Este artigo pretende analisar a condição estigmatizada da mulher idosa, segundo a concepção de estigma desenvolvida por Erving Goffman (1963), e contextualizar como esse estigma se manifesta na realidade contemporânea brasileira, em relação ao envelhecimento da mulher. Na antiguidade e na Era Cristã as “diferenças” entre os indivíduos, acerca de sua origem, posição social ou condição física eram marcadas por sinais corporais realizadas por cortes ou queimaduras que “marcavam” publicamente o indivíduo no meio social. Na modernidade, aquele que é “diferente” em razão de aspectos físicos, biológicos, sociológicos, ideológicos, dentre outros também é “marcado”, não mais por sinais físicos, mas sim sociológicos, com profundas marcas psíquicas e emocionais que podem comprometer a identidade social do indivíduo “diferente”.
Ensina-nos Goffman que o “diferente” é todo aquele que não preenche as exigências preconizadas pelos modelos socialmente estabelecidos do que é “normal”, além de não corresponderem às expectativas referentes aos valores sociais comuns às categorias de pessoas inseridas em determinados ambientes sociais. Este padrão de normalidade varia de acordo com a sociedade e o momento histórico; consequentemente, o que em uma determinada época é considerado estigma, em outra pode mudar, e o que é profundamente estigmatizado em uma sociedade ou grupo social, em outra pode ser considerado “normal”. Nossa hipótese é que os modelos e valores sociais atualmente padronizados, em que o culto a juventude e ao corpo perfeito são ressaltados, tornam o envelhecimento um estigma, principalmente para mulheres que são, segundo as exigências impostas pela “identidade virtual”, “proibidas” de envelhecer.
O conflito gerado com a identidade social real já construída leva a mulher idosa a incorporar o estigma, provocando a perda de oportunidades, rupturas e invisibilidade social: o envelhecer pode tornar-se um sofrimento físico, psíquico e também um fator de diferenciação social. Estigmatizada, a mulher que vivencia essa etapa da vida se sujeita à desconstrução da sua identidade social real, em face da identidade virtual deteriorada imposta pela sociedade, que a obriga a buscar formas de normificação do estigma que sofre.
Em todos os seus tipos e caracterizações, o estigma sempre foi um fator limitante para os estigmatizados nas sociedades, que estabelecem diversos padrões sociais, causando efeitos sobre o estigmatizado como o preconceito e a exclusão. Ele possui a propriedade sociológica de isolar os estigmatizados do convívio normal e cotidiano na sociedade, pois o estigma é valorizado e o reconhecimento de outras particularidades destes indivíduos é suprimido em detrimento dele. Uma das respostas comportamentais do estigmatizado é a “normificação”, que consiste no dizer de Goffman, no esforço do estigmatizado para se livrar do estigma e se parecer mais com um “normal”.
Na sociedade brasileira, na qual o culto à juventude e ao corpo perfeito é ressaltado, a velhice se torna um forte estigma, principalmente para mulheres, que são praticamente proibidas de envelhecer, o que as fazem querer “normificar” este estigma para prolongar a juventude utilizando intervenções cirúrgicas, procedimentos estéticos e cosméticos para atenuar as marcas do envelhecimento, visto que a velhice denota um estado corporal cruelmente considerado vergonhoso em nossa sociedade.
Outra consequência do estigma sobre o envelhecimento da mulher é a perda da visibilidade social, se antes ela era ativa e participante na vida social, ao envelhecer tende a se tornar mais reclusa, mais introspectiva porque é assim que a sociedade deseja e espera que os idosos se comportem. Dessa forma, a velhice é um estigma que torna a mulher estigmatizada “desacreditada”, pois não há como negar o distanciamento do padrão de beleza e da identidade social virtual nesta fase avançada da vida, o que leva a mulher a interiorizar o estigma da velhice em si.
E são estes os pontos que gostaríamos de discutir no presente trabalho, na expectativa de que o aumento do número de mulheres idosas com uma maior independência, segurança e liberdade feminina possa contribuir para que o estigma da velhice feminina possa ser mais discutido, contestado e diminuído.