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Resumen de ponencia
O lugar do sujeito político no Dossiê Terceirização e Desenvolvimento uma conta que não fecha

*Zeonyr Conrado



INTRODUÇÃO
O objetivo central desta pesquisa foi compreender a concepção de sujeito político que se encontra no dossiê Terceirização e Desenvolvimento, elaborado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que apresentam de forma sistematizada os impactos da terceirização sobre os trabalhadores e trabalhadoras no Brasil. Além de analisar os impactos da terceirização sobre os trabalhadores, o Dossiê também apresenta um conjunto de medidas de regulamentação a fim de atenuar os efeitos da terceirização sobre as condições de trabalho e os direitos trabalhistas. Para estudar o documento em questão, buscamos dividir o trabalho em três momentos. Uma seção que parte de uma literatura corrente para realizarmos uma análise sobre o documento, a fim de investigar a noção de sujeito a qual essas autoras buscam refletir; outro seção voltado para a descrição do objeto empírico e os procedimentos metodológicos adotados para esse tipo de reflexão; por último, uma seção dirigida para a análise do dossiê, visando examinar a concepção de sujeito político que orienta a formulação do Dossiê Terceirização e Desenvolvimento.

SUPORTE TEÓRICO E CONCEITUAL
Para a discussão teórica, procuramos discutir quais as concepções de sujeito desenvolvidas por algumas autoras feministas, vinculadas a distintas correntes que nos ajudaram a compreender as relações sociais de gênero e sexualidade, bem como as desigualdades que decorrem dessas estruturas sociais, observando principalmente a dominação masculina e heterossexista. Desse modo, buscamos a princípio, identificar as categorias analíticas centrais mobilizadas pelas autoras para designar as relações desiguais de poder e situar essas discussões no bojo da relação entre a teoria feminista e a teoria marxista para compreender a opressão das mulheres e das LGBT’s na sociedade capitalista, sobretudo para nos propiciar uma reflexão sobre uma época histórica marcada pela globalização e pelo avanço do neoliberalismo.
Ao visitarmos a literatura das Ciências Sociais encontramos autoras que promoveram uma interessante discussão sobre a relação entre marxismo e feminismo, sendo que a noção de sujeito mobilizada por cada uma delas estava no centro do debate. Num primeiro momento, como foi possível observar, as autoras em questão desenvolveram suas explicações centradas nas categorias mulher e patriarcado para estabelecer as bases que servem para designar a opressão feminina.
Em seguida trouxemos as contribuições de autoras filiadas à matriz pós estruturalista, estas, por sua vez, deslocaram a centralidade da noção de sujeito das categorias homem e mulher para a categoria gênero. Esse deslocamento se mostrou bastante pertinente para pensarmos a inclusão das LGBT’s, favorecendo a visibilidade dessas pessoas enquanto sujeitos da luta social.
Adiante, nós trilhamos por uma reflexão acerca do papel do heterossexismo na organização da vida social em sua relação com o modo de produção capitalista. Essa discussão colocou novamente a questão do sujeito como prioridade para entendermos a dinâmica e o papel das opressões patriarcais e heterossexistas nas sociedades capitalistas, retomando elementos que correspondiam às contradições vivenciadas por LGBT’s, que nos levam a pensar na condição dos mesmos enquanto trabalhadores e trabalhadoras. Tais dilemas perpassa diretamente pela relação entre as teorias marxista e feminista, tantas vezes mobilizada nesta pesquisa para subsidiar nossa reflexão.

METODOLOGIA
Essa discussão teórica foi fundamental para a análise de nosso objeto empírico, que no caso refere-se ao Dossiê Terceirização e Desenvolvimento, elaborado pela CUT e estabelecer os procedimentos metodológicos adotados para orientar a execução deste trabalho.
Partimos de uma descrição sobre o alcance da representação sindical em termos de entidades de base filiadas, sua distribuição no território brasileiro e alguns apontamentos relacionados ao histórico e a projeção da entidade no cenário político brasileiro, principalmente no tocante às lutas encampadas pela CUT desde sua fundação, no início da década de 1980.
Em seguida, buscamos delimitar os procedimentos referentes à metodologia. Basicamente, partimos da pesquisa bibliográfica e da análise documental para examinar o dossiê.

ANÁLISE DO DOCUMENTO
Por fim, nos debruçamos, sobre a análise do documento em si. Primeiramente, situamos a terceirização no contexto político e econômico o qual nos encontramos. Fizemos esse exercício para explicitar o cenário político atual e a perspectiva recente que se apresenta para a terceirização e as relações de trabalho no país. A seguir, percorremos o dossiê para descrever a abordagem dada à terceirização, em linhas mais gerais. Por fim, repetimos o percurso analisando o documento e conseguimos perceber que de fato não há referências que busquem denunciar o impacto da precarização das relações de trabalho mediante a terceirização que tocam minimamente na discriminação e marginalização sofridas pelas mulheres e LGBT’s terceirizadas. A noção de sujeito que orienta a formulação do documento parte de uma concepção de trabalhador que é exclusivamente masculina e heterossexual. A pesquisa bibliográfica e a análise documental se mostraram ferramentas metodológicas cruciais para que alcançássemos nossos objetivos de pesquisa. Através dos referenciais e da análise foi possível identificar as consequências das ausências dos recortes de gênero e sexualidade para pensarmos a condição específica vivenciada pelas mulheres e LGBT’s enquanto classe trabalhadora.
Nesse sentido procuramos identificar as potencialidades de um olhar sensível a essas interseções a fim de estimular as organizações progressistas a expandirem sua noção em torno do sujeito político e, assim, ampliar seus horizontes de ação e organização, contribuindo para repensar a constituição do movimento popular, de modo que favoreça a inclusão de demandas relacionadas às vivências de mulheres e LGBT's, aglutinando elementos novos e cruciais em suas formulações. A inclusão dessas questões podem contribuir com o fortalecimento das organizações progressistas e estreitar os laços de diálogo com suas bases sociais de representação e, assim, amplificar as vozes subalternas e acumular força social para alcançarem seus objetivos de transformação da realidade.

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* Conrado
Universidade Federal de Viçosa UFV. Viçosa, Brasil