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Resumen de ponencia
Caminhos D'Aruanda: Uma etnografia em um terreiro de Umbanda Esotérica de Belo Horizonte

*Bianca Zacarias França



A tríade magia, ciência e religião existe na antropologia desde os evolucionistas. O termo foi consagrado na obra malinowskiana de mesmo nome e sua manutenção nos permite algumas reflexões relativas a política e ao poder que cercam a construção dessas categorias. TAMBIAH (1990) faz uma historicização desses conceitos, abordando-os como categorias ocidentais habitualmente projetadas sobre não ocidentais, em geral, de forma pouco refletida. Muitos teóricos consideraram que ‘’ magia’’, ‘’ ciência’’ e ‘’ religião’’ estivessem presentes em todas as sociedades, podendo assim serem usadas como categorias analíticas comparativas. A partir dessa concepção, diferentes entendimentos se formaram ‘’ sobre seus conteúdos substantivos, seus limites, seus estágios de desenvolvimento, e sobre a qualidade de ‘’ racionalidade’’ que eles retratavam’’ (TAMBIAH, p.2, 1990). O autor coloca o cientificismo ocidental enquanto paradigma em cheque. TAMBIAH (1990) descreve o processo de objetificação da religião tendo em vista o advento do iluminismo, fazendo com que essa deixasse de ser entendida a partir de concepções pessoais de Deus para se transformar em um sistema de crenças. Ou seja, o iluminismo promoveu o reducionismo da noção de religião, colocando-a como sinônimo de ideias e deixando de lado o componente experiencial. Apesar disso, Tambiah não tem uma crítica tão forte a universalização da religião enquanto conceito como ASAD (2010). Esse autor defende que o isolamento da religião enquanto esfera separada das outras esferas da vida (política, economia, Estado...) é uma forma ocidental de entender o mundo e projetar categorias. Se tratarmos a questão nos termos de uma diversidade religiosa, ainda assim reafirmaríamos a tese de uma universalidade, uma vez que a religião estaria presente em todos os lugares mesmo que sobre variadas formas. Sendo assim, comparamos aspectos diferentes, supondo que têm algo em comum. Nesse sentido, ao analisarmos a Umbanda Esotérica, a qual pormenorizarei posteriormente, percebemos que o conceito de conhecimento Uno ou Integral é bastante caro a essa doutrina religiosa. Se por um lado há um processo de esfericização da vida e seus conhecimento em um viés ocidental como evidenciado por Asad, por outro a Umbanda esotérica coloca uma proposta de união, ou mais do que isso, reconhecer o que nunca esteve separado. O entendimento ocidental sobre a magia, segundo TAMBIAH (1990), é herdeiro de duas visões históricas. Uma delas é o judaísmo que distinguiu fortemente a adoração monoteísta da idolatria pagã. Haveria um hiato entre YHWH (Deus), a natureza e o homem. A natureza assim como o homem não seria conectada a Deus, não partilharia seu corpo ou substância, e adicionado a isso há a ideia de que não existe causalidade mecânica entre o pecado do ser humano e seu efeito. Essa visão reconhece a eficácia da magia, mas a entende como uma falsa religião. A cosmologia dita pagã abarcaria a primazia de uma natureza independente dos Deuses, não havendo uma transcendência desses em relação ao universo. ‘’ Não há laços fixos entre deuses e homens, de modo que os homens podem aspirar serem deuses’’ (TAMBIAH, p.8, 1990). A cosmologia relativa à Umbanda esotérica apresenta característica parecidas com as que o Judaísmo antigo atribuiu ao paganismo, apesar de esta ser uma doutrina também cristã. O ser humano é compreendido como Deus. E não é à toa que a palavra ‘eu’ está no meio do vocábulo ‘Deus’. Sua evolução não é compreendida como uma forma de ascensão de uma existência simplificada para uma mais complexa. O que há é uma tentativa de retorno ao estado original de emanação divina onde já estivemos antes e escolhemos deixar para viver na matéria. Somos, nesse entendimento, criaturas incriadas como o próprio Deus. O médium que pratica magia lida com os elementos da natureza para aplicar sua vontade que é entendida como força motriz da magia. Mais do que isso o ser humano teria uma relação metonímica com a natureza: o sangue se relaciona com água, os pulmões o ar, a carne a terra e os processos bioquímicos que geram energia o fogo. O médium fala diretamente com entidades que para muitos são tidas como ‘’ transcendentes’’ e essas atuam de forma incorporada em seu organismo. A má conduta não é entendida como pecado stricto sensu. Implicaria na ação da Lei e Justiça divina para equilibrar os mundos. Não há uma aspecto dualista maniqueísta de bem ou mal, mas um gradiente de forças que devem se equilibrar. Além do judaísmo antigo, TAMBIAH (1990), aponta a Grécia como um legado histórico que influenciou a compreensão ocidental sobre magia, uma vez que essa é tida como o berço da ciência contemporânea. Os classistas apresentaram critérios restritivos para o que consideraram como ciência: ‘’ primeiro, a ‘’ compreensão, descrição e/ou explicação ordenada e sistemática de fenômenos naturais’’, e o segundo, ‘’ as ferramentas necessárias para esta empreitada, incluindo, especialmente, lógica e matemática’’.’’ (TAMBIAH, p.10, 1990). Para Tambiah, os gregos antigos não entendiam a ciência da mesma forma como ela se apresenta hoje, mas possuíam de fato alguns termos como filosofia, episteme e teoria. O autor afirma que esses conheciam a categoria de magia e alega-se que a primeira vez na literatura ocidental que um conjunto de crenças foi definido como ‘mágico’ foi em um texto médico escrito em grego no século V. Esse texto é considerado um marco por rejeitar a ideia explicativa de que uma doença seria causada por motivos mágicos, sobrenaturais ou divinos. Pelo contrário, essa teria uma explicação naturalista. Rotular algo como magia é, com alguma frequência, usado como categoria de acusação para desclassificar a cultura do outro. Não podemos dizer que haja uma magia em geral, uma vezes que essa categoria é inventada e, para muitos, ligada ao sobrenatural, o que faz pressupor a ideia de uma natureza (que não é universal). Tambiah nos alerta para o fato de que tanto a ciência pré quanto pós-Aristotélica apresentavam aspectos místicos: ‘’Por exemplo, as seitas pitagóricas cultivavam doutrinas e práticas esotéricas, incluído astrologia e teoria mística dos números’’ (TAMBIAH, p.12, 1990). Esses são conhecimentos caros à Umbanda esotérica, sendo que os filósofos naturalistas gregos são acionados, por entenderem o mundo como sendo constituído pelos quatro elementos (terra, ar, água e fogo) e pelo éter, para explicar, por exemplo, o conceito de axé. Dessa forma, o conceito grego de arché ou arque estaria intimamente relacionado ao conceito de axé presente nos terreiros de umbanda. Podemos apontar a separação do natural e do sobrenatural como uma consequência do pensamento grego que influenciou o ocidente. ‘’ Assim, a ‘’ magia’’ era demarcada contra a medicina enquanto ‘’ proto-ciência’’ ’’ (TAMBIAH, p.12, 1990). A magia era considerada algo eficaz, apesar de estar errada em termos religiosos e científicos. O presente trabalho tem como objetivo uma reflexão a cerca dos conceitos magia, ciência e religião e suas implicações políticas e relativas ao poder, tendo em vista as potencialidades, a polissemia e as apropriações locais que permeiam a construção dessas categorias. O estudo foi possível devido ao trabalho de campo realizado no Templo Universalista e Espiritualista Solar – TUÉS, um terreiro de Umbanda Esotérica que se localiza na cidade de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. O movimento umbandista atual seria, para o grupo, uma tentativa de restaurar o aumbhandan – conhecimento integral e anterior a própria Umbanda. O Brasil é tão importante porque é aqui que tudo começou, é aqui onde o Aumbhandan foi revelado e é aqui que o aumbhandan ressurgirá na visão dessa linha religiosa. Para os membros do TUÉS, viria daí a visão do Brasil como pátria do evangelho e coração da espiritualidade na Terra apontada também por muitos kardecistas. É interessante perceber como esta cosmologia se vale do discurso acadêmico para contestar a tese vigente em relação a origem da humanidade na Terra. Assim, podemos perceber as implicações cosmológicas e epistemológicas geradas pela polissemia e as apropriações locais em relação a construção das categorias magia, ciência e religião.
O presente trabalho é uma reflexão acerca da tríade magia, ciência e religião e suas implicações políticas e relativas ao poder, tendo em vista as potencialidades, a polissemia e as apropriações locais que permeiam a construção dessas categorias. Isso foi possível devido ao trabalho de campo realizado no Templo Universalista e Espiritualista Solar – TUÉS, um terreiro de Umbanda Esotérica que se localiza na cidade de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. O terreiro foi fundado em 2009 por Luís Gustavo, sacerdote da casa, e sua família.




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* Zacarias França
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG. Belo Horizonte- MG, Brasil