Atualmente, em um cenário de aumento e complexificação dos problemas ambientais decorrentes, em grande medida, do movimento de acumulação de capital e da aceleração do processo de urbanização, a conservação da natureza deixa de ser uma bandeira de luta exclusiva dos movimentos ambientalistas e sociais, para assumir cada vez mais centralidade nas agendas governamentais e nas estratégias empresariais. Esta valorização (mercantil e ideológica) da ecologia tem se mostrado forte na América Latina, particularmente naqueles lugares “ricos” em biodiversidade e sobre os quais recai o peso de importantes ideologias geográficas construídas e reconstruídas ao longo da história. O objetivo deste painel é o de discutir, a partir da ótica do pensamento crítico, algumas das formas pelas quais se produz a natureza conservada no continente, com especial atenção para a Amazônia brasileira e para as zonas florestadas do sul do Chile. Trata-se de um debate que é resultado de um trabalho coletivo entre pesquisadores de universidades do Brasil e do Chile voltados para a análise de estudos comparativos da Amazônia brasileira e da Patagônia chilena. Dentro dessa perspectiva, o Grupo de Estudos Comparativos Amazônia-Patagônia (GECAP) tem o mérito de abordar questões centrais relacionados aos estudos comparativos inter-regionais, mostrando-se capaz de avançar no debate acadêmico sul-americano. Nesse sentido, ressalta-se a importância desse painel que busca mostrar o intercâmbio de experiências entre investigadores que atuam nestas regiões, com o objetivo de formular reflexões críticas que possam ajudar a construir alternativas políticas e socioespaciais. O painel será formado por três apresentações que irão debater os principais resultados de duas pesquisas realizadas na Amazônia oriental e outra nas regiões mais austrais do Chile. O debate aponta para uma perspectiva crítica sobre as dinâmicas atuais de ressignificação de territórios e florestas, o que passa por um processo de mercantilização e financeirização da conservação ambiental e suas expressões no desenvolvimento geográfico desigual. Em “A produção histórica da floresta e o regime político das mudanças climáticas”, Andrei Cornetta discute aspectos ligados aos programas políticos para mudanças climáticas e seus desdobramentos territoriais, particularmente para a floresta amazônica brasileira. A fala faz uma análise sobre a constituição de um “regime político das mudanças climáticas” e as maneiras pelas quais a floresta passa a ser ressignificada (economicamente) enquanto importante sumidouro de gases de efeito estufa. Ainda sobre este aspecto, discutem-se as coexistências e antagonismos nas relações que se estabelecem entre as atividades históricas de comunidades camponesas da Ilha do Marajó, estado do Pará (Brasil) – seus usos econômicos e formas de convivência com a floresta amazônica (especificamente madeira e agroextrativismo) –, e a introdução dos atuais projetos de “desmatamento evitado”. Diante da complexidade na qual se apresenta o atual contexto das mudanças climáticas, a fala se vale de um apoio teórico que se apropria de conceitos fundamentais para geografia contemporânea, como “acumulação por espoliação”, “desenvolvimento geográfico desigual” e “produção da natureza”. Transversalmente, discutem-se questões a respeito de como a floresta amazônica passa a ter novos valores de uso no contexto das mudanças climáticas, e como sua ressignificação passa a representar uma nova face do desenvolvimento geográfico desigual na região. Josoaldo do Lima Rêgo em “Mulheres das florestas: escalas de produção da natureza e territorialidade das quebradeiras de coco babaçu no Maranhão (Brasil)”, apresenta uma fala delineada a partir de uma problematização em torno da mobilização política de família de mulheres quebradeiras de coco babaçu, no Maranhão (Brasil). Situação na qual é possível notar o fortalecimento político e econômico desse grupo social a partir da ênfase em alguns aspectos do discurso ambiental e étnico, assim como características específicas de manejo da floresta. Rêgo busca pensar tal processo levando em consideração condições dadas por aspectos particulares de apropriação da biodiversidade. O enfoque analítico da pesquisa se deu a partir da mobilização política das quebradeiras de coco, com a tentativa de aprofundar e de problematizar questões ligadas à aproximação da produção de babaçu com circuitos da economia global. Trata-se de um movimento que se situa no interior de um movimento contraditório que, por um lado, enfatiza a necessidade de manutenção de regras de uso da biodiversidade, e, por outro, podem ser lidos como articuladores de realidades locais com o mercado econômico global – sob a chancela da comercialização dos produtos ecológicos. Para finalizar, Luis Fernando De Matheus e Silva, no trabalho intitulado “Conservação ambiental e desenvolvimento capitalista contemporâneo no sul do Chile”, discute a transformação da natureza conservada em uma nova estrategia de acumulacão capitalista na zona andino-lacustre da região de Los Ríos, mais precisamente na localidade de Neltume. Na presente ocasião, o investigador coloca ênfase em analisar as principais consequências socioespaciais decorrentes da valorização mercantil e ideológica das paisagens e da natureza que caracterizam a zona cordillerana austral chilena, sinalizando para uma importante mudança na forma dominante pela qual se vem extraindo renda territorial naquele lugar. Nesse sentido, é preciso dizer que desde meados dos anos 1990, o capital vem cada vez mais deixando de lado a exploração pura e simples da madeira nativa (que por mais de um século sustentou o crescimento econômico e imprimiu marca à produção capitalista de toda a região), para se centrar em outras atividades, hoje mais lucrativas, relacionadas sobretudo com a conservação ambiental atrelada ao turismo. Este trabalho é, em realidade, um desdobramento da investigação de pós doutoramento que está sendo realizada junto ao Centro Internacional de Estudios de la Patagonia (Ciepatagonia) do Nucleo de Ciencias Sociales da Universidad de La Frontera (UFRO – Chile), e que conta com bolsa do Fondo Nacional de Desarrollo Cientifico y Tecnologico (FONDECYT – CONICYT), projeto no 3170103.