A QUESTÃO DA TÉCNICA: POR ONDE ANDA SUA DIMENSÃO FORMATIVA?
Bruno Pedroso Lima Silva
Doutorando em Educação
Programa de Pós-Graduação em Educação-Universidade Federal de Santa Catarina
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Palavras-chave: técnica, educação, filosofia, política, arte.
Quero propor a discussão, partindo de Heidegger, da questão da técnica, entendendo-a como central e primordial para compreender o esquecimento do ser na modernidade. Investigar a técnica, da techné grega à técnica moderna e a sua entificação como tecnologia, significa realmente questionar, escrutinar. Questionar é finalidade e é uma metodologia.
O questionamento vai além da contemplação fenomenológica, no sentido de construir, pela linguagem, um relacionamento livre com o tema. Aristóteles propôs a existência de quatro formas de causalidade para a poiesis – material, formal, final (o fim do produto, sua razão de ser) e a eficiente (o princípio, o efeito). Questiono, com Heidegger, o obscurecimento da causa final, na técnica moderna, em favor da causa eficiente. Não importa mais o fim, o por que da produção, a sua dimensão ética. Importa o efeito, seu uso, sua instrumentalidade.
A intenção é criar esse campo de tensão, abrir mais ramificações da discussão, partindo do ponto central de Heidegger: a técnica moderna foge da essência da techné e cria o perigo extremo, a partir da armadilha da disponibilidade. A essência da técnica não pode ser nada de técnico, é uma questão filosófica. A determinação corrente da técnica, a sua representação presente, não corresponde à sua essência. A determinação instrumental da técnica - que a confunde com a atividade prática do homem – só explica, domina. Funciona e demonstra. Não reflete. Heidegger expressa o sentido reflexivo da técnica na filosofia grega como a causalidade do “responder e dever”. O produto nasce com um dever a priori, e deve, por isso, responder a esta questão ou reflexão anterior. A produção precisa ser, antes, uma ética. O produto carrega a responsabilidade de um dever, de uma razão para ser pensado e produzido. Heidegger parece dizer que a essência da técnica está efetivamente na techné. O decisivo não é o fazer, e sim o desencobrir. A reflexão anterior da techné – esquecida pela técnica moderna e por sua tecnologia - o projetar, o dever e a responsabilidade do produtor com o produto não poderiam ser pensadas como a dimensão política da techné?
E essa reflexão não exigiria uma formação que pense a partir desse dever e responsabilidade? Os gregos a pensaram como paideia. E nós? Perdemos a finalidade política do fazer?
Heidegger propõe, como ponto de partida, o olhar atento à arte. Em seus escritos, busca em Holderlin e Goethe princípios para ver arte na técnica, e assim, buscar ver o que pode salvar. Techné tornou-se ars. Arte e técnica são conceitos historicamente próximos, quase sinônimos. A filosofia moderna os segmenta. Fundamento do perigo! Será a arte que fará brilhar o poder salvador dentro da própria armação tecnológica? Será possível olhar para a techné e ver, na técnica moderna, um brilho do que salva? Será possível ver crescendo, na técnica moderna, alguma dimensão política, formativa e ética?
PRINCIPAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HEIDEGGER, M. A Questão da técnica. In: HEIDEGGER, M. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes; Universidade São Francisco, 2001. p. 11-38.
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GIACOIA JR, O. Heidegger urgente: introdução a um novo pensar. São Paulo: Três Estrelas, 2013.
LYOTARD, J.F. A Condição pós-Moderna. Trad. Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.
OLIVEIRA, B. J. Francis Bacon e a fundamentação da ciência como tecnologia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
HEIDEGGER, M. Entrevista ao semanário Der Spiegel, 1966. Tradução utilizada: BORGES-DUARTE, Irene. “Já só um deus nos pode ainda salvar”: Tradução e notas à entrevista de Martin Heidegger ao Der Spiegel em 1966. Covilhã: LusoSofia Press, 2009.