Resumo
Pretende-se neste trabalho mostrar como a formação de associações, podem ser consideradas uma alternativa de produção emancipadora para os catadores de material reciclável. A partir de um projeto intitulado “Agricultura Familiar e Resíduos Sólidos” sob a responsabilidade da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal Rural de Pernambuco. O projeto atuou junto a associações de resíduos sólidos, na Região Metropolitana do Recife, no Estado de Pernambuco, Brasil, no período de 2013 a 2016. Foi desenvolvido com grupos de catadores de cinco associações de material reciclável. Foi realizado levantamento de cada associação, aplicação de oficinas e capacitações. Nas atividades desenvolvidas promoveu-se o exercício permanente de diálogo de saberes, no confronto de interesses, de visões de mundo, de expectativas de quem se construiu com os estímulos da academia e com quem se construiu nas vicissitudes da vida das camadas populares.
Introdução
O trabalho dos catadores de material reciclável é realizado por meio de associações, na Região Metropolitana do Recife (RMR), no Estado de Pernambuco, Brasil. CARDOSO (2014, p. 7) define associação como [...] qualquer iniciativa formal ou informal que reúne pessoas físicas ou outras sociedades jurídicas com objetivos comuns, visando superar dificuldades e gerar benefícios para os seus associados. [...] em torno de necessidades e objetivos comuns. Sua constituição permite a construção de melhores condições do que aquelas que os indivíduos teriam isoladamente para a realização dos seus objetivos. Segundo Kemp (2008, p. 23) “as iniciativas do associativismo econômico emergem justamente por se tratar de uma resposta, muitas vezes de urgência, ao grave problema do desemprego. Deve-se considerar que a produção de material reciclável é realizada como um caminho para a construção de associações de trabalho e como forma de possibilitar a geração de emprego, renda e inclusão social. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPA (2013), a criação do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais recicláveis foi fundamental no processo de fortalecimento de uma identidade coletiva dos catadores de material reciclável. Em termos econômicos as associações de trabalho do setor de reciclagem buscam alternativas como medida de produção emancipadora, frente ao modelo hegemônico capitalista. O objetivo deste trabalho pretende mostrar como a formação de associações, podem ser consideradas uma alternativa de produção emancipadora para os catadores de material reciclável. Assim, o projeto foi desenvolvido nas seguintes associações de material reciclável: Associação dos Agentes Ecológicos Recicladores da Ilha de Itamaracá (Pro Ilha), Cooperativa de Catadores de Material Reciclável Erik Soares (Coocares), Cooperativa de Reciclagem de Plástico (Cooreplast), Associação de Catadores União e Força (Ascuf) e Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Dom Hélder Câmara.
Metodologia
Foi realizado um levantamento de cada associação buscando compreender a situação atual do indivíduo/família/comunidade/associação, considerando a dimensão econômica. Frente à institucionalização já encontrada, partiu-se para o conhecimento crítico do estatuto, com discussão de critérios, divisão do trabalho, relações interpessoais, confiança recíproca, reconhecimento da diversidade e interesses comuns. Depois, partiu-se para formação e incubação da associação através de cadastramento de moradores de bairros, efetuação da coleta, classificação do material coletado, comercialização e avaliação. Foram realizadas oficinas e capacitações em gestão, legislação, divisão de tarefas, coleta seletiva, classificação, venda e comercialização de resíduos sólidos e seus aspectos produtivos e econômicos. Constituem a amostra as seguintes organizações: Associação dos Agentes Ecológicos Recicladores da Ilha de Itamaracá (Pro Ilha), em Itamaracá, Cooperativa de Catadores de Material Reciclável Erik Soares) e Cooperativa de Reciclagem de Plástico (Cooreplast), ambas em Abreu e Lima, Associação de Catadores União e Força (Ascuf) em Paulista, Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Dom Hélder Câmara em Igarassu. O número de catadores que perfazem a população amostra foi de 72 catadores.
Resultados e Discussões
O processo de acompanhamento das associações se deu a partir das necessidades de cada grupo. Nas associações Pro Ilha e Dom Hélder foram trabalhados os princípios do associativismo como: solidariedade, liberdade, democracia, justiça social e equidade, visando fortalecer nos grupos, a questão da autogestão, dentro dos princípios da solidariedade e da cooperação. Através de oficinas, capacitações, apresentações teatrais, apresentação de vídeo, foram abordados as facilidades de trabalhar por meio da cooperação, do agir em conjunto, união, confiança, respeito, transparência, paciência, comprometimento e participação econômica, como meios de assegurar a sobrevivência do associado. Houve o enfoque na divisão de tarefas, visando fortalecer os grupos na ação coletiva. Também foi iniciado o cadastramento de residências para coleta seletiva do porta a porta. Nas cooperativas Coocares, Coreplast e Ascuf o processo de acompanhamento foi o momento de desincubação, visto que esses grupos já encontravam-se com a autogestão suficiente para continuar as atividades, entretanto, pela falta de adesão de mais associados, os grupos receberam ajuda dos participantes do projeto para a realização do (re)cadastramento de residências para coleta seletiva do porta a porta.
Considerações Finais
Na busca de alternativas para melhorar a qualidade de vida e diminuir a exclusão social, o associativismo surge como um instrumento importante de geração de trabalho e renda para homens e mulheres, constituindo ainda uma possibilidade de incremento no potencial econômico de uma determinada localidade ou região. A produção dos materiais reciclados, antes de ser econômica é uma alternativa de trabalho, renda e ocupação para os catadores. Por isso, se faz necessário melhorar as condições de trabalho desses associados, fortalecendo a ideia de que como associação é mais fácil conseguir a emancipação produtiva, como um espaço de produção/satisfação de necessidades na sociedade.
Referências
CARDOSO, Univaldo Coelho. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE. Brasília, 2014. Disponível em: . Acesso em: 08 mar.2018.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. Situação social das catadoras e dos catadores de material reciclável e reutilizável – Brasil. Brasília: Livraria, 2013.Disponível em:. Acesso em: 19 fev. 2018.
KEMP, Valéria Heloísa et al. Catadores na Cena Urbana: construção de políticas socioambientais. Belo Horizonte/MG: Autêntica,