Esta apresentação tem por objetivo investigar o intercâmbio epistolar de Mistral e Ocampo a partir do entendimento desta modalidade como uma via particular de discussão sobre a atuação da mulher dedicada à escrita. A possibilidade de liberação nas cartas faz emergir, em comparação aos seus ensaios autobiográficos, contradições e ambivalências frequentemente obliteradas dos escritos publicados. O sentido de unicidade e de coerência muitas vezes imputado às suas trajetórias suprime outros conflitos, como a questão das identidades latino-americanas, tão efervescentes nas correspondências. Partindo das correspondências como fontes primárias para este estudo e os ensaios La Mujer y su Expresión, de Ocampo, e Por una división del trabajo, de Mistral, como fontes complementares, pretendemos revisitar temáticas e reflexões sobre os dilemas de gênero postulados pelas escritoras, de maneira a problematizar as contradições e nuances entre a formulação de discursos sobre o tema e suas atuações.
Em 1945, a poetisa chilena Gabriela Mistral (1889 – 1957) conquistou o primeiro Prêmio Nobel de Literatura para a América Latina. O reconhecimento de sua produção poética e ensaística em nível nacional e internacional rendeu a ela um lugar quase sacralizado no panteão de escritores e poetas latino-americanos, consagração reforçada, ainda, por sua atuação como professora e consulesa. “La Santa Mistral”, como ficara conhecida no Chile, destaca-se hoje tanto pelo legado na poesia quanto pela produção de ensaios e críticas a respeito de seu país. Um esforço necessário para compreender sua trajetória enquanto intelectual, entretanto, consiste na investigação do intercâmbio epistolar estabelecido por ela com outras escritoras. A construção de redes de sociabilidade intelectual, dentro e fora do Chile, foi elemento de extrema relevância para o seu reconhecimento intelectual. O propósito não é relativizar a qualidade de seus escritos, e sim, compreender como a trajetória intelectual de mulheres dedicadas à escrita profissional dependeu da criação de laços de sociabilidade e solidariedade com outras escritoras na mesma condição, especialmente por meio de correspondências. O âmbito epistolar constituiu-se enquanto espaço privilegiado para a discussão de temáticas associadas ao cotidiano destas mulheres, assim como um instrumento para negociações, reflexões e mediações.
Victoria Ocampo, por sua vez, atuou de maneira diversa em relação à promoção dos direitos das mulheres. A temática do feminismo foi sempre bastante cara à Victoria Ocampo. A escritora capitaneou o movimento de resistência ao ataque contra os direitos civis das mulheres na Argentina publicamente em 1936, mesmo ano em que ajudou a fundar a União Argentina de Mulheres, ao lado de María Rosa Oliver e Susana Larguía. A UAM é inaugurada em resposta às organizações católicas que pretendiam assumir a dianteira de uma reflexão a respeito do novo lugar social da mulher. Com Ocampo na presidência, a organização contava com Ana Rosa Schlieper de Martínes Guerrero como vice-presidentes e Perla Berg como secretária.
De acordo com Isabella Cosse, as reuniões informais aconteciam ao mesmo tempo em que Ocampo se posicionava em meios de comunicação de massa, como o rádio. Em determinada situação, Ocampo utilizou de uma conferência de rádio para declamar “La Mujer y Su Expresión” simultaneamente para Argentina e Espanha. O texto fora publicado inicialmente em La Nacion e posteriormente publicado na Sur. Cosse reconhece que à época, a UMA desempenhou atividade de grande alcance graças à propaganda capitaneada por Victoria Ocampo, tanto pelo contato com outras organizações pelo contato com figuras relevantes da época. Dentre os princípios e objetivos da UAM estavam: expandir os direitos civis e políticos das mulheres, o aumento das leis protetoras das mulheres da indústria, da agricultura e do serviço doméstico, amparo à maternidade, proteção ao menor e diminuição e prevenção da prostituição. (COSSE, 2008). Doris Meyer acredita que 1936 tenha sido um período de transformação no pensamento de Gabriela Mistral em relação ao avanço dos direitos das mulheres. Embora tenha sido signatária da carta de fundação da UAM, Mistral não era uma feminista à época e seu posicionamento público se justifica em maior medida como um ato de solidariedade a Ocampo do que por própria convicção.
As correspondências de Victoria Ocampo e Gabriela Mistral indicam um hábito significativo de compartilhamento de ideais e projetos das escritoras, da troca constante de experiências e reflexões sobre suas vivências. Acima de tudo, apresenta uma dimensão significativa dos projetos arquitetados por Ocampo ao longo de sua vida sobre o futuro da Revista Sur. Finalmente, as cartas constituem-se um primeiro plano de elaboração de projetos culturais e narrativas políticas que posteriormente seriam tornadas públicas. Por fim, as correspondências trocadas por Ocampo e Mistral demonstram seu engajamento na produção literária e intelectual, e ainda assim, como em meio à essa atmosfera, redescobriam e redefiniam suas identidades.
