Em meio às lutas de redemocratização nacional, ganham força formas de reivindicação pautadas em pertenças coletivas, vínculos históricos e baseadas na politização da vida cotidiana, de hábitos, modos de vida e práticas socioculturais, como a luta de povos indígenas, dos camponeses e a luta do movimento negro urbano. Cada segmento a sua maneira imprimiu marcas na nova Carta Magna, tentando fixar demandas nos marcos Constitucionais, bem como intervir em debates (re)iniciados com a abertura política e pela sensação de euforia causada pelas possibilidades de mudanças advindas com a Nova República. Este trabalho tem como objetivo analisar o processo de emergência de uma entidade específica do movimento negro no Maranhão, a saber, o CCN (Centro de Cultura Negra), bem como sua interface e interferência direta na garantia de direitos territoriais às chamadas “comunidades remanescentes de quilombos” ou, conforme nomenclaturas de época, “as comunidades negras rurais” em âmbito nacional e regional. Parte significativa do material que subsidiou as discussões nacionais adveio do Maranhão, tendo sido iniciadas atividades relacionadas ao conhecimento desse tipo de comunidades ainda em meados da década de 1970, a partir do trabalho voluntário de militantes do movimento negro, com especial atenção para Mundinha Araújo. Assim, interessados na realidade organizativa de comunidades rurais, em memórias pós-escravidão, calendários de festas, formas de cultivo e uso da terra desenvolveu-se um trabalho de registro. Essa experiência inicial ganha forma coesa e subsidiará a experiência do projeto de mapeamento de práticas socioculturais e assessoria jurídica intitulado Projeto Vida de Negro (PVN), realizado em comunidades quilombolas no interior do Maranhão entre 1988 e 2005 em parceria com a SMDH (Sociedade Maranhense de Direitos Humanos). Entre os resultados deste projeto, tem-se a mobilização das comunidades quilombolas em um polo organizado, com o posterior surgimento em 1997 de uma entidade específica destas comunidades, a ACONERUQ (Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), funcionando como um “fórum de representação das comunidades quilombolas”, conforme seu estatuto. Por sua vez, os caminhos políticos e estratégias de intervenção na garantia de direitos territoriais não são unitários, apresentando-se de forma multifacetada e sob diferentes visões sobre os caminhos de interface frente o Estado e instituições públicas, o que coloca em questão a unidade política da ACONERUQ e culmina com a eclosão do MOQUIBOM (Movimento Quilombola do Maranhão) em meados de 2010, apontando divergências nas formas de ação política das comunidades quilombolas. Estes polos organizados têm entre si estratégias diferenciadas e certos antagonismos públicos, o que coloca em pauta as percepções políticas das organizações quilombolas, que politizam seus laços comunitários e práticas a partir de entendimentos, formas de mobilização e parcerias políticas. Por sua vez, o surgimento de setores organizados que representam comunidades quilombolas em suas demandas frente instâncias públicas também tem novos registros, como a partir do MOQBEQ (Movimento Quilombola de Bequimão) e da UNIQUITA (União dos Quilombos de Itapecuru), evidenciando caminhos múltiplos em termos de ações e formas organizativas, seja em nível mais local, como ocorre no município de Bequimão ou em processos mais regionais, como ocorre na microrregião do Itapecuru.
Nesta pesquisa, realizou-se levantamento de material bibliográfico que possibilitasse o entendimento das características gerais dos movimentos sociais, bem como o processo de reorganização do movimento negro no Brasil e que culmina com a criação de uma entidade específica do movimento no Maranhão, bem como os desdobramentos que propiciam a organização dos quilombolas enquanto ator político. Utilizou-se como recurso metodológico a realização de entrevistas com lideranças do movimento negro estadual e com lideranças quilombolas tanto da ACONERUQ, quanto do MOQUIBOM, visando entender as representações sociais desses setores entre si e confrontando entendimentos como forma de compreender as configurações de poder em jogo, bem como estratégias políticas.