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Resumen de ponencia
Debates e reflexões a partir do Serviço Social brasileiro: enlaces entre questão social, racismo e patriarcado em Nuestra América

*Manuela Fonseca Pinheiro Dos Santos



O presente ensaio é parte do projeto de dissertação “Enlaces entre questão social, racismo e patriarcado em Nuestra América: análises das produções científicas do Serviço Social brasileiro”, o qual se fundamenta nas correntes teóricas dos feminismos da América Latina e do Sul Global, as quais indicam a necessidade de pensar e lutar contra um sistema capitalista, imperialista, patriarcal e racista que foi se conformando desde o processo de conquista e colonização de “Nuestra América”. A partir dessas contribuições se indaga como a produção teórica do Serviço Social brasileiro vem abordando essas dominações, e se busca analisar o conceito de questão social construído pela profissão, a fim de identificar suas conexões com as categorias racismo e patriarcado. Para tanto, se opta em transitar pelas produções teóricas sobre as explorações, contradições e conflitos racistas e patriarcais dos distintos autores e autoras do pensamento crítico latino-americano e do Sul Global, bem como pelos aportes dos autores e autoras do Serviço Social brasileiro que produzem sobre Questão Social desde os anos 1990.
Nesse sentido, cabe destacar algumas aclarações conceituais. Neste ensaio, a categoria racismo não se limita aos atos de preconceito e discriminação sobre um grupo social, e sim se entende como uma construção ideológica que se situa historicamente no processo de conquista e colonização de Nuestra América; que solidifica uma classificação social da população sobre a ideia de raça, onde todos aqueles não brancos e não europeus passam a ser considerados inferiores; que se materializa historicamente no processo de servidão e escravidão que indígenas e africanos foram submetidos desde os primeiros anos da conquista; e que se perpetua até hoje através do genocídio real e simbólico da população negra e indígena, da divisão racial do trabalho, e de atos de preconceito e discriminação. Em relação ao patriarcado, este não se refere a uma organização social em que a dominação ocorre do “pai” sobre a “mãe” ou “filha”, e sim a um conjunto de explorações, opressões e dominações de sexo e gênero, as quais são anteriores à conquista em distintos espaços geográficos, mas se perpetuam e se potencializam no processo de colonização de América Latina.
Assim, as distintas contribuições do pensamento latino-americano e do Sul Global, de uma forma geral, apontam que os fundamentos históricos e teóricos do racismo e do patriarcado em “Nuestra América” estão relacionados com a conformação de um sistema capitalista imperialista patriarcal e racista, que, apesar de inúmeras resistências, se construiu com base ao saqueio de recursos naturais, ao tráfico e exploração escrava e servil africana e indígena, o qual foi fundamental para a consolidação do modo de produção capitalista imperialista e dependente, que instituiu não só uma divisão social e internacional do trabalho, mas também uma divisão racial baseada na construção ideológica de uma classificação social da população fundamentada na ideia de raça, transformando em seres superiores todos aqueles provenientes do “velho continente” e inferiores aqueles localizados fora desses demarcações geográficas, sobretudo os de África e do “novo mundo”. Sistema que também se construiu sobre a conformação de uma organização social patriarcal e heteronormativa que fez das mulheres, de um modo geral, as responsáveis pela reprodução social da vida, desde uma divisão sexual que impôs o trabalho doméstico não remunerado, e que, somada a divisão racial, submeteu as mulheres racializadas de “Nuestra América” à violência sexual colonial marginalizando-as historicamente.
Em relação às produções sobre questão social construídas pelo Serviço Social na década de 1990, se identifica que embora reconheçam que a sociedade brasileira é marcada pelas opressões de classe, raça e gênero, não buscam fundamentar historicamente e teoricamente o racismo e o patriarcado. Ao contrário, se identificam distanciamentos, silenciamentos e olvidos sobre essas dominações na construção de tal conceito. As explicações para essas desconexões podem estar no fato que suas bases teóricas se assentam exclusivamente na teoria social crítica marxista ortodoxa e não dialogam com outros saberes latino-americanos e do Sul Global; e seus fundamentos históricos, a partir da análise da formação do capitalismo industrial europeu, demarcam a origem da questão social brasileira no processo de industrialização, apagando o passado colonial marcado por explorações, contradições e conflitos racistas e patriarcais que não foram superados pelo avance industrial, ao contrário, foram agudizados. A partir da construção do conceito de questão social pelo Serviço Social brasileiro, a origem das profundas desigualdades de raça e gênero está no período industrial, promovendo uma leitura da realidade que não possibilita desvelar a construção histórica do racismo e do patriarcado. Embora essas produções sejam hegemônicas, pois circulam entre os principais editoriais, periódicos e aparatos legais da profissão, já se identificam publicações que questionam esses fundamentos centrados no conflito entre capital e trabalho e demarcados na década de 1930, e sinalizam a necessária ampliação teórica e histórica da questão social fincando suas raízes no período colonial marcado pela escravidão e pelo patriarcado.

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* Fonseca Pinheiro Dos Santos
Secretaría de Investigación y Publicación Científica. Facultad de Ciencias Políticas y Sociales. Universidad Nacional de Cuyo - SIPUC/FCPyS - UNCUYO. Mendoza, Argentina