Com a chegada do Século XXI e a aparição de problemas como: a expansão da brecha entre ricos e pobres, o aumento da desigualdade e a pobreza, baixos salários, crises ambientais produto de modelos extrativistas intensivos, entre outras; levaram às lideranças políticas daquele momento a considerar que, a melhor forma de achar um modelo de desenvolvimento apropriado, era construindo um próprio que, se ajustasse às particularidades e realidades latino-americanas, e que ao mesmo tempo ficasse longe de algumas políticas neoliberais que tinham gerado e agravado seus problemas internos nas últimas décadas do século XIX. Deste modo, se produziu “o giro a esquerda” da política latino-americana (CANTAMUTTO, 2013) também conhecido como “onda rosa”, caracterizado pela ascensão generalizada de lideranças progressistas ou populares na América Latina, que proclamavam em seus discursos a defesa dos mercados internos, a valorização da integração regional, uma maior ingerência dos estados em assuntos econômicos de importância estratégica como os hidrocarbonetos, além de políticas de inclusão ao interior de seus estados.
Esse novo ciclo de políticas latino-americanas que se inicia com o século XXI, estabelece uma visão diferente do que se tinha até esse momento permitindo que fossem criadas novas identidades e definições na busca pelo seu enquadramento na ordem mundial. Assim, surge Sul América como uma definição própria e até oposta e independente em muitos casos do que era considerado como o grande conjunto latino-americano. Essa “South-Americanization”, em palavras de Gardini (2011), foi se fortalecendo e estendendo pela maioria de países da região a través da denominada Onda Rosa, carregada de um alto conteúdo ideológico e social, que foi permeando variadas esferas da vida civil e política, assim como a perspectiva do que deveria ser o bloco sul-americano. Desta maneira, ao analisar os objetivos atuais da UNASUL, pode-se observar que entre suas preocupações mais importantes estão aquelas compatíveis com um modelo de desenvolvimento mais social e progressista, ajustada às realidades desses países, e pelo qual, se distância de projetos anteriores com um conteúdo programático neoliberal, como a Área de Livre Comercio das Américas (ALCA). Prova disso é que entre os principais objetivos específicos da UNASUL se encontram: o reforço do diálogo político entre os Estados-Membros, o desenvolvimento social e humano com equidade e inclusão, a erradicação do analfabetismo e integração energética (UNASUL 2011).
Atualmente, esse fenômeno, denominado de Onda Rosa, enfrenta graves problemas que comprometem sua sobrevivência no subcontinente sul-americano. Em diversos países sul-americanos, com destaque para o Brasil e Venezuela, está ocorrendo crises resultante da falta de legitimidade política de suas lideranças, problemas fiscais e econômicos, decrescimento da economia, aumento do desemprego e da precariedade devido ao incremento da inflação. Ambos países chamam a atenção porque compartilham duas características semelhantes: estão enfrentando uma das piores crises de toda sua história –embora sejam radicalmente diferentes uma da outra- e os dois desempenharam no passado o papel de lideranças regionais em órgãos de integração como a UNASUL-MERCOSUR e a ALBA, respetivamente.
No caso do Brasil, o país enfrenta a que alguns denominaram como a pior crise de toda sua história (OLIVEIRA & CORONATO, 2016), devido: ao agravamento das condições internas, produto entre outras coisas, da falta de medidas para o melhoramento da economia doméstica; e o impacto de problemáticas globais como a queda do preço do petróleo, a crise Europeia e o ligeiro declínio do seu maior aliado comercial, a China, que afeitaram gravemente seu desenvolvimento. Tudo isso, junto com a crise política que se vive no país e que levou ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, além de um processo paulatino da deslegitimação de sua classe política, seja esta pertencente à elite ou não; a desconfiança dos investidores nas empresas, empresários envolvidos em graves escândalos de corrupção, entre outros assuntos, deixam a Brasil em uma situação delicada (LISSARDY 2016).
No caso da Venezuela, sua situação não é muito melhor que a anterior, pelo contrário a crise venezuelana parece ser cada dia mais profunda e inevitável. Após a morte do presidente Hugo Chavez Frias, a Venezuela ficou sumida em um caminho de indecisão entre continuar pelo mesmo caminho ou mudar de direção; além da polarização política que não se resolveu com a chegada do Presidente Maduro ao poder, muito pelo contrário aprofundou-se ainda mais. Hoje, Venezuela vive uma das suas maiores crises internas, com sua moeda cada vez mais desvalorizada, o preço do seu principal ativo, o petróleo caindo, crise alimentícia e desabastecimento de produtos básicos para a população venezuelana. Deixando o país imerso em uma situação que parece não ter saída e a figura da Venezuela se desvanece no panorama regional, onde alguma vez teve um papel importante na configuração da presença política e social sul-americana.
O papel das lideranças políticas dentro das organizações regionais é de vital importância à medida que viabilizam e impulsionam sua formação. Pelo qual, quando se apresentam situações como as descritas anteriormente, se reduz a eficácia de tais países para atuar na esfera regional, minimizando sua influência e chegando em alguns casos até comprometer a sobrevivência dos órgãos de integração, a menos que se gerem novas lideranças. Neste sentido, a diminuição de governos ideias progressistas e/ou socialistas moderadas, é dizer, o enfraquecimento dos governos pertencentes à onda rosa, representa novos desafios para a reconfiguração do Regionalismo Sul-Americano e a sua vez influenciam as dinâmicas de integração, à medida que esses governos desempenharam um papel relevante na definição de valores e determinação de interesses das instituições regionais ao quais estão vinculados, permitindo a convergência de distintos governos com distintas preocupações, para a criação de uma área comum com perspectivas e intenções semelhantes, apesar de suas diferenças.
O presente trabalho pretende responder as seguintes questões: Qual é a incidência das reorientações políticas nas dinâmicas de integração regional, produto da diminuição da onda rosa? Como essa situação afetaria os órgãos que expressam a vontade da constituição de um bloco Sul-Americano, como é o caso da UNASUL?
Porém, para chegar as respostas existe um longo caminho, e outras questões devem ser respondidas a medida avança, como:
A onda rosa realmente está em decadência?
Quais foram as contribuições da onda rosa na conformação do Regionalismo Sul-americano de hoje?
Como poderia ser o Regionalismo Sul-americano num novo cenário político, produto do desaparecimento da onda rosa?
Como essa nova configuração do Regionalismo afetaria à dinâmica de integração regional Sul-americana?
REFERENCIAS
CANTAMUTTO, Francisco. ¿Giro a la izquierda? Nuevos gobiernos en América Latina. RELACSO, México, 2013, n. 2, p. 1-23,
GARDINI, Gian Luca. Unity and diversity in Latin American Vision of Regional Integration. In Latin American Foreign Policies: between ideology and pragmatism. Palgrave Macmillan US, 2011. p. 235-253.
LISSARDY, Gerardo. BBC Mundo, Brasil. 3 de Março de 2016. http://www.bbc.com/mundo/noticias/2016/03/160303_brasil_causas_del_desplome_economico_gl (acesso em 18 de setembro de 2016).
OLIVEIRA, Graziele; CORONATO, Marcos. Como o Brasil entrou, sozinho, na pior crise da história. Época. http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2016/04/como-o-brasil-entrou-sozinho-na-pior-crise-da-historia.html.
UNASUL. Objetivos Específicos. 2011. http://www.unasursg.org/es/objetivos-especificos. 2011. Acesso em 20 de setembre de 2016