Abordamos o estudo da economia política dos espaços da alimentação dos pobres que, nas grandes metrópoles desiguais socioterritorialmente, permanece atual e necessário, visto que há, nessas atividades, uma importante função socioespacial: resistência e abrigo dos pobres na cidade. Campinas, região metropolitana do estado de São Paulo com aproximadamente três milhões de habitantes, segue a tendência de muitas cidades que compõem a rede urbana brasileira, quando evidencia em seu território uma população com baixos salários e altos gastos para a sobrevivência, justificando a procura de pessoas que precisam se alimentar fora de casa, por um comércio popular de alimentos, no qual o preço das refeições é mais barato.
Reconhecida como uma Situação Alimentar Urbana, essa empiria é aqui analisada a partir da teoria dos dois circuitos da economia urbana. Por meio de uma metodologia oriunda em levantamento bibliográfico e reunião de informações primárias, a pesquisa baseia-se em saídas de campo realizadas entre os anos 2013 e 2016. Com aproximadamente trinta entrevistas semiestruturadas, durante a manhã, tarde, noite e madrugada, diversas formas de diálogos foram travadas com os interlocutores, os quais puderam narrar suas trajetórias na urbe, deflagradas a partir do comércio popular de alimentação.
Nas inúmeras incursões, além de quantificarmos e qualificarmos a espessura desse comércio popular de alimentos, pudemos problematizar uma série de conflitos resultantes do projeto urbanístico de “Revitalização da Avenida Francisco Glicério” por meio do qual substituiu compulsoriamente por fixos padrões os estabelecimentos responsáveis pelas vendas de refeições baratas na região. Tal ação, encarecendo os alimentos vendidos, se contrapôs ao Plano Diretor da cidade o qual visa a Segurança Alimentar a partir da manutenção dos baixos preços dos alimentos comercializados na urbe.
A pesquisa busca nos bares e restaurantes populares, bem como nos ambulantes de alimentação, uma reflexão acerca do circuito inferior da economia urbana, que dinamiza nas cidades dos países periféricos uma importante força econômica e alternativa aos mais pobres, que produzem e sobrevivem desse mercado socialmente necessário. Signo de uma cidade desigual, o circuito inferior da economia urbana, é referido às atividades em que os capitais são reduzidos, o nível organizacional não é burocratizado, mas realizado segundo ações face a face e de base normalmente familiar. O mercado socialmente necessário é representativo de uma importante parcela da população trabalhadora que, por meio de solidariedades domésticas e redes de sociabilidade, consegue produzir trabalho e renda como alternativa viável ao mercado hegemônico excludente, constituindo uma economia solidária. Abordagens realizadas nos interstícios do tecido urbano, permitem um olhar sobre o novo uso que se faz nesses espaços. Criado, mantido, dinamizado e transformado pelos mais pobres, o centro da cidade abriga as diversas formas de resistência que essas atividades econômicas traduzem: a luta diária por uma reprodução do trabalho materializada no espaço de uma maneira menos desigual, onde o sentido da produção é aquela da possibilidade de reprodução da vida. Os trabalhos de campo revelam as particularidades do lugar e evidenciam os importantes aconteceres solidários da cidade: redes domésticas e grandes empresas abastecem o comércio popular; ex- trabalhadores assalariados lutam pelo espaço e pela renda movimentando seus carrinhos com rede Wi-Fi gratuita e máquinas de débito e crédito, facilitando a venda na “informalidade” da economia; a cooperação, o improviso e a criatividade imperam nessas trocas comerciais. As incursões no cotidiano dos sujeitos participantes do comércio popular de alimentos tem sido uma forte ferramenta para pensar esses novos espaços de abrigo dos agentes produtores da cidade e, sobretudo, para refletir as diversas formas de sobrevivência dos pobres e excluídos e de luta contra a fome na cidade desigual.