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Resumen de ponencia
A cobertura do campeonato Waimea 5000 em revistas californianas (1976-1982)

*Rafael Fortes Soares



Entre 1976 e 1982, foram disputadas as sete primeiras edições do circuito profissional de surfe masculino. Criado pela IPS (International Professional Surfers), o circuito contou, desde o ano inicial, com uma etapa realizada no Brasil: o Waimea 5000, na cidade do Rio de Janeiro. Durante tal período, ocorreram seis edições do campeonato (em 1979 não houve etapa no país). Esta comunicação descreve e analisa a cobertura do Waimea 5000 em duas revistas: Surfer e Surfing. Publicadas na Califórnia (EUA), elas circulavam em diversos países e foram centrais no estabelecimento de valores relativos à subcultura do surfe, bem como na posterior manutenção e discussão de tais valores; contribuíram para a disseminação do surfe, inclusive no âmbito competitivo/esportivo.
O objetivo central desta comunicação é discutir que representações foram construídas a respeito dos brasileiros e do Brasil (e/ou do Rio de Janeiro e dos cariocas/fluminenses). A cobertura de eventos esportivos tem se mostrado um caminho propício para trabalhar as representações – verbais e não-verbais – construídas pelas mídias a respeito de diversas questões: identidade nacional, raça/etnia, gênero, classe social, imigração, pessoas com deficiência etc.
As revistas são importantes na cultura do surfe ao redor do mundo, o que as converte em fonte e objeto privilegiado. Boa parte das pesquisas sobre este esporte as usa como fonte (Booth, 2001, 2008; Ford e Brown, 2006; Fortes, 2011; Ormrod, 2007; Scott, 2005; Thompson, 2011). Além disso, elas são um ponto de contato com o universo social mais amplo, pois são lidas por surfistas e não-surfistas.
Naquele período, havia poucas informações e notícias, no exterior, a respeito do surfe no Brasil e dos surfistas brasileiros. A análise leva em consideração que os envolvidos com este esporte (atletas, dirigentes, organizadores, empresários), incluindo aqueles que realizavam a cobertura (em geral, surfistas-jornalistas) tinham poucas referências e contato com o Brasil. Isto se devia a fatores como as diferenças linguísticas – o campo esportivo do surfe estabeleceu-se com mais força, num primeiro momento, em torno de áreas com predomínio de falantes do inglês: Estados Unidos (Havaí, Califórnia e Costa Leste), África do Sul (Província de Natal) e Austrália – e o custo das passagens aéreas internacionais (proporcionalmente superior, à época, do que nos dias atuais). A contextualização histórica também leva em consideração aspectos como: o surto de popularidade do surfe no Brasil e os conflitos com valores estabelecidos; a política externa do governo Geisel; a ascensão da juventude como alvo privilegiado do ponto de vista do consumo. O trabalho integra uma pesquisa cujo objetivo é discutir as representações do Rio de Janeiro e do Brasil em revistas de surfe em língua inglesa.
Um dos aspectos centrais do trabalho é discutir como uma revista de surfe representa as praias cariocas e brasileiras. Segundo Alfonso (2006), a praia é um elemento importante da imagem do Rio e do país no exterior, inclusive com alguns de seus aspectos (como sol, mulheres de biquíni e “exotismo”) tendo sido valorizados nas ferramentas de promoção turística do Brasil realizadas no período pela Empresa Brasileira de Turismo (Embratur). Ademais, a promoção turística foi um instrumento de relações públicas, tendo em vista que o Brasil vivia uma ditadura que cerceava e violava direitos. Sendo assim, busca-se explorar de que forma os estereótipos construídos a respeito do Brasil e do Rio de Janeiro, bem como uma certa projeção imagética divulgada pelo governo federal, podem se fazer presentes em publicações voltadas para a juventude.
Por um lado, é importante notar que o surfe – especialmente a revista Surfer – dialogou de perto com os movimentos contraculturais que floresceram na Califórnia durante os anos 1960 e início dos anos 1970. Neste sentido, pode-se afirmar que as revistas apresentavam pontos de vista que não estavam em conformidade com o status quo vigentes na sociedade daquele país. Por outro, na medida em que havia a já citada escassez de informações e de contatos efetivos e frequentes com o Brasil e surfistas brasileiros, as narrativas construídas pelas publicações necessariamente absorvem elementos da maneira como as grandes empresas de comunicação e entretenimento (inclusive profissionais atuantes em Hollywood, alguns dos quais tinham relações próximas com o universo das praias e do surfe) produzem estereótipos a respeito do Brasil, do Rio de Janeiro e de seus habitantes e surfistas.




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* Fortes Soares
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Unirio. Rio de Janeiro, Brasil