Moçambique é um país africano localizado no extremo oriental, na região sul do continente. Ex-colônia portuguesa, Moçambique conheceu uma dura realidade, própria do regime de exploração. Durante este período, os moçambicanos ficaram submetidos à coroa portuguesa e reduzida a sua autonomia territorial e cultural dos mais de 20 grupos étnica existentes em Moçambique.
Ora, alcançada a independência territorial em 1975, os moçambicanos comemoraram o fim do jugo colonial e (re) início da liberdade de manifestação étnica. Para frustrar esta esperança, o governo instituído em substituição do regime colonial, enveredou pelo “socialismo”, tendência política que combateu toda manifestação étnico-regional ou qualquer outra forma associativa, para pôr em evidência o seu projeto de Estado-nação, de orientação “socialista”. A medida visava evitar criar unidades regionais que pusessem em causa a unicidade territorial e a nação emergente, assente numa pluralidade étnico-linguística.
Para esse fim, durante a Primeira República (1975-1990) foi proibido por lei qualquer forma de manifestação política e étnica e até alguma restrição de manifestações religiosas e de outras práticas culturais das comunidades consideradas de obscurantistas e tradicionais. No entanto, quem atentasse contra a lei, era digo de represálias e em alguns casos, dependendo da gravidade da acusação, desterrado para os “chamados centros de redução”. Generalizou-se também o desrespeito às autoridades locais que representam o poder linhageiro e étnico.
Durante este período de uma quinzena de anos, a unidade defendida teria sido literal, pois que o governo foi acusado de não ter evitado o regionalismo que se propunha em combater, uma vez que a partir da elite criada durante a luta de libertação nacional, o poder concentrara-se nas mãos de uma minoria do sul do país, o que viria a refletir, logicamente, na distribuição de riquezas e oportunidades, na qual, esta região fora a mais privilegiada em detrimento do centro e norte do país, mais populosas e mais ricas sob ponto de vista de recursos.
Com a morte deste regime de partido único e inaugurada a Segunda República em 1990, à luz da nova Constituição foi permitido que no território se manifestassem partidos políticos e organizações sociais, legitimadas por leis específicas, como a Lei nº 08/91, sobre a liberdade de associação, Lei nº 09/91, sobre a liberdade de reunião e manifestação, ambas de 18 de Julho.
A partir de então, começam a surgir partidos políticos e organizações sociais, que de entre muitos destacamos o MOCIZA (Movimento Cívico de Solidariedade e Apoio à Zambézia), A SOTEMAZA cujo acrônimo se refere às quatro províncias da região centro de Moçambique (Sofala, Tete, Manica e Zambézia) e ASSANA (Associação para o Desenvolvimento de Nampula) que reivindicavam interesses regionais e cujas ações por pouco, não criaram cisões com a estrutura central, por considerar que esta não era representativa e inclusiva. De ora em diante os movimentos étnicas passaram a ser cíclicas e as ameaças de rotura com a unidade nacional, contínuas.
Portanto, adiar as reivindicações dos grupos éticos organizados é criar condições para a eclosão de conflitos étnicos que não se pode prever a sua magnitude, aliás, atribui-se a esta falta de observação das especificidades e reivindicações étnico-regionais que deu lugar ao conflito armado que eclodiu no país anos pouco depois da independência e durou 16 anos de fogo intenso, tendo destruído significativa parte das infraestruturas e dizimado cerca de um milhão de habitantes. De notar que este conflito grandemente foi movido por indivíduos da região centro e norte do país que encontraram razões para justificar as suas incursões militares, no regime vigente apelidado de “Socialismo” que na verdade era uma ditadura e na falta de proporcionalidade regional. O conflito terminou em 1992 e a três anos o mesmo grupo, nas mesma região epicentro, sacudiu novas investidas, desta vez, alegando parcialidades no governo, exigiu autonomias regionais.
Portanto, acomodar os interesses dos diferentes grupos étnicos de um território formado nas circunstâncias históricas como as de Moçambique não só é importante, mas imperioso, para a construção da referida unidade nacional. O princípio de integração social e a comunicação intercultural podem garantir a unidade na diversidade.