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Resumen de ponencia
CRÍTICA FEMINISTA PÓS-COLONIAL E EDUCAÇÃO POPULAR: CONTRIBUIÇÕES À DESCOLONIZAÇÃO DE “MULHERES” E “HOMENS” DO SUL

*Ana Célia De Sousa Santos



As relações de gênero e, especificamente, a condição de desumanidade e violência com que vem sendo tratada as mulheres em todo o mundo, tem sido um desafio para os Estudos Feministas, seja qual for o modo de olhar essas relações. De alguma forma, temos sempre um jeito de ver, definir e categorizar o que produzimos tanto em teoria quanto na prática. Estes estudos têm feito reflexões sobre como nos tornamos “mulheres” e “homens” e sobre a forma como incorporamos diferentes olhares em nossos corpos, mentes e afetos. Questionam, ainda, os conhecimentos nortecêntricos que dominaram/dominam a Ciência moderna e pós-moderna até os dias atuais. Assim, a crítica feminista pós-colonial à produção do conhecimento eurocentrada pode contribuir para a construção de um conceito ampliado e não-sexista de educação. Nesse caso, a prática da Educação Popular poderá trazer contribuições significativas para a compreensão desse campo de estudo e investigação. Com o entendimento de que é necessário promover a justiça cognitiva, defendemos uma epistemologia que valoriza os conhecimentos e as práticas de libertação oriundos dos movimentos sociais populares e da educação popular, não só como adepta aos seus aportes teóricos/políticos/metodológicos, mas sobretudo por ter sido formada num processo de idas e vindas na Educação Popular, feita e organizada pelas classes populares desde a década de 80, no Nordeste brasileiro, através da militância comunitária, pastoral e partidária. Neste texto, refletiremos como a crítica feminista pós-colonial e a educação popular podem contribuir para nos tornamos “mulheres” e “homens” descolonizados/as. Nessa perspectiva, perguntamos: como a Educação Popular, como prática política, como fundamento teórico e metodológico, situadada na crítica feminista pós-colonial, pode contribuir para desconstruir e refazer os aparelhos de conhecimento e de poder que dominam o mundo, contribuindo para nos tornamos mulheres e homens descolonizados/as? Resultado de pesquisa bibliográfica, este estudo teve como apostes teóricos Santos (1989, 2008, 2009, 2010, 2017), Quijano (2009), Lugones (2014), Cunha (2011, 2014, 2017), Oyèwúme (2000, 2004), Azevedo (2010), Freire (1979, 1997, 1999, 2000, 2005), dentre outros/as. Fundamenta-se nas Teorias Feministas Pós-coloniais e Descoloniais, nas quais denuncia o modo de pensar colonial e universalizante que produziu diferenças geopolítica, de gênero, racial e de classe, anunciando a possibilidade de que outro mundo é possível a partir da valorização e do respeito aos diferentes sujeitos, conhecimentos e práticas sociais existentes em diferentes contextos (SANTOS, 2008). A Educação Popular (EP), nesse caso, traz contribuições para a consolidação do processo de descolonização e emancipação de “mulheres” e “homens”, constituindo-se não só num referencial político-metodológico, mas principalmente um modo de ser, sentir e agir, que até pouco tempo orientava apenas os trabalhos das organizações populares e dos profissionais da educação comprometidos com a transformação das relações sociais. Colabora, ainda, para a construção de estratégias gerais de intervenção e para a instrumentalização didático-pedagógica necessária ao processo de reaprendizagem de novos saberes, conhecimentos e práticas. Assim, o modo como nos tornamos “mulheres” e “homens” diz muito sobre como uma sociedade está organizada e sobre como pensa a educação e educa seus seres humanos, que as vezes se tornam não-humanos porque violentam, oprimem e subjugam as capacidades individuais e coletivas que nos fazem sentir ou não pertencentes a essa mesma sociedade. Historicamente, através de uma educação colonial, capitalista e patriarcal fomos levados a construir uma imagem diferenciada das relações, da natureza, da economia, do trabalho e até mesmo da educação. Isto nos levou/leva a sermos “mulheres” e “homens” com resquícios machistas e homofóbicos, porque o colonialismo, seja na sua forma política ou epistêmica, continua a agir como se os corpos das “mulheres” e dos “homens”, tal como a terra e os continentes, fossem espaços e subjetividades vazios que podem ser alienados, ocupados e explorados (CUNHA, 2017). Assim, a Educação Popular, como prática política, como fundamento teórico e metodológico a partir da crítica feminista pós-colonial torna-se uma ferramenta necessária para desconstruir e refazer os conhecimentos e as práticas de saber e de poder que estão presentes no cotidiano da vida de mulheres e homens e, desse modo, contribuir para construção de um pensamento descolonizado, pensamento este que leve em conta tanto a diversidade do próprio pensamento quanto de sujeitos e contextos no qual é construído. Desse modo, desafia-nos o olhar descolonizador sobre o que somos, pensamos e agimos porque a partir do que somos, pensamos e agimos seremos capazes de construir alternativas transgressoras que podem ir além do que pensam que sabemos. Essas possibilidades têm que nascer de nós mesmas/os, têm que brotar do nosso chão. Somos nós “mulheres” e “homens” considerados subalternizados/as e excluídos/as por uma linha abissal, os não-civilizados/as, o não-humanos/as que temos que nos reconhecer, conhecer nossa história e produzir novas práticas a partir das experiências de emancipação e libertação existentes, porque todo povo faz e é capaz de se autoafirmar. Não são os/as outros/as, do Sul ou do Norte, do Oriente ou Ocidente, que ao dizer que somos subalternizados, irão nos fazer permanecer ou nos deslocar de tal situação; se assim fosse, brotaria um novo colonialismo. Essas possibilidades são inerentes ao desejo de viver com dignidade que passa, também, pela solidariedade planetária, pela articulação de pensamentos, conhecimentos e saberes contrários à ordem hegemônica na qual “mulheres” e “homens”, independentes da cor de sua pele, da orientação sexual, da espiritualidade que almejam, sejam capazes de caminharem juntos/as na certeza de que um outro mundo é possível. Acreditamos que isto seja possível através da Educação Popular porque esta ao fazer-se, faz seu próprio caminhar e, como assegura Freire, “ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar”. Ao caminhar, pode-se encontrar no caminho o que tanto se deseja e, nesse caso, “a alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria” do caminhar (FREIRE, 1997; 2000).




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* De Sousa Santos
Universidade Federal de Pernambuco UFPE. Recife, Brasil