Resumo
Este artigo dialoga com a produção artística e o teor político do Coletivo das Liliths que, ao longo dos seus quatro anos de formação, produziu uma série de peças teatrais que têm por objetivo dar visibilidade às vozes subalternizadas na intersecção entre raça, gênero e sexualidade. Neste artigo, analiso o espetáculo Xica, que conta a história, baseada em fatos reais, de Xica, uma negra africana, escravizada, quimbanda, considerada como a primeira travesti não-índia do Brasil. Xica Manicongo, como a peça prefere chamá-la, foi denunciada para a Inquisição por não se encaixar nos paradigmas binários impostos e assim se constituiu como uma representação de afirmação político/social na luta pelo reconhecimento da identidade de gênero. A peça parte de um texto sobre o caso, escrito por Luiz Mott, mas se apropria de reflexões mais atuais para recontar a história dessa pessoa que foi tratada no masculino pelo pesquisador.
O Coletivo das Liliths3 foi criado em 2013 por estudantes de vários cursos de graduação da Universidade Federal da Bahia e que viviam ou ainda vivem em uma das residências estudantis da instituição. Formado por Omar Leoni, Ricardo Andrade, Thiago Carvalho e Georgenes Isaac, o grupo produz peças de teatro que tratam da diversidade sexual e de gênero. O coletivo já desenvolveu seis espetáculos: Circo dos Horrores (2016), Eva (2015), Adão (2014), Lady Lilith (2013), Lilith's Monster - O circo dos Horrores (2017) e Xica (2017), que conta a história, baseada em fatos reais, de uma negra africana, escravizada, quimbanda, considerada como a primeira travesti nãoíndia do Brasil. Xica Manicongo, como a peça a identifica, foi denunciada à Inquisição por não se encaixar nos paradigmas de gênero binários impostos. Xica pode ser considerada uma precursora na luta pelo reconhecimento da identidade de gênero no Brasil.
O Das Liliths poderia ser apenas um coletivo que reafirmasse as identidades LGBT e isso, por si só, já seria um excelente exemplo de militância. No entanto, o grupo, formado por pessoas que buscam contar suas singularidades através de dessas montagens a partir de processos colaborativos, como comenta Georgenes em uma mesa da Mostra Cus 10 anos – eventos em comemoração aos 10 anos do grupo de pesquisa
Cultura e Sexualidade - ``o que a gente tinha muito era a necessidade de falar sobre nós, e estar falando sobre nós estaríamos falando sobre muitas outras ´´. O coletivo produz política em seu sentido mais tradicional, pois faz parte, desde 2017, do Conselho LGBT do Estado da Bahia, e também através da arte, com a qual cria um pensamento crítico para intervir poética e performativamente no campo político. Por meio da arte, o Das Liliths tenciona a cisnormatividade para que pessoas dissidentes possam ter direito à existência e que as identidades de gênero diversas possam ser pensadas para além da linha coerente entre sexo-genitália-gênero.
Ao criticar a cisgeneridade diretamente ao questionar o padrão de família cristão queestá na Trilogia da nova gêneses o seus primeiros três espetáculos, possibilita que outros corpos, outras experiências que foram e são marginalizadas ``Contar a história de Lilith a partir dos filhos que nasceram de seu ventre já amaldiçoados, como Lilith ocupa as margens da história de Adão e Eva que já propõe um padrão excludente um casal branco e heterossexual´´ a ponta Georgenes. Eles acionam o pensamento que Viviane Vergueiro (2015) levantou em sua dissertação, ao entender que o conceito de cisgeneridade é “utilizado fundamentalmente para se pensar nas formações corporais e identidades de
gênero naturalizadas e idealizadas”. A proposta Das Liliths é justamente proporcionar a transgressão para que corpas diversas possam re-exitir.
*PS: Este texto faz parte de uma pesquisa que desenvolvo no mestrado do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, da Universidade Federal da Bahia, e também integra a pesquisa Outras políticas para o respeito às diferenças sexuais e de gêneros no Brasil hoje, financiada pelo CNPQ e coordenada pelo professor Leandro Colling junto ao grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS).
Mais informações na Fanpage do Coletivo das Liliths no Facebook: www.facebook.com/dasliliths