A luta da coletividade pela captação do excedente social se trata de tema central no pensamento de Furtado na década de 1970, cujo debate se aprofundou a partir das questões em torno do “modelo” brasileiro de modernização (via industrialização), fundamental para a tematização da modernização periférica. O objetivo deste trabalho é analisar no que consiste efetivamente para Furtado, nos seus textos da década de 1970 (FURTADO, 1972; 1974; 1976; 1978), os “centros de decisão” do sistema político que incidem sobre as formas de captação do excedente social pela coletividade (e suas classes sociais divergentes). A literatura especializada no debate democrático furtadiano concentra-se nos textos do período 1958-1964, já os textos das décadas de 1970 e 1980 praticamente não participam do debate político sobre este autor. A hipótese aqui apresentada é que a crítica de Furtado sobre a etapa da industrialização no Regime Militar, é uma interpretação profundamente política sobre o sistema econômico, o que talvez permite reposicionar em termos políticos alguns dos conceitos-chave da obra furtadiana do período, como estagnação, “mito do desenvolvimento” e civilização industrial. O “modelo” que se aprofundou com a Ditadura Militar impossibilitou uma parte substancial da coletividade de possuir um padrão de consumo equivalente àqueles que a modernização brasileira tornou disponível para grupos específicos das classes médias e altas no país. Na tese de Furtado, entre as décadas de 1970 e 1980, o capitalismo industrial brasileiro se associou profundamente às empresas transnacionais e ao sistema bancário internacional; as consequências internas para as classes trabalhadoras, em país de profunda desigualdade de renda e de propriedade, foi a miséria e o acesso restrito na luta pelo “excedente social”. As faces da economia política da Ditadura Militar da década de 1970, sob a perspectiva crítica de Furtado, é o que se deseja analisar.
A forma de industrialização das economias subdesenvolvidas, para Furtado, correspondeu diretamente ao lugar que a periferia ocupou na difusão do progresso tecnológico, do processo de acumulação do capital e na assimilação dos padrões de consumo, todos elementos em conexão direta com o capitalismo mundial. O impacto do progresso tecnológico sobre o processo produtivo e sua extensão na modificação dos padrões de consumo dependem fundamentalmente das decisões políticas que incidem sobre a captação do excedente social, e, evidentemente, são condicionadas pelas estruturas sociais de cada sociedade.
Entender a formação dos sistemas econômicos nacionais da periferia foi possível através da proposição de um “modelo”, que caracterizou os países subdesenvolvidos no quadro global de expansão da divisão internacional do trabalho e da difusão da civilização industrial. O subdesenvolvimento em perspectiva histórica, no pensamento cepalino, segundo Ocampo (2008), está integrado ao processo global de expansão do capitalismo em todas as suas fases, desde a colonização até a industrialização. A força das variáveis endógenas e suas relações com o quadro global possibilitou o “modelo” de modernização latino-americana, e, em específico, da modernização brasileira.
A luta da coletividade pela captação do excedente social se trata de tema central no pensamento de Furtado, cujo debate político se aprofundou na primeira metade da década de 1970 a partir das questões em torno do “modelo” brasileiro de modernização. A posição dos grupos sociais na distribuição da renda ligada ao processo de acumulação, e o acesso aos bens de consumo, representam a captação ou não do excedente por cada uma das parcelas da coletividade; o que constituiria a realização de um processo de desenvolvimento, se tratava de uma batalha travada no campo político, e depende de decisão política dos chamados “centros de decisão”, e não resulta do sistema econômico em si.
A Ditadura Militar, pós 1964, aprofunda uma nova fase de expansão da indústria nacional e do mercado interno, e o “milagre brasileiro” de crescimento econômico, entre 1969 e 1973, constituem o que Furtado criticamente estabeleceu como o “modelo” brasileiro. Economista exilado desde 1964, esteve em institutos de pesquisa e universidades no Chile, Estados Unidos e na França durante seus primeiros anos de exílio, e foi neste último país que realizou grande parte do seu trabalho como professor e pesquisador. A condição de exilado, de um economista com trajetória crítica ao regime militar, um democrata e republicano – um republicano “exemplar” na expressão de Oliveira (2003), convicto na defesa do desenvolvimento integral da economia e da sociedade, são condições que reúnem força para uma crítica de Furtado à economia política do Regime Militar (1964-1985). Essa crítica realizada na década de 1970 pelo economista exilado é o objetivo deste trabalho, se propondo a debater os argumentos diagnosticados pelo autor relacionados ao “centro de decisão” e ao poder político que incidia sobre a captação do “excedente social”, e produzia a heterogeneidade estrutural do “modelo” brasileiro dos militares, de profundas desigualdades sociais, econômicas e regionais. É a interdependência entre a economia e política na obra de Furtado um eixo norteador da análise aqui empreendida. Propomos analisar a interpretação de Furtado da seguinte maneira: primeiro analisar a definição de “modelo” brasileiro; segundo aprofundar a análise sobre o que constitui a luta pela captação do “excedente social” e os “centros de decisão”.
Os resultados esperados estão voltados para a apresentação das polarizações entre os grupos políticos e econômicos presentes na obra de Furtado, conflitos estes que determinaram o destino da economia e da sociedade nacional mediante os interesses estabelecidos, além de representaram forças sociais em disputa na sequência ao Golpe Civil-Militar de 1964. Debater os frutos do progresso econômico e o que desejavam para o futuro do país foi o grande imperativo motivador dos embates políticos até 1964. Bielschowsky (2004) afirma que há elementos que dão unidade a um processo histórico de expansão de uma ideologia nacional-desenvolvimentista, cujos grupos compartilhavam em sua maioria do ímpeto industrialista como elemento fundamental ao progresso e à necessidade da intervenção e controle do Estado. Constitui este Estado o “guardião dos interesses coletivos da nação e o promotor da unificação nacional” (BIELSCHOWSKY, 2004, p. 251). A não hegemonia de grupos políticos que tenham interesses voltados para o conjunto da sociedade brasileira fortaleceu a saída autoritária, na qual Furtado sempre combateu. As elites não conseguiram administrar as forças do Estado a partir de pressupostos integradores, de solidariedade, fortalecendo o desenvolvimento autoritário promovido pelo Regime Militar, assim estabelecidos por Furtado como o "modelo" brasileiro.