por parte dos Estados Nação quanto dos movimentos indígenas hegemônicos ocorre paralelamente às justificativas para sua sujeição a partir de pressupostos religiosos ou científicos/racionais.
Este trabalho parte da hipótese de que este processo ocorre à margem das indagações de autores e autoras clássicos/as no âmbito das Ciências Sociais e da Filosofia, justamente, por se tratar de um fenômeno exclusivo das/nas Américas.
O racismo e a homofobia surgem lado a lado e se constituem, ao longo do processo de colonização do continente, força motriz nas inúmeras tentativas de normalização dessas comunidades, havendo uma continuidade discursiva entre as justificativas religiosas para dominação, chegando até os discursos científicos de que tais sujeitos seriam um risco ao modelo de nação que se buscaria implementar deste lado do Oceano, pondo em risco o antigo desejo das elites coloniais crioulas de estabelecer, aqui, um espelho das sociedades "europeias". Os modelos românticos de indigeneidade ofereciam, justamente, uma ideologia de que haveria um indígena ideal, oscilando entre guerreiro e bom selvagem, encapsulando as diversas formas de sexualidades dessas nações num ideário burguês, liberal, moderno, cristão e binário. Se, em larga medida, esta lógica foi utilizada para a incorporação compulsória desses sujeitos ao sistema de dominação colonial ou, por outro lado, para seu extermínio, reside em seu núcleo, justamente, as maneiras a partir das quais os colonialismos se constituíram como tais. As justificativas morais e científicas para a dominação iam além de grandes eventos como o julgamento de Valladolid, mas se davam no dia a dia e eram empregadas, localmente, por agentes coloniais muito mais próximos de suas próprias necessidades cotidianas, do que das grandes discussões filosóficas. Desta forma, esta proposta de ponencia busca recuperar esse aspecto da dominação colonial a partir das experiências cotidianas, empíricas e locais - ao meu ver, um dos grandes problemas em se tratando de modelos macro-explicativos tão em voga em certos círculos acadêmicos.