Esse texto apresenta reflexões oriundas da pesquisa A (in)visibilidade negra e indígena na Universidade Federal de Sergipe, em específico sobre os processos constituintes da (in)visibilidade dos saberes relativos à história e cultura afro-brasileira e indígena no Ensino Superior. A pesquisa foi realizada a partir de análise documental e se situa como um Estudo de Caso de abordagem qualitativa. Justifica-se pelo fato de que as relações étnico-raciais, apesar da indiscutível necessidade de inserção nos currículos de graduação e pós-graduação, com vistas à desconstrução de preconceitos e do racismo presente em nossa sociedade, são pouco abordadas e estão praticamente ausentes se pensarmos esses temas como campo de conhecimento que implica estudos e discussões para ser consolidado. O silêncio sobre a história e cultura afro-brasileira e indígena no ensino superior revela a perversidade da negação de sua existência que tem se propagado ao longo da história brasileira. Para compreender porque esses campos de conhecimento e esses grupos sociais não figuram na centralidade das discussões político-educacionais e sociais, é necessário que pensemos a composição social da sociedade brasileira à luz de paradigmas unificadores e homogeneizadores que se sobrepuseram como forma de conceber e interpretar a realidade social e cultural. Um paradigma colonizador, cuja perspectiva central é constituída pelo olhar do superior ao supostamente inferior, do civilizado para o supostamente não civilizado, do branco europeu superior para o negro e o indígena inferiores. Paradigma que se assenta na colonialidade do saber e se efetiva como colonialidade do poder e do ser (WALSH, 2009). Por isso, entendemos que pesquisas, discussões e reflexões sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena no Ensino Superior precisam acontecer para além de cursos de formação de professores, perpassando todos os cursos e a própria instituição em sua estrutura e organização. Com esse texto, espera-se contribuir para pensar a desconstrução de práticas racistas e preconceituosas existentes em nossa sociedade que, apesar das ações afirmativas constituídas nos últimos anos, continuam ocupando espaço na academia e reafirmando a exclusão social de grupos humanos que tem direito à memória e à história. Desconstrução que implica questionar a própria organização e conteúdo do Ensino Superior a partir de uma epistemologia centrada apenas na filosofia ocidental, cujos valores reafirmam a exclusão de conhecimentos que se distanciam de uma lógica epistêmica eurocêntrica colonizadora. Na perspectiva de Mignolo (2015, p. 10), “La ‘descolonización’ ya no se entende em relación a la ‘toma del estado’ sino a uma tarea más radical: la de desmontar todo el sistema de conocimiento que sostiene y justifica el Estado moderno y moderno/colonial asociado com la colonialidad económica y com el control de las subjetividades”. Ainda conforme Mignolo (2015), a tarefa de descolonizar o conhecimento é um enfrentamento que não se efetiva no âmbito militar, mas sim no campo epistêmico. Enfrentamento radical e intersticial, principalmente nas discussões que envolvem políticas afirmativas nas universidades brasileiras e currículos de formação de professores em cursos de licenciatura. Os embates travados no interior dos colegiados nem sempre são visíveis, mas os resultados expressos em legislações específicas que norteiam as práticas curriculares de formação, sinalizam para algumas conquistas no campo das políticas afirmativas, mas também revelam os silêncios que ecoam na ausência de conhecimentos de base epistêmica intercultural e até mesmo dos sujeitos negros e indígenas na Educação Superior. Ausência que tem sido questionada pelos diversos movimentos sociais em permanente luta pelo direito à educação. Para concluir, apontamos para o fato de que na UFS o Programa de Avaliação de Ações Afirmativas está bastante desmobilizado e as discussões sobre a Educação das Relações Étnico-Raciais se restringem a ações isoladas de grupos de professores que pesquisam ou militam em movimentos sociais. Assim, permanece em aberto a discussão e fica explícita a necessidade de avançarmos no debate sobre a Educação das Relações Étnico-Raciais no Ensino Superior.