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Resumen de ponencia
LUGAR E INFORMAÇÃO ASCENDENTE NA METRÓPOLE DO TERCEIRO MUNDO: A CENA PERIFÉRICA DO RECIFE-PE (BRASIL)

*Alves Cristiano Nunes



Com uma história baseada na desigualdade socioterritorial e na diversidade cultural, traços das metrópoles do terceiro mundo, o Recife, capital do estado de Pernambuco (Brasil), abriga, desde meados dos anos 1980, vigorosas espessuras de fixos e fluxos geográficos componentes de uma manifestação musical dinamizada, sobretudo, por sujeitos periféricos, fortemente influenciados por ideias anarquistas.
Em nosso estudo, analisamos o modo como essa movimentação artística se aprofunda no mundo vivido da metrópole, um tecido espacial rico em comunicação: a informação ascendente, pois irrompendo dos lugares e de seus sujeitos, fundada no diverso e no maleável.
Operacionalizamos assim, a noção de “Cena”, intimamente ligada à ideia de dinamismo, referindo-se à espessura que uma manifestação artística adquire num dado lugar. Com a Cena, almejamos discutir a centralidade dos contatos, articulações, elos cooperativos e toda sorte de situação de encontros e transmissão de informação ascendente no espaço banal, o lugar de todos os agentes.
Denominando como “Cena Periférica”, a empiria recifense, inquieta-nos os modos de ação dos sujeitos na metrópole do terceiro mundo, marcada pelo improviso, pela cooperação e pela criatividade, imposições da sobreviência em um ambiente construido, pautado na precariedade e no imbricamento entre distintas classes sociais.
Baseamos nossa metodologia de trabalho no levantamento bibliográfico e documental, e na reunião de informações primárias a partir de cerca de 50 visitas técnicas e 90 entrevistas semiestruturadas realizadas junto a sujeitos envolvidos com a temática. Entrevistamos músicos, produtores musicais, comerciantes de discos, comerciantes de instrumentos musicais, técnicos de som, técnicos de palco, divulgadores, radialistas, aficionados sonoros, agentes de escolas de samba, agentes de nações de maracatu, duplicadores de mídias, jornalistas, pesquisadores e professores ligados à temática da música e da urbanização no Recife, produtores de bandas, produtores de eventos musicais e festivais, proprietários de casas de show, luthiers, DJs, agitadores culturais, agentes do poder público ligados à música e à cultura, entre outros. Igualmente realizamos visitas técnicas a estúdios fonográficos, casa de shows, órgãos públicos de música e cultura, lojas de discos, lojas de instrumentos musicais, eventos musicais e festivais, pontos de encontro de aficionados sonoros, emissoras de rádio, entre outros.
Segndo nossa investigação, a dinâmica da Cena demonstra a justaposição entre a metrópole (suas formas-conteúdo) e o seu componente artístico e político, expressando basicamente os anseios periféricos, engendrando apreciáveis espessuras de objetos e ações. Daí nossos interlocutores, afirmarem que o maior impulso para a Cena teria sido: i) o desejo de compartilhar o conhecimento; II) a urgência em mudar o lugar onde se vive.
Igualmente sobre a associação entre arte e política, observa-se, entre outros, que o adensamento das práticas espaciais em torno da Cena, acompanhou-se pela diminuição dos índices de criminalidade, algo ocorrido em bairros como Peixinhos e Alto José do Pinho, dois dos principais lugares dessa movimentação.
Mesmo abrigados numa situação socioterritorial desfavorável (mas também por conta isso), os sujeitos da Cena Periférica fazem perdurar consideráveis espessuras de informação ascendente por toda a aglomeração recifense, malgrado as desconexões e desencontros entre as gerações de aficionados sonoros, na capital pernambucana.
A esse termo, o inventário da Cena Recifense demonstra que, dos lugares suburbanos da metrópole, emergiu uma movimentação artística contestatória, constituída por considerável espessura de variáveis geográficas na Região do Recife e fora dela, numa articulação que compreende, além de Pernambuco, 14 unidades da federação brasileira.
Por meio do inventário da Cena, observa-se ainda, que no período entre 1985-2005: i) atuaram 96 bandas; ii) circularam 28 informativos impressos (os chamados fanzines); iii) predominaram 10 lugares de encontro; iv) instalaram-se 12 estúdios fonográficos; v) foram utilizados 60 locais para eventos musicais, em sua larga maioria, locais públicos.
Difundida a partir da cidade pseudourbanizada, um mosaico de espaços nos quais as possibilidades da globalização apenas canhestramente se efetivam, projeta-se por meio da Cena Periférica, a melhor expressão artística do que é a polis do Recife. Ora, trata-se de uma movimentação congregando os mais diferentes sujeitos, imersos em uma dinâmica na qual uma pessoa executa as mais variadas funções, sendo difícil defini-la apenas pela função por meio da qual ela se tornou conhecida ou exerce predominantemente. Em geral um trabalhador cultural transita pelas mais diversas áreas de atuação, desde o design gráfico, as artes plásticas, produção artística, áudio, entre outros.
Destacam-se como sujeitos centrais dessa Cena: os agitadores culturais Carlos Francisco e Lael (Pacheco); bandas como o Câmbio Negro HC (Boa Vista), a Devotos (Alto José do Pinho) ou o Cefaleia Titânica (Peixinhos); além da ação de instituições como o Movimento Cultural Boca do Lixo (Peixinhos).
Por sua vez, no concernente à reflexão sobre a informação ascendente, avulta no inventário da Cena, a circulação dos fanzines, informativos confeccionados artesanalmente, ora distribuídos gratuitamente, ora vendidos a preços simbólicos, sem periodicidade, nem tiragem definidas. Por meio desses veículos alternativos à grande mídia, erigiu-se uma rede comunicacional, amparada em ações cooperativas, registrando a cena periférica; espraiando um discurso extremamente crítico em relação a desigualdade socioterritorial recifense, repudiando a ação alienante da indústria cultural. Destaca-se como o mais longevo desses meios de informação ascendente, o Zine Recifezes, que em seu auge, chegou a articular colaboradores de sete estados brasileiros, além de Pernambuco.
A empiria nos mostra assim, uma Cena amplamente amparada em ações enredadas por saberes, substanciados nas experiências lugarizadas, esculpindo no tecido de vida, que é o cotidiano, insurgências frente a desigualdade socioterritorial. Nessa espécie de resíduo, em relação aos ditames dos mais diversos agentes hegemônicos, utilizadores da urbe como recurso, ter-se-ia o elemento de sustentação das espessuras comunicacionais, vanguardistas, portadoras do novo, ascendentes, já que invariavelmente assentadas nos lugares.
Para além da esfera econômica e político-partidária se movimenta Cena Periférica do Recife, contraditoriamente a sua fraqueza e maior virtude. Trata-se sim de uma ação política, mas a partir da experimentação estética imersa na dimensão da vida cotidiana. Com a Cena, o território usado, por meio de seus lugares e de sua gente, emite o seu som, o seu ruído contra a metrópole corporativa, a sua voz, terceiro-mundista, em descompasso com as imposições da racionalidade modernizante, criadora de desigualdades.




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* Cristiano Nunes
Universidade Estadual do Maranhão UEMA. São Luís, Brasil