A importância histórica de uma concepção de mundo pode ser avaliada tanto por seu conteúdo, quanto pelas possibilidades de análise que ela apresenta a partir de suas formulações conceituais e metodológicas. A leitura dos escritos de Antonio Gramsci nos tem motivado tanto a explicitar e aprofundar o conteúdo dos seus escritos quanto em retomar as sendas por ele abertas para entender a nossa realidade. As contradições que permeiam a estrutura social em determinada época histórica nos servem para questionar o conjunto de relações sociais, políticas e culturais que constituem nossas circunstâncias históricas, naquilo que conservam e naquilo que renovam do passado, cujos rastros encontramos no presente.
Este artigo pretende apresentar algumas observações sobre os possíveis objetivos de Gramsci ao refletir sobre as revoluções de seu tempo, assim como sobre os movimentos reacionários que se criaram e fortaleceram no embate com as forças que emergiam do movimento operário. Na realidade brasileira deste início do século XXI, quando os meios de comunicação de massa tomaram proporções inusitadas na formação de um modo único de pensar e na reprodução das estruturas mais conservadoras e mesmo oligárquicas que entravam nosso desenvolvimento, quando o obscurantismo religioso se propõe discriminar e mesmo destruir as sofridas conquistas dos povos oprimidos, entre eles as mulheres, os negros, os índios, retomar o contexto histórico de reflexão de Antonio Gramsci nos parece urgente e fundamental.
Iniciamos com o parágrafo 2 do Caderno 10, no qual Gramsci, no contexto da crítica ao pensamento de Croce, afirma que a “identidade entre história e filosofia é imanente ao materialismo histórico”, o que significa acentuar também a identidade entre história e política, visto que, conforme a Tese de Marx contra Feuerbach, se a filosofia até agora apenas interpretou o mundo, a partir do materialismo histórico se propõe transformá-lo. Ou seja, o conceito de história de Croce não vai até as últimas consequências, que é afirmar que “todo político é um historiador (não apenas no sentido de que faz história, mas no sentido que, agindo no presente, reinterpreta o passado)” e que “todo historiador é um político”, concluindo que “a história é sempre história contemporânea, isto é, política” (GRAMSCI, 1978, p. 1241-2). Esta afirmação é rica em possibilidades de leitura do próprio texto de Gramsci e de suas implicações para o nosso tempo.
A partir desta perspectiva, podemos dizer que a leitura da Revolução Francesa e seus desdobramentos poderia estar servindo como base de explicitação da correlação de forças e dos embates da Revolução de Outubro de 1917? Como explicitar as noções de guerra de posição e guerra de movimento no contexto de uma revolução? E guerra de posição poderia ser um mecanismo de revolução passiva, assim como o transformismo? Como se efetivam as relações de hegemonia nas formas modernas de corporativismo, de modo a entravar um processo de organização revolucionária dos movimentos sociais? Este são alguns temas que pretendemos abordar aqui, de modo introdutório por se tratar de um artigo.
A primeira parte tem o objetivo de delimitar o significado dos conceitos acima relacionados, contextualizando-os na análise gramsciana da história italiana e europeia. Para nós os Cadernos do Cárcere se apresentam como uma riquíssima reflexão sobre os desdobramentos das revoluções operárias do início do século XX e sobre as novas dimensões da luta de classes que se abrem a partir delas gerando novos limites e novas possibilidades de luta, na crítica ao reformismo e ao modo como a ideologia, na formação de uma concepção de mundo, amplia as formas de dominação.
A segunda parte faz algumas relações a fim de mostrar a atualidade da leitura gramsciana na perspectiva por ele próprio colocada de que toda história é história contemporânea. A partir desta perspectiva, se aborda a atual política neoliberal que se instaurou na América Latina.