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Resumen de ponencia
A MORAL NO CANDOMBLÉ: COMO ENTENDER ASPECTOS DE GÊNERO E SEXUALIDADE EM UMA RELIGIÃO COM TRAÇOS COLONIAIS?

*Claudenilson Dias Claudio Dias



Este trabalho pretende analisar como as relações das dissidências sexuais e de gênero se constituem no ambiente de religiosidade de matrizes africanas, aqui entendidos como comunidades tradicionais de terreiro (doravante CTT’s). Situado na cidade de Salvador o propósito principal deste trabalho é perceber, sob a perspectiva de pessoas LGBT que são dirigentes de terreiros como tais relações são vivenciadas. Outro intuito dessa pesquisa é ponderar que as práticas sociais das CTT’s podem estar vinculadas a processos originados nas tradições judaico-cristãs o que ocasiona os processos de moralização das práticas litúrgicas do Candomblé no que se refere a gênero e sexualidade. Nesse sentido, o contexto social deverá ser analisado, uma vez que marcadores sociais importantes como raça e classe poderão estar presentes nas narrativas individuais. Para compor a pesquisa, pretendo entrevistar seis dirigentes de casa de Candomblé reconhecidamente LGBT. Pretendo alinhar a análise com a história de terreiros tradicionais, dentre os quais destaco o Ile Ase Ya Omin Yamase (Terreiro do Gantois), o Ile Ase Ya Nasso Oka (Terreiro da Casa Branca) e o Ile Ase Opo Afonja, reconhecidos pelo forte traço matriarcal e que desenvolveram fortes ligações com as tradições judaico-cristãs. Assim, o que buscarei entender em linhas gerais são as percepções de cada dirigente LGBT em relação às suas práticas litúrgicas. Afinal, como são as relações sociais estabelecidas entre as religiões de matrizes africanas e as tradições judaico-cristãs na cidade de Salvador, lugar de extrema referência ao sincretismo e suas reverberações no que se refere aos processos de subjetivação e sociabilidade das dissidências sexuais e de gênero?
As CCT’s são ambientes de sociabilidade nos quais a interação entre pessoas independe de suas orientações sexuais e/ou identidades de gênero. Desse modo, são locais passíveis de relações de poder e opressão, sobretudo, no que se refere a corpos tornados abjetos pelas heteronormas sociais. A proposta é pensar de que modos alguns aspectos simbólico-culturais vão se organizando e tornando as práticas litúrgicas aliadas a um projeto de pertencimento a vários traços coloniais que ordenam as vivências religiosas. Dessa maneira, será importante perceber as posições desses dirigentes de terreiro no que se refere a tais traços presentes na religião de matriz africana. Denota-se, portanto, que os argumentos da antropóloga Ruth Landes (2002 [1967]) estão sendo replicados, haja vista que esses, ao depreciar as homossexualidades, contribuiu à época, em boa medida, para as posturas de cerceamento direcionadas às pessoas LGBT em tempos atuais. Dentro das CCT’s, no campo das homossexualidades, existe uma política de aceitação desde que o adepto homossexual se mantenha numa linha coerente de práticas
heteronormativas. Isso se deve, em alguma medida, ao modo como os homossexuais e as lésbicas foram socializados nos espaços de CTT’s. Críticas aos escritos da etnóloga Ruth Landes se fazem necessários compreendendo que o modus operandi utilizado para retratar as homossexualidades como desviantes e marginalmente foram seguidos à risca nas casas tradicionais do Candomblés de Salvador.
O antropólogo Milton Silva dos Santos (2007) abordou a presença de homens homossexuais nas CTT’s chegando à conclusão de que pelo fato dessas expressões religiosas serem menos discriminatórias para com as homossexualidades a busca (e o acesso) é uma possibilidade de vivenciar a religiosidade. Dentre os aportes teóricos que contribuem para compreender o acesso de homossexuais no Candomblé estimo considerar Peter Fry (1982); Patrícia Birman (1995); Maria Lina Leão Teixeira (2004); dentre outras obras.
Como sugeri na dissertação, na qual tratei sobre as relações estabelecidas entre pessoas trans* e suas CTT’s, o Candomblé possui um olhar enviesado sobre a presença desta população. O que observo é uma “pequena presença de pessoas trans* nos cultos públicos das
casas de Candomblé o que reflete o projeto silencioso e bem orquestrado de apagamento dessas identidades” (DIAS, 2017). Para a socióloga Berenice (BENTO, 2008. p. 16), a medicina e as ciências psi (psicologia, psiquiatria e psicanálise) colaboraram para produção e
manutenção de discursos patologizantes sobre as identidades trans*, e isso se reflete também nas religiões através dos discursos normativos sobre quais corpos podem exercer funções sociais e ocupar postos hierárquicos nas religiões de matriz africana.
Entendo, portanto, que a hipótese levantada diz respeito ao modo como esses dirigentes foram socializados em práticas litúrgicas arraigadas na tradição judaico-cristã mesmo tendo como cerne religioso a matriz afro religiosa. Desse modo, porque traços da cultura judaico-cristã moldam as experiências vividas nas CTT’s promovendo praticas moralistas no que tange as dissidências sexuais e de gênero?
Penso que o tema seja importante para entender como dirigentes de CTT’s, LGBT’s se organizam em suas comunidades para promover suas práticas religiosas, bem como suas relações no em torno de seus terreiros. Esses dirigentes buscam a partir do não lugar a eles
conferido, implicações políticas e de (re)existência, o que sugere uma reflexão sobre o seu local de fala ser quase sempre o da subalternidade. Desse modo, este trabalho de pesquisa será importante tanto para minha trajetória acadêmica, uma vez que me aponta um novo horizonte
reflexivo que contribuirá para a inclusão de pessoas LGBT’s nos espaços que orientam as práticas nos terreiros, bem como ampliará a visibilização social delas para que tais espaços não sejam meras representações do sagrado, mas um lugar de pertencimento.




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* Claudio Dias
Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. Universidade Federal da Bahia - CULT/UFBA. Salvador, Brasil