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Resumen de ponencia
A LÍNGUA POLÍTICA, A POLÍTICA POÉTICA E O AGENCIAMENTO DO SENSÍVEL

*Djalma Thürler



O mote desse "paper", inspirado na entrevista publicada em “Le Monde”, em 29 julho 2017, no texto inédito de Teixeira Coelho “Uma política poética nada fácil de enxergar na política cultural” (2017a) e de outros dois textos meus, “A arte é divina demais pra ser normal” (2017) e “Os direitos humanos e as heterotopias” (2017), pretende enxergar uma espécie de política cultural para as artes, pensada a partir da política da poesia, que seria “um modo ordenado de fazer, de acrescentar intencionalmente algo ao que já existe” ou pensar na arte contemporânea em “sua dimensão poÉtica, (...) em processos híbridos entre arte, política e estética que servem como antídoto contra os aprisionamentos e modelizações da arte burguesa, (...) novas políticas de subjetivação (THÜRLER, 2017a).
Por poÉtica (grafado assim mesmo, com destaque para a letra “É”), pensamos no compromisso ético da arte contemporânea com a sua própria estética, caracterizada por operar através das noções de atitude-prática-desconstrução a potência deflagradora de novos espaços criativos e solidários, o espaço do outro, esquecido pela cultura ocidental e descartado devido ao seu caráter marginal e inconstante – o espaço das heterotopias, "espécies de utopias efetivamente realizadas nas quais os posicionamentos reais, todos os outros posicionamentos reais que se podem encontrar no interior da cultura estão ao mesmo tempo representados, contestados e invertidos, espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, embora eles sejam efetivamente localizáveis. Esses lugares, por serem absolutamente diferentes de todos os posicionamentos que eles refletem e dos quais eles falam, eu os chamarei, em oposição às utopias, de heterotopias" (FOUCAULT, 2009, p.415).

Nas heterotopias, o outro tem voz, língua, a língua que chicoteia o ar, mas sua língua não é apenas instrumento, utensílio ou matéria (Novarina, 2009.), não se dá mais como um veículo através do qual se constrói uma narrativa de conteúdo fabular; a língua política, neste caso, é o próprio conteúdo, o próprio assunto que se problematiza, porque "o mundo é por nós furado, revirado, mudado ao falar. Tudo o que pretende estar aqui como um real aparente pode ser por nós subtraído ao falar. As palavras não vêm mostrar coisas, dar-lhes lugar, agradecer-lhes educadamente por estarem aqui, mas antes parti-las e derrubá-las. “A língua é o chicote do ar”, dizia Alcuíno; ela é também o chicote do mundo que ela designa "(NOVARINA, 2009, p.).
A língua política, pensada assim, que parte, que questiona, que derruba; a língua-soco, a língua-pontapé futurista pode ser percebida na poÉtica do movimento feminismo que reivindicava nas ruas a busca de seus direitos, de seu reconhecimento e de uma visibilidade e respeito que historicamente lhes fora usurpado pela instauração de um ‘projeto de nação’ (MISKOLCI, 2013) estruturado através da modernidade/colonialidade, em que alguns privilégios e hierarquias foram, historicamente naturalizados (GROSFOQUEL, 2012).
Pensar em direitos culturais em sua dimensão poÉtica, é pensar em processos de políticas poéticas, de micro poéticas de subjetivação que tratam das constituições dos sujeitos cambiantes e fragmentados da pós-modernidade. As práticas artísticas contemporâneas, por sua própria natureza de expressão e problemáticas acerca do presente, não poderiam permanecer indiferentes a esse movimento e vem se revelando campos privilegiados para reativar sua potência política de instauração de outros possíveis (ROLNIK, 2007), de adensar as discussões políticas sobre os corpos, afinal,
são muitos os outros com os quais passa a confrontar-se a subjetividade, outros variáveis e desconhecidos, diferentemente da familiaridade de um mundo relativamente estável a que se estava habituado. A mutabilidade da paisagem intensifica-se a tal ponto que torna-se impossível calar o estranhamento que a instabilidade produz no corpo vibrátil. (ROLNIK, Suely, 2002).

Paradoxalmente, em tempos em que os direitos humanos nunca estiveram tão ameaçados pela ignorância religiosa e política, a importância da explosão das subjetividades na contemporaneidade na instauração de outros possíveis (ROLNIK, 2007) que devolve “ao indivíduo o desejo de ser ator, de inventar uma situação em vez de conformar-se a uma situação definida antes dele e fora dele, num processo que o leva a um envolvimento absoluto que não pertence apenas à ordem do social” (COELHO, 2017, p.4), é parte inconteste de uma política de identidades, não uma identidade única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não- resolvidas”, afinal, na contemporaneidade "o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. (...) A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente (HALL, 2006. P.32).
Nas palavras de Teixeira Coelho, em texto inédito, "a identidade não é una, nem um destino (...): sou francês, sou mediterrâneo (...), sou judeu e europeu e sou um cidadão do mundo. Como o mundo hoje é muito pequeno, eu, este que escreve isto agora, começo dizendo que sou primeiro um cidadão do mundo (...) e só depois sou deste lugar e desta religião ou daquela ou de nenhuma. Sou da pátria estrangeira, a minha mesma, esta aqui, esta daqui; um mesmo caos nos gerou a todos e minha identidade é esse caos. A identidade não é monolítica, nem ninguém pode pretender exercer o monopólio da identidade, tão útil para o governante e no entanto tão risível e que torna risíveis, e sempre trágicos, os esforços para instituir políticas e secretarias da identidade e da identidade nacional (COELHO, 2017b).




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* Thürler
Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. Universidade Federal da Bahia - CULT/UFBA. Salvador, Brasil