O presente resumo decorre de um projeto de conclusão de curso, em Ciências Sociais, vinculado à Universidade Federal Rural de Pernambuco. A investigação visa depreender de que maneira se relacionam o direito à moradia e à violência de gênero, partindo-se da hipótese de que o direito à moradia, reconhecido como um dos direitos humanos universais, deve ser, também, um instrumento para o efetivo alcance da autonomia feminina e para a diminuição da violência e das desigualdades de gênero. Ao falarmos sobre a violência de gênero, referimo-nos às ações violentas, físicas, sexuais, psicológicas e/ou morais que atingem as mulheres, nas esferas pública ou privada, e derivam de relações assimétricas de poder. O cerne desta investigação transita entre a violência de gênero e o espaço público, partindo do pressuposto de que as relações de gênero territorializam-se, estão expressas no sistema urbano e são limitantes no tocante ao uso do espaço público e ao seu acesso, pelas mulheres. Dessa forma, a cidade é um espaço não neutro, que expressa, nas desigualdades sócio-espaciais, relações de poder entre os sexos. Os dados do estudo Visível e Invisível - A vitimização de mulheres no Brasil, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo DataFolha, no ano de 2016, apontam que os locais mais comuns onde as mulheres sofreram violência ou agressão no último ano foram a própria residência (43%) e a rua (39%). Esses dados apontam como a violência está diariamente presente no cotidiano das mulheres; revelam a fragilidade de seus direitos e evidenciam a urgência da discussão das políticas públicas, do planejamento e da gestão do território a partir dos devidos recortes interseccionais. No caso desta investigação, o território escolhido foi o Bairro de Passarinho, que possui mais de 20 mil habitantes e sofre com muitos problemas estruturais, referentes ao acesso aos bens e serviços essenciais, tais como saneamento básico, educação, transporte, segurança pública e saúde. O recorte territorial escolhido para a realização desta pesquisa é o Conjunto Residencial Governador Miguel Arraes, construído através do projeto intitulado Programa de Saneamento Integrado da Bacia do Beberibe, PAC Beberibe, realizado pela Prefeitura do Recife, por intermédio da Secretaria de Saneamento, com investimento do Governo Federal, cujo orçamento previsto foi de R$160.707.739,65. Este estudo, portanto, toma como base a complexidade que envolve os conceitos de violência de gênero e de direito à moradia, a fim de identificar se, e de que maneira, a garantia do direito à moradia pode ser considerada um instrumento efetivo na diminuição da violência de gênero. (BANDEIRA, 2014; LEFEBVRE, 2008). A coleta e a análise dos dados desenvolveram-se por meio de eixos transversais, tais com: estudos de gênero e políticas de habitação de interesse social, direito à moradia e violência de gênero e direito à cidade para as mulheres. A pesquisa de campo, apresentada nesta pesquisa, propõe uma integração dos dados obtidos através do levantamento bibliográfico e documental, das entrevistas e da observação participante. Tal pesquisa conta com uma amostra não probabilística, intencionalmente constituída por 10 (dez) mulheres moradoras do Conjunto Residencial Miguel Arraes, localizado no Bairro de Passarinho. A investigação busca explorar o espectro de representações feitas por mulheres sobre de que maneira o direito à moradia se apresenta como um instrumento efetivo na diminuição da violência contra a mulher. Objetiva-se, com isso, trazer ao debate realidades empíricas diversas, mediante a pluralidade de vivências e interpretações dos sujeitos da pesquisa. Com o intuito de alcançar os objetivos propostos e de buscar a confiabilidade dos achados através da triangulação de dados e de resultados, foram inicialmente selecionados, como instrumentos metodológicos mais apropriados para o desenvolvimento da presente investigação, a entrevista, a observação participante e a análise documental e bibliográfica. A busca por construir reflexões mais aprofundadas acerca da complexidade que envolve esse tema aponta para a potencialidade, deste estudo, de contribuir com o aporte científico necessário à construção de políticas públicas mitigadoras do hiato sócio-espacial existente entre os sexos.