Resumen de ponencia
A sociologia de Florestan Fernandes e as teorias descoloniais: um diálogo possível?
*Maria De Fátima Souza Da Silveira
Esta pesquisa tem como objetivo geral estabelecer possíveis aproximações, afinidades e diálogos entre a sociologia anticolonial do sociólogo brasileiro Florestan Fernandes e o pensamento descolonial latino-americano, discutindo a atualidade de sua contribuição para se pensar as sociedades latino-americanas no presente.
Florestan Fernandes, notadamente reconhecido como fundador da sociologia crítica no Brasil, com mais de 40 livros publicados, e responsável por uma interpretação original acerca da sociedade brasileira, tem permanecido de certa maneira invisibilizado no cenário latino-americano de língua espanhola, e apesar de sua obra ter sido objeto de inúmeros estudos, e lida a partir de diferentes aspectos e abordagens, a grande maioria dessas análises caracterizam-se por seu enfoque no Brasil.
Pouco tem sido analisado acerca de sua contribuição para se pensar as sociedades latino-americanas em termos gerais e para a formação de um pensamento social a partir da América Latina, isto é, para a formação de um pensamento que procura se desvencilhar das armadilhas do eurocentrismo, buscando entender os dilemas históricos vivenciados pelas sociedades latino-americanas a partir de seus contextos histórico-culturais específicos.
No cenário atual de emergência e consolidação de perspectivas epistemológicas descoloniais a partir da América Latina, que criticam a “colonialidade do saber” e reivindicam a descolonização do pensamento social latino-americano, acreditamos que resgatar o pensamento anticolonial de Florestan Fernandes, estabelecendo possíveis diálogos entre a obra desse autor e o pensamento decolonial contemporâneo pode nos oferecer uma rica contribuição para pensar a descolonização do pensamento, da política e da emancipação social na América Latina.
Nesse sentido, as perguntas que conduzem esta pesquisa são: Que contribuições o pensamento de Florestan Fernandes nos oferece para pensar a América Latina hoje? Quais as suas contribuições para a formação de um pensamento social a partir da América Latina? É possível estabelecer diálogos entre a obra deste autor e o pensamento latino americano decolonial? Se sim, que concepção decolonial se apresenta em seu pensamento? Qual o lugar de Florestan Fernandes no pensamento decolonial?
Buscando responder essas questões, foram delimitados três eixos centrais do pensamento de Florestan que acreditamos fundamentais para entender sua interpretação acerca dos dilemas latino-americanos e relação com o pensamento decolonial, a saber: 1) a tese da persistência do colonialismo e da descolonização que não se completou; 2) seus estudos sobre as relações raciais no Brasil, que evidenciam a intersecção entre classe e raça na perpetuação das desigualdades raciais, na dominação e na exploração na América Latina; 3) sua caracterização do tipo específico de capitalismo na América Latina, o dependente, que atuaria através da modernizando o arcaico e da arcaizando o moderno. O pensamento decolonial, em nosso ponto de vista, também estabelece como eixos centrais para a compreensão das realidades latino-americanas a questão da raça como instrumento de dominação e exploração, a colonialidade como elemento estrutural das estruturas de poder do sistema mundo moderno/colonial capitalista e eurocentrado, e uma descolonização irrealizada de forma completa. Por conseguinte, cabe analisar como essas duas perspectivas dialogam e no que uma pode contribuir com a outra.
Além disso, esta pesquisa visa também contribuir para visibilizar a obra de Florestan Fernandes na América Latina.
Por fim, ressaltamos que, ainda que a América Latina esteja presente em todo horizonte teórico de Florestan Fernandes, neste estudo, a análise recairá principalmente sobre suas obras produzidas a partir da década de 1960/70, especialmente
O negro no mundo dos brancos (1972), Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina (1973), A revolução burguesa no Brasil (1975), Poder e contrapoder na América Latina (1981) e o O significado do protesto negro (1989).