Uma experiência nova em educação superior surgiu no Brasil, em 1990, em nível de acesso ao Ensino Superior, principalmente em Universidades Públicas: é a Educação do Campo. Ela foi gestada principalmente pela Via Campesina, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Movimento dos Atingidos por Barragens, Movimento dos Pequenos Agricultores, Articulação dos Povos Indígenas e Movimento Negro e Quilombola. Ela nasceu da necessidade de pessoas vulneráveis que moram no campo e não dispõe de acesso à universidade, como os indígenas e outros setores vulneráveis da sociedade como quilombolas (descendentes de pessoas que foram escravizadas e moram em quilombo), faxinalenses, pessoas do fundo de pasto, ribeirinhos, acampados e assentados do Movimento Sem Terra, pequenos agricultores e alguns poucos vindos da cidade. Ela pode ser realizada de forma regular, todos os dias os estudantes indo à Universidade, ou em regime da Pedagogia da alternância onde os estudantes ficam uma parte do tempo alojados na universidade, tendo aulas pela manhã e tarde. No outro período de tempo, realizam estágios e trabalhos acadêmicos em suas comunidades. Para os povos indígenas que residem perto de Laranjeiras do Sul, no estado do Paraná é uma das poucas oportunidades de acesso ao ensino superior. Eles são das etnias Kaigang e Guarani, mas vivem com recursos poucos, de seu artesanato, do bolsa família do governo, ou da agricultura de subsistência. Eles vêm das aldeias existentes nos Municípios de Nova Laranjeiras (Rio das Cobras), ou de Mangueirinha, no Paraná. No campus da Universidade Federal Fronteira Sul, estão cursando a Educação do Campo - Ciências Sociais e Humanas 66 indígenas, sendo que no dia 03 de fevereiro de 2018 três educandos colaram grau, já estando exercendo a docência nas escolas indígenas de suas comunidades. No início do curso, há uma certa dificuldade entre professores e alunos tendo em vista que eles apreendem primeiro a língua materna (Kaingang ou Guarani) e somente vão aprender o português com 7 anos, quando ingressam na escola dos não indígenas. Os educadores precisam fazer um esforço para fazerem-se compreender pelos educandos e estes têm que esforçar-se para adquirem maiores conhecimentos na língua portuguesa. É uma experiência diferencial que ocorre em muitos estados do Brasil, de Norte à sul. É o Direito à Educação previsto na Constituição Federal do Brasil de 1988 que é efetivado de modo concreto e não fica apenas como uma letra morta da lei. A forma de ingresso dos estudantes na Educação do Campo verifica-se através de um processo especial de vestibular que é realizado em dezembro e julho de cada ano. As despesas de alojamento para as primeiras seis turmas foram assumidas pelo Governo Federal, mediante o convênio do Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo (Procampo) o qual apoia a implementação de cursos regulares de licenciatura em educação do campo nas instituições públicas de ensino superior de todo o país, voltados especificamente para a formação de educadores para a docência na segunda fase do ensino fundamental (quatro anos finais) e ensino médio, nas escolas localizadas no campo. O Ministério da Educação no Brasil (MEC) repassa às instituições de ensino recursos de R$ 4 mil por aluno ao ano, durante quatro anos. Elas têm autonomia para organizar o formato dos cursos. Os cursos de licenciatura em educação no campo do programa Procampo têm um modelo básico, definido pelo Ministério da Educação. O Tempo de duração, currículo e regime de alternância são pontos a serem seguidos pelas instituições de educação superior que oferecem os cursos. O modelo prevê cursos de quatro anos, com etapas presenciais (tempo-escola), em regime de internato, num período de 40 a 60 dias por semestre, e fases em que os estudantes combinam teoria e prática, desenvolvem pesquisas ou mobilizam a comunidade onde residem ou trabalham (tempo-comunidade). Em Laranjeiras do Sul, no estado do Paraná, o Curso de Ciências Sociais e Humanas é realizado de forma interdisciplinar. Os formandos podem atuar na docência na sociologia, filosofia, história e geografia. É um modo de resgate, para os povos indígenas, de tudo o que foi retirado pelos brancos. Porém, na Universidade é efetuado o acesso ao ensino superior e a permanência dos indígenas, na Educação do Campo - Ciências Sociais e humanas, com respeito e admiração pela sua cultura, pelas suas tradições, pelos seus costumes, que são muito valorizados na Universidade, pelos colegas, pelos Educadores.