No Brasil existem cerca de 46 milhões de pessoas com deficiência, cerca de 23,9% da população total brasileira. Essas pessoas declararam ter ao menos um tipo de deficiência, ou seja, apresentam capacidades limitadas em alguma das principais áreas sensoriais que caracterizam-nas como seres humanos.
Atentamente a esta definição, será que uma pessoa com deficiência não se apresenta 100% humana? Questionamentos levianos como esse pairam no senso comum da população ocasionando exclusão, preconceito e indignação.
Infelizmente, o pensamento coletivo atinge os gestores, precarizando as políticas públicas quase inexistentes em nosso país para esta camada da sociedade, e todo o direito a saúde, educação, assistência, moradia, trabalho, lazer, alimentação, tal como está descrito na Constituição de 1988, não é efetivado, fica a cargo das instituições do terceiro setor.
Dignamente, as ONGS, OSCIPS e Organizações Sociais trabalham pela garantia de direitos dentro de um orçamento justo e muito injusto, captando recursos junto aos próprios cidadãos, já contribuintes, alternando seu valioso turno de trabalho para se dedicar a um evento, ou festa ou qualquer forma de arrecadação. Sim, somos excluídos da sociedade e do poder público.
Diante deste cenário, o Instituto Lucas Amoroso, atuante na cidade de Guaratinguetá há 11 anos, preconiza a busca da garantia de direitos, para a qualidade de vida e autonomia das pessoas com deficiência e seus familiares. O trabalho ganha nova performance quando nega o assistencialismo e a cura pela reabilitação contínua e infinita, e almeja o protagonismo do sujeito, sua família e sua comunidade, como pertencentes ao sistema político, econômico e social, pertencentes à cidade com seus direitos na mão.
O trabalho realizado atualmente no ILA (Instituto Lucas Amoroso) difere e incomoda os gestores e instituições com modelos convencidos do insucesso há anos, mas incapazes de arriscar a troca do poder e do saber.
O diferencial está na troca, na valorização do conhecimento família e técnico, nas valiosas experiências de vida e nas relações comunitárias que apoiam-se e agrupam-se para o bem maior.
A intervenção é grupal, onde o técnico é o condutor, aquele que traz seu conhecimento para aprimorar individualmente de acordo com as demandas, disposto a multiplicar o seu saber. A família participante do processo, aprende a técnica que naquele momento foi aprimorada para aquele sujeito, e agora é capaz de executar 7 dias por semana, e mais, multiplicar para os outros cuidadores daquele sujeito, organizando uma vida dinâmica de rotinas diárias e reabilitação.
A visita domiciliar tem por objetivo identificar o stress do cuidador e procurar alternativas para aliviar a sobrecarga, através do diagnóstico comunitário e o levantamento de potenciais colaboradores, do sistema público e da vizinhança.
A família é vista como ator social disposta a absorver conhecimentos e oportunidades, que são oferecidas nas diversas oficinas de convivência, para troca de experiências com apoio psicológico, para aprendizado de novos produtos (culinários e artesanais) que possam contribuir na renda familiar e nos passeios para o fortalecimento dos vínculos familiares.
A busca pelo protagonismo familiar e comunitário ocorre no incentivo a participação das reuniões de conselho municipal, audiências públicas, fóruns e sessões na câmara dos vereadores. O papel do serviço social é conduzir os sujeitos para o conhecimento e a partir disso lançá-los na busca da garantia de direitos, não há mais a figura realizadora de procedimentos (transporte, saúde, assistência etc) e preenchedora de papéis.
A instituição também é protagonista na sociedade, e deve ser responsável pela multiplicação do conhecimento. Para tanto realiza grupo de estudos entre os profissionais técnicos da instituição e a rede socioassistencial e de saúde, e oferece cursos para a comunidade em geral no intuito de capacitar, trocar e produzir conhecimento técnico e científico.
A participação social é o resultado final, com sujeitos informados na porta dos gabinetes, das delegacias de ensino e nos postos de saúde lutando pelos seus direitos, lutando pela inclusão das pessoas com deficiência.