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Resumen de ponencia
Édouard Glissant: Pensar na Ilha, ser o Arquipélago

*Susan De Oliveira



Édouard Glissant (1928-2011), escritor e ensaísta martinicano, fundamentou seu pensamento e suas teses através de um percurso extensivo que ultrapassa a insularidade da Martinica e se define pela relação da Ilha com o Arquipélago caribenho das Antilhas que ele chamou de Antilhanidade na sua obra principal “El Discurso Antillano”, publicado pela primeira vez, em francês, no ano de 1981 e, finalmente, publicado em espanhol, em 2010, pela Casa de las Américas, tendo assim uma maior difusão no espaço latino-americano. O conceito de Antilhanidade define o arquipélago como uma episteme primordial para a elaboração da pós-colonialidade desde a produção cultural constitutiva da experiência colonial afro-caribenha onde elementos como a crioulização cultural e linguística que dela derivam servem também de aporte para a compreensão do legado civilizatório da diáspora africana nas Américas ou Neo-América - tendo exatamente como porta de entrada as Ilhas do Caribe, conhecidas também como Caraíbas devido à presença desta etnia indígena nos primórdios da colonização europeia na América Central. Assim, tão importante quanto o conceito de Atlântico Negro (Paul Gilroy) como topos da história negra colonial é a percepção do arquipélago como locus de pensamento, ou seja, como fundante de um pensar em constante deriva identitária, sob a memória do degredo, das perdas, da violência e da tentativa de tornar território próprio a plantation que é a continuidade do navio negreiro, mas também o lugar em que a possibilidade de fuga constituiu-se como valor inerente ao ethos da crioulização cultural, da marronagem e da quilombagem entre os negros africanos nas Américas. No espaço da plantation, como paisagem cultural compósita, coube aos africanos e seus descendentes usarem a língua crioula como dispositivo de sobrevivência onde a errância e o inacabamento a caracterizam não como afirmação essencialista da origem, do retorno ou da demarcação étnica. A plantation é o ventre da cultura compósita e a crioulização que nela se produziu, a partir do desapossamento das origens e das línguas dos africanos escravizados, é o primeiro elemento constitutivo da feitura de uma nova humanidade nas Américas. Importa dizer que a crioulização para Glissant não se confunde com a mestiçagem, ou seja, não se define pela racialidade das relações em sua formulação biológica. Como elemento fundante da episteme que refunda a ilha da plantation na ideia do arquipélago, a crioulização no Caribe define valores civilizacionais que, segundo Glissant, abrangem também toda a América Central incluindo o nordeste brasileiro e o sul dos EUA. Entretanto, Glissant diz que não há fronteiras entre a Meso-América, a Euro-América e a Neo-América pois não se trata da mera cartografia dos espaços, mas da sua geografia profunda, da paisagem “irrué” produzida pelos movimentos de populações e de culturas. O fenômeno da crioulização da Neo-América se caracteriza por receber e oferecer influências às outras Américas ao mesmo tempo em que nela, diz Glissant, “é a África que prevalece”. Das práticas na plantation que tornam a paisagem natural uma expressão humana surgiu o neologismo “irrué” para expressar a um só tempo a irrupção e a erosão do real no ato do cultivo e da sua contemplação. A partir deste escopo, este trabalho se propõe a refletir sobre a episteme do arquipélago de Édouard Glissant, descrevendo e analisando a plantation como experiência que possibilita sair da insularidade e entender fenômenos a crioulização das línguas e culturas, a marronagem e a quilombagem não como características do “espaço fechado” mas como criação do “espaço aberto”, ou seja, como experiências fundamentais ao “pensamento arquipélago”. Pensar na ilha e ser o arquipélago - como parte do arquipélago - é o que faz do legado de Glissant um campo epistêmico e, portanto, abordá-lo supõe também que ele esteja inscrito na própria escrita de Glissant. Assim, veremos que a escrita ensaística de Glissant é expressão de um método que ele define por conceitos de evasão como “rastros”, “resíduos”, “desvios” e “rizoma” que apontam para uma ética de estar no mundo e uma poética que se desprende e institui a “Relação” com “Todo o Mundo”. O pensamento que se funda sob a visão do arquipélago e no espaço da crioulização é mais do que resultado – efeito – da plantation: é a prefiguração de uma nova consciência do mundo que se torna possível face ao desmoronamento das fronteiras.




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* De Oliveira
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Florianópolis, Brasil