As duas escritoras dedicaram-se à construção de imagens de si próprias enquanto mulheres independentes, o que necessariamente implicava em certos silêncios e apagamentos de aspectos que poderiam, por ventura, fragilizar suas respectivas imagens perante o público. Desta forma, o temor de fragilização associado ao seu gênero obliterava narrativas excessivamente sentimentais em seus ensaios autobiográficos, e que por ventura apareciam nas correspondências trocadas entre si. Nota-se, entretanto, o processo de instrumentalização das correspondências como forma de manifestação de posicionamentos políticos, de reflexões sobre suas respectivas condições profissionais e privadas, direcionadas uma a outra. O reconhecimento de mulheres que almejavam notabilidade pública dependia não somente da qualidade de seus escritos literários como das estratégias por elas mobilizadas para se inserirem em circuitos de produção literária de sua época, o que inevitavelmente passava pelo hábito epistolar. O espaço de diálogo inaugurado pela correspondência não se configurou apenas como um campo de discussões e reflexões sobre dilemas relacionados às suas vidas privadas, como lugar para pensar sobre suas próprias obras, para trocar favores com outros escritores, barganhar possibilidades de publicação, entre outras coisas.
O reconhecimento de Gabriela Mistral enquanto escritora não se consolidou apenas e pela qualidade literária de seus escritos, por sua articulação com um cânone literário majoritariamente masculino, reforçado por redes de sociabilidade formadas pela troca de cartas, pela redação de prólogos a artigos e livros de outros escritores. Isso se pautava ainda pela necessidade de autodefinição da mulher escritora em um mundo patriarcal atrelado ao desejo de formação de uma tradição de escritoras mulheres. Em relação à trajetória de Victoria Ocampo, pode-se também afirmar que o esforço para a criação e manutenção da Sur, como sua atuação enquanto mecenas e escritora, esteve atrelada à sua habilidade de se associar diversos escritores e figuras notáveis de sua época, que inevitavelmente contribuíram para sua carreira.
As correspondências emergem enquanto uma autobiografia paralela, fragmentária e frequentemente involuntária do autor, ao mesmo tempo em que representam um instrumento inerente à construção e cristalização de suas imagens pessoais perante a outros escritores. Por fim, representam o vértice de associação entre o vínculo social e a sociabilidade, entre a esfera da individualidade e subjetividade e a de interação com o que é público. Embora lancem luz a respeito das trajetórias de mulheres que ousaram romper com os lugares sociais impostos a elas, as correspondências também escancaram as complexidades e contradições muitas vezes características de suas trajetórias pessoais que, porventura, foram obliteradas. A discussão sobre o lugar das mulheres presente tanto nas correspondências quanto nos ensaios acima discutidos evidencia como esforços para categorizar o pensamento político e social destas escritoras sem recuperar as ambivalências de suas trajetórias seria insuficiente.
Não obstante, as correspondências lançam luz sobre as contradições do pensamento político destas escritoras. No caso de Gabriela Mistral, a complexidade do pensamento político da escritora escapa a quaisquer classificações dicotômicas. Compreender a multiplicidade de Gabriela(s) significa atentar para as estratégias mobilizadas por escritoras a caminho de sua profissionalização, ferramentas as quais contradizem a forma como atuou como escritora internacionalmente reconhecida e consulesa, contradiz a defesa da divisão do trabalho entre os sexos, uma vez que ela própria rompeu inúmeros paradigmas impostos às mulheres de sua época. Inclusive por dedicar em sua poesia à condição da mulher chilena, indígena, da questão de classe e de terra em seu país de origem.
Da mesma maneira, faz-se necessário compreender as muitas “Victoria(s)”, as contradições entre sua predileção pelo europeu e a reconciliação com suas raízes latino-americanas, as manifestações em prol dos direitos das mulheres e as frequentes ausências de um comportamento mais militante. Ao contrário de categorizações definitivas sobre as trajetórias destas escritoras, faz-se necessário compreender as contradições de suas trajetórias, as possíveis incoerências e incongruências para compreender os desafios por elas enfrentados, e em quais momentos eles significavam renúncias ou manifestações.
Desta forma, esta apresentação tem por objetivo discutir a conformação de laços de sociabilidade entre mulheres escritoras latino-americanas tendo o caso de Mistral como ponto de partida para o entendimento da especificidade de trajetórias de mulheres dedicadas à escrita profissional.