Em linhas gerais, o estudo desenvolve uma reflexão acerca do conceito de Gentrificação sobre dois bairros tradicionais no centro da cidade de São Paulo: Vila Buarque e Higienópolis. O conceito é debatido através da retomada histórica das origens e desenvolvimentos concomitantes dos dois bairros, e como estes estabeleceram-se no decorrer do desdobramento dos processos de valorização imobiliária e do crescimento urbano. Sendo a maior cidade do Brasil, São Paulo é palco da desigualdade nos diferentes universos da vida cotidiana – no âmbito da elaboração urbana não seria diferente. Observar a atuação do mercado imobiliário, movimentado pela iniciativa privada e pública, é analisar o quanto o direito de viver no espaço urbano é cooptado pelo capital. A partir das realidades contratantes de Vila Buarque e Higienópolis esta pesquisa relata como o processo de Gentrificação afetou as dinâmicas sócio-imobiliárias de ambos os bairros, a partir do ano de 2013.
A Gentrificação, fenômeno urbano bastante estudado pela arquitetura e pela geografia é, principalmente, um fenômeno social de alteração das relações dos indivíduos entre si e com o espaço em que vivem. Apesar dos estudos sobre Gentrificação concentrarem-se nos Estados Unidos e na Europa, um dos objetivos desta pesquisa foi trazer a discussão para a América Latina, em especial, para o Brasil e para sua metrópole São Paulo.
O estudo Processos de Gentrificação na Cidade de São Paulo – Vila Buarque e Higienópolis: o contraste imobiliário do centro, realizado entre Agosto de 2016 até Julho de 2017 e subsidiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), teve como proposta realizar uma análise sob a perspectiva da Gentrificação aplicada aos bairros Vila Buarque e Higienópolis, na região central da cidade de São Paulo. Bairros tradicionais, ambos apresentam inúmeros contrastes urbanos, envolvendo uma nítida diferenciação entre suas arquiteturas, perfis dos moradores e, principalmente, entre os valores de metro quadrado de seus imóveis.
A concepção “sócio-imobiliária”, na realização deste estudo, consistiu nas mudanças sofridas no âmbito social – envolvendo a modificação de perfis étnicos, culturais e comportamentais – e no âmbito imobiliário, compreendendo a valorização ou desvalorização dos imóveis de uma região específica através de novas construções comerciais, habitacionais, de lazer, da destruição dos antigos imóveis, por exemplo. Durante a realização desta pesquisa evidenciou-se cada vez mais a necessidade de trazer a análise social sobre a produção de desigualdade no espaço urbano em países emergentes e/ou latino-americanos, já que o crescimento econômico de países com índices de desigualdade notáveis possui total influência nos investimentos e no crescimento de suas cidades.
Sendo a maior cidade do Brasil e importante polo econômico, São Paulo possui cerca de 11.967.825 habitantes (IBGE, 2015) e uma área de aproximadamente 1.521,110 Km² (IBGE, 2010). A cidade é repleta por contrastes culturais, sociais e econômicos que permaneceram no decorrer de sua formação e que, provavelmente, deram origem à Gentrificação local.
O capital levou trabalhadoras e trabalhadores para o meio urbano. Simultaneamente, o mesmo capital os desapropriou do direito à cidade. Este direito representa muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos: é também o direito do cidadão de mudar o espaço em que vive à medida que muda suas concepções e opiniões internamente. A urbanização, fenômeno decorrente dos avanços capitalistas, é também produtora da desigualdade no processo de formação das grandes metrópoles da América Latina no século XX em especial, São Paulo.
Tomando como exemplo de movimentação gentrificante ao longo da história da urbanização mundial, ressalta-se o famoso projeto de reforma urbana parisiense conduzido por Georges-Eugène Haussmann, conhecido como “haussmannização”. Este pretendia, além de tornar a cidade mais bela e imponente, cessar com as barricadas, insurreições e combates populares muito recorrentes na época. Era necessária a retirada dos antigos moradores pertencentes à classe trabalhadora da região central da cidade. Sobre este acontecimento, Henri Lebfevre5 menciona na obra “Direito a Cidade”: “elabora-se então uma estratégia de classe que visa o remanejamento da cidade sem relação com as realidades, com vida própria”. (LEBFEVRE, 2016, P.22)
Ruas, becos, ruelas e antigas construções foram destruídas e deram lugar a uma nova organização urbana. Evidencia-se que o processo de Gentrificação é recorrente nas grandes cidades há muito tempo. O termo que, em tradução literal pode ser definido como “enobrecimento”, também é resquício de um processo de colonização que se mostra inacabado. O exercício do capital que movimenta o mercado imobiliário crescente – e que se sustenta tanto pela iniciativa privada como estatal - tende a atingir sua excelência econômica sobre o direito à cidade dos cidadãos.
Dentre todas as realidades contrastantes na cidade de São Paulo no âmbito sócio-imobiliário destacou-se a dos bairros de Higienópolis e Vila Buarque, de forma que o processo de Gentrificação foi evidenciado, observado e analisado - por meio das mudanças arquitetônicas, imobiliárias e dos perfis étnicos - não só como um processo recente do século XXI, mas como recorrente do final do XIX e ao longo do XX, quando foram avaliados os processos de formação históricos dos referidos bairros. Ambos contam a história não só do centro de São Paulo, mas também do fenômeno de classe que perdura nos dias de hoje, caracterizado, por exemplo, pela valorização imobiliária das regiões da cidade. A escolha destes dois bairros para análise surge a partir do aparente contraste entre as regiões. Higienópolis e Vila Buarque são bairros vizinhos na região central paulistana. Além de possuírem perfis étnicos distintos, a valorização imobiliária entre eles é bastante diferente.
Obras arquitetônicas e os perfis econômicos dos moradores das duas regiões são só algumas das diferenças. A grande extensão de ruas arborizadas, lojas de luxo, grandes apartamentos, sistemas modernos de vigilância, maior policiamento e população de maioria branca de Higienópolis se contrapõem às estreitas ruas com inúmeros bares da Vila Buarque, além da presença constante de moradores de rua, antigas construções, má iluminação, diferentes estabelecimentos comerciais que variam de “mecânicos” à venda de materiais artísticos, o bairro ainda conta com maior circulação de indivíduos, devido à presença de pontos de ônibus, estações de metrô e do “Minhocão”.
No decorrer do tempo, a criminalidade, a marginalização e prostituição de Vila Buarque foram algumas de suas principais características, e a elevação do número de pessoas em situação de rua, dependentes químicos e de prostitutas fora marcante. Programas efetuados pela prefeitura durante a gestão de Fernando Haddad (PT) como o Braços Abertos e Transcidadania que tiveram foco na recuperação, educação e acolhimento – não necessariamente com todo sucesso esperado – destas populações marginalizadas, possuíram reflexo na diminuição de tais indivíduos como transeuntes do bairro. Ao mesmo tempo, a ação do capital através da especulação imobiliária contribuiu para a exclusão, no decorrer dos últimos cinco anos dos mesmos indivíduos da Vila Buarque. (Conclusões feitas a partir das pesquisas qualitativas com moradores de ambos os bairros).
Dentre as constatações realizadas por este estudo, uma que se destaca foi a notável mudança de perfil de empreendimentos situados na Vila Buarque. A valorização do metro quadrado do bairro expõe um fenômeno que caracteriza-se aqui como “hipsterização’, em que empreendimentos – em sua maioria gastronômica – chegam ao centro com uma proposta moderna e cult. A vinda dos novos empreendimentos para o bairro foi o motivo responsável pela pequena – mas já aparente – mudança dos frequentadores do local e, principalmente, pelo início de uma valorização imobiliária gradual. O bairro, que historicamente destinou-se às classes baixas e médias atualmente passa por uma mudança completa em suas dinâmicas sociais. Além disso, em linhas gerais, o perfil dos novos moradores de Higienópolis e Vila Buarque é marcado por casais recém constituídos e jovens solteiros(as). Não só nos dois bairros são cada vez mais comuns as moradias ocupadas por um ou dois indivíduos. De acordo com dados da Fundação SEADE para 2010, no Estado de São Paulo são quase 40% os que possuem este traço, sendo 13% até uma pessoa.
Entender a Gentrificação segundo a observação da história e da contemporaneidade de Higienópolis e de Vila Buarque foi perceber que este processo ocorreu assiduamente no decorrer do crescimento das cidades brasileiras e que não é só resultado da movimentação do mercado imobiliário, mas progressivamente, uma violência simbólica contra o direito à cidade, contra a liberdade dos cidadãos de atribuírem significado e história ao meio em que vivem. O processo histórico brasileiro de desigualdade nas suas principais cidades é mais uma das possíveis óticas para a observação das realidades díspares. Os dois bairros do centro paulista, apesar de suas diferenças, são o lugar de moradia e convívio de classes médias e altas. A análise se faz presente para apurar o olhar às movimentações e controles do mercado imobiliário – e suas consequências no cotidiano dos cidadãos